"Existem dois tipos de empresas hoje, as que compram outras e as que são vendidas. Queremos ser do grupo que compra". A frase é de Antonio Carlos de Gissi Jr., CEO do Essere Group, e foi dita em entrevista ao AgFeed em novembro de 2023.

Era um tempo de crescimento acelerado e planos ambiciosos para o grupo com sede em São José do Rio Preto e unidades fabris em Olímpia, no interior paulista. Holding que controlava as empresas Kimberlit e Loyder, de fertilizantes especiais, e Bionat, de insumos biológicos, o Essere avançava em ritmo de 70% ao ano e projetava atingir receita bilionária em 2026.

De lá para cá, o cenário mudou radicalmente para a companhia. Em 2024, ela ainda apresentou crescimento expressivo, fechando o ano com faturamento de R$ 534 milhões. Depois, entretanto, passou a encolher, sob o peso de um mercado adverso, de questões geopolíticas que implicaram no aumento do preço dos insumos e da elevação dos juros que fizeram seu endividamento explodir.

Há menos de duas semanas, a situação chegou a um ponto de inflexão, bem diferente daquele projetado pelo seu CEO dois anos e meio antes. Com um passivo declarado de R$ 222 milhões, o Essere Group protocolou, no dia 14 de agosto, um pedido de recuperação judicial, agora em trâmite na Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto, em um dos primeiros casos envolvendo companhias do seu segmento.

Segundo a petição, a empresa vive um momento de pressão de liquidez e o descasamento financeiro, que teriam elevado a dependência de capital de terceiros e reduzido a capacidade de pagamento. Isso teria levado credores a buscarem o bloqueio de recursos da empresa, que poderiam comprometer a sua capacidade de manter a operação, com pagamento de folha e aquisição de insumos.

O pedido ainda não foi deferido pelo juízo responsável pelo caso. Em 19 de agosto, a justiça determinou a realização de uma perícia para avaliar se as empresas do grupo estão realmente ativas, se possuem instalações físicas operacionais e se a documentação contábil apresentada condiz com a realidade.

No requerimento, que envolve as três empresas, o grupo pedia suspensão das execuções, o que foi concedido no mesmo despacho, assim como a antecipação do stay period, o desbloqueio imediato de valores, bens e direitos e a proibição da interrupção de serviços de energia, água, telefonia e internet.

Procurado pelo AgFeed, o Essere Group enviou nota em que informa que "protocolou pedido de Recuperação Judicial, instrumento previsto na legislação brasileira e recomendado por assessorias especializadas após avaliação da estrutura financeira e operacional da companhia".

Aponta que "o processo encontra-se em sua fase inicial, aguardando análise do Poder Judiciário, razão pela qual não serão concedidas entrevistas neste momento".

E reforça que "suas operações continuam normalmente e que permanece comprometida com seus clientes, colaboradores, fornecedores, parceiros e com o desenvolvimento do agronegócio brasileiro".

Na petição, os dados apresentados pela companhia revelam o peso da sua dívida financeira. O Essere Group declarou dever R$ 184 milhões a instituições financeiras, lideradas pelo Banco do Brasil, que, sozinho, detém R$ 68,3 milhões.

Itaú, com R$ 42,4 milhões, e Santander, com R$ 37,4 milhões, vêm a seguir na lista dos maiores credores — os três bancos juntos somam mais da metade da dívida declarada. Cooperativas de crédito do agro, como Sicredi, Cocred, Credicitrus e Sicoob, também integram a lista, assim como a fintech Agrolend. Não constam entre os credores fundos como FIDCs e Fiagros.

A petição conta também um histórico recente de deterioração acelerada das finanças do grupo. De outro, os indicadores financeiros contam uma história de deterioração acelerada: a liquidez corrente caiu de 1,72 para 0,96 entre 2022 e 2026, a alavancagem sobre o capital próprio saltou de 3,33 vezes para 6,22 vezes, e o faturamento de 2026 despencou para R$ 56,2 milhões até junho, contra os R$ 494 milhões registrados no ano anterior inteiro.

Com 36 anos de atuação, o Essere Group ganhou maior visibilidade no início da década. O grupo mantém três fábricas em Olímpia, afirma gerar 420 empregos diretos e atuar em 22 estados e 572 cidades. Sua origem se deu em 1989, com a fundação da Kimberlit, em Batatais, por um colega de curso técnico de Gissi, cuja família, dona de uma revenda de insumos em Olímpia, incorporou a empresa em 1994.

Em 1998, o grupo decidiu focar na indústria. "Na revenda, tínhamos uma área limitada. Fornecedores como a Bayer e a Monsanto limitavam nossa área de atuação. Na indústria, não teríamos isso", contou Gissi em entrevista.

Em 2004/2005, já faturando R$ 24 milhões, a empresa sofreu seu primeiro baque, quando a soja teve uma quebra de 50% na safra em função da infestação pela ferrugem asiática. Para Gissi, aquela teria sido "a maior crise da agricultura que ele já viveu".

A recuperação veio a partir de 2008 e em 2018 o grupo superava a marca dos R$ 100 milhões, um ano antes do previsto.

A aposta seguinte foi a diversificação. Além da Kimberlit, de fertilizantes especiais, o grupo passou a reunir a Loyder, de fertilizantes inteligentes NPK, fundada em 2007; a Bionat, de defensivos biológicos, criada em 2019; e a Floema, de logística, que atende exclusivamente o grupo com caminhões frios para transportar os produtos biológicos.

Em 2023, o grupo inaugurou a nova biofábrica da Bionat em Olímpia, com investimento de R$ 30 milhões e capacidade de 80 mil quilolitros por mês, preparada para ser duplicada em dois anos. Na ocasião, a holding projetava encerrar o ano com R$ 500 milhões de faturamento e mirava o "clube do bilhão" em 2025, com o IPO como gatilho seguinte.

"Sempre pensamos em primeiro bater o R$ 1 bilhão [em faturamento], que daria algo em torno de R$ 250 milhões de Ebitda. Só aí, robustos, vamos fazer um IPO, e com grande chance de ter sucesso", afirmou o CEO na entrevista ao AgFeed.

A ambição seguiu em 2024, quando o grupo ignorou o recuo do mercado de insumos e cresceu 70% no primeiro semestre. Na ocasião, a holding mantinha a meta de R$ 1 bilhão em 2026 e planejava dobrar a receita até 2030, chegando a R$ 2 bilhões, sustentada por novos lançamentos e pela "capacidade da empresa de identificar e resolver os problemas dos clientes".

O IPO, porém, nunca ocorreu — e o bilhão, que parecia ao alcance, transformou-se em um cenário de recuperação judicial. Agora, o grupo aguarda o laudo da perícia prévia. Será ele que dirá ao juízo se o pedido deve ser processado.

Se deferido, haverá suspensão das execuções contra as três empresas, dando fôlego ao grupo para negociar com os credores e apresentar, em 60 dias, seu plano de recuperação judicial, que está em estruturação com apoio da consultoria paulista Bx Group.

Resumo

  • O Essere Group, dono de Kimberlit, Loyder e Bionat, pediu recuperação judicial com passivo de R$ 222 milhões após forte deterioração financeira
  • A dívida bancária soma R$ 184 milhões, enquanto a liquidez caiu e a alavancagem aumentou diante do avanço dos juros e da queda no faturamento
  • O grupo, que projetava receita de R$ 1 bilhão e até planejava um IPO, agora aguarda perícia judicial para definir o processamento da recuperação