Não faltou emoção para a pecuária brasileira no ano passado. Depois de um início de ano animador, com produtores esperando o "boi de R$ 400" - reflexo de um aumento de mais de 50% no preço da arroba ao longo do segundo semestre de 2024 - as tarifas de Trump barraram a animação e a cotação andou de lado até o fim de dezembro.
A produção foi recorde e, quando as taxas americanas (que não afetaram tanto assim o comércio) se enfraqueceram, uma notícia no apagar das luzes do ano novamente tirou o sono dos pecuaristas em relação ao ano de 2026: as salvaguardas chinesas.
Mesmo diante dessa montanha russa, o confinamento bovino cresceu. Segundo estimativas da dsm-firmenich, o País alcançou 9,25 milhões de cabeças de gado confinadas, um aumento de 16% frente a 2024. Os números fazem parte do Censo de Confinamento 2025, produzido pela companhia holandesa e apresentados na manhã desta terça-feira, 10 de fevereiro.
Os confinamentos estão espalhados em 2,44 mil propriedades em 1,09 mil municípios. Na visão da empresa, o avanço se deu por uma maior profissionalização da atividade e maior adoção de tecnologias de nutrição e gestão.
O estado de Mato Grosso segue na liderança nacional, com 2,2 milhões de bovinos confinados, avanço de 29,6% em relação a 2024.
A sequência do ranking segue com São Paulo, com 1,4 milhão de animais (alta de 7,7%), Goiás, com a mesma quantidade (avanço de 13,6%), Mato Grosso do Sul com 900 mil bovinos confinados (crescimento de 17,8%) e Minas Gerais, com 800 mil animais, patamar estável em um ano.
Os números mostram um avanço de cerca de 11% ao ano, na média, desde 2017, quando o Censo começou a ser publicado. A alta de 2024 para 2025 foi de 1,3 milhões de animais, patamar acima da média, segundo Walter Patrizi, gerente de Confinamento da dsm-firmenich.
"O número cresceu principalmente em confinamentos grandes, que capturaram grande parte do crescimento, enquanto os menores vieram diminuindo. O interessante é que não é um cenário em que um está crescendo e o outro está morrendo, o pequeno também cresce em resultado. Historicamente, o confinamento sempre 'deu dinheiro' no Brasil", disse Patrizi.
Dados atuais, referentes a fevereiro de 2026, mostram que a margem de rentabilidade está próxima dos 15% no País, com destaque para o Paraná, que chega a 19,6%. "Ter essa margem em um ciclo produtivo de três meses é algo super interessante, principalmente pensando em um negócio que gira mais de duas vezes no ano", acrescentou o gerente.
O levantamento ainda revelou que 45% do rebanho está nos 100 maiores produtores, com suas plantas de grande porte concentradas justamente nos estados com maiores confinamentos. "76% dos confinamentos já utilizam algum software de gestão de rotina, enquanto que consultorias autônomas representam 3,4 milhões de cabeças", acrescentou o gerente.
Os conhecidos "boiteis" - uma engorda terceirizada - somaram 1,75 milhão de cabeças, 19% do volume total confinado.
Patrizi cita que o Brasil caminha para atingir 10 milhões de cabeças confinadas já em 2026, mesmo com o momento do ciclo um pouco diferente frente a 2025.
Tulio Ramalho, head de ruminantes da dsm-firmenich, citou que apesar de uma volatilidade no mercado do boi gordo no início de janeiro, causado pelo anúncio das salvaguardas vindas da China, a situação melhorou na segunda quinzena em diante.
"O preço do boi subiu rápido. No mercado paulista já falamos de um 'boi de R$ 340' e aí já volta a conversa, nos grupos de WhatsApp, de quando chega os R$ 350. Vejo uma positividade de preços para a pecuária de corte", afirmou Ramalho.
"O ciclo mostra que já estamos vendo bezerro por preços altos, o que deve causar uma retenção de fêmeas e, com isso, reduzir a produção de carne. O preço da arroba tende a subir neste ano e em 2027, sendo implementado um novo ciclo da pecuária por aqui", acrescentou.
Depois de uma produção de 10,9 milhões de toneladas, sendo 5 milhões para exportação e o restante para consumo interno vistas em 2025, este ano deve mostrar recuo nos indicadores. As quedas devem ser de 5% na produção, 3% na exportação e de 7% no consumo interno. Os dados são da consultoria Agrifatto.
Tulio Ramalho, citou que apesar da inversão do ciclo e projeções de menor produção e consumo, alguns fatores ainda podem mudar o jogo. Novos mercados abertos para exportação podem reaquecer as vendas externas, enquanto que no País, eleições e Copa do Mundo podem estimular economia e consumo de carne.
"O preço do boi gordo com tendência de alta pode ajudar os confinamentos. Mas não adianta essa ponta, por que é necessária a produção de bezerro para abastecer uma cadeia inteira. O preço do bezerro alto pode trazer boas margens para atividade de cria", completou Ramalho.
Na pecuária de leita, as margens apertadas no segundo semestre do ano passado podem limitar os investimenos em 2025, desacelerando a oferta. "Porém o custo é um ponto positivo. Tanto milho quanto soja, com safra favorável, podem ajudar na produção de ração", afirmou o head de ruminantes da dsm-firmenich.
Resumo
- O Brasil confinou 9,25 milhões de cabeças em 2025, alta de 16%, com Mato Grosso na liderança com 2,2 milhões de animais e crescimento acima da média
- Levantamento mapeou que 100 maiores produtores concentram 45% do rebanho, 76% das fazendas usam software de gestão e os “boiteis” já somam 1,75 milhão de cabeças
- Os 100 maiores produtores concentram 45% do rebanho, 76% das fazendas usam software de gestão e os “boiteis” já somam 1,75 milhão de cabeças, 19% do total