Depois de atravessar águas turbulentas nos últimos anos, o navegar da Hidrovias do Brasil foi mais tranquilo ao longo de 2025. Em reestruturação, a companhia do Grupo Ultra aumentou consideravelmente suas receitas no ano passado, ao mesmo tempo em que renegociou e diminuiu boa parte de sua dívida líquida.
"O ano de 2025 marcou um ciclo de profundas transformações para a Hidrovias do Brasil. Ao longo do período, a Companhia passou por movimentos estruturantes que redefiniram suas bases de governança, capital e ambição de longo prazo", avaliou o presidente da Hidrovias do Brasil, Décio Amaral, na apresentação dos resultados da empresa, divulgados na noite de segunda-feira, dia 2 de março.
"Destaco, nesse contexto, a conclusão do aumento de capital e a consolidação da Ultrapar como nosso acionista controlador — um passo decisivo para assegurar perenidade societária, disciplina estratégica e uma visão clara de criação de valor sustentável ao longo dos próximos anos", emendou o líder da Hidrovias, em referência a um aumento de capital de R$ 1,2 bilhão feito no ano passado pelo Grupo Ultra para oxigenar a companhia.
Os dados do fechamento de 2025 indicam que ainda há espaço para melhora. No quarto trimestre, o prejuízo líquido foi de R$ 361 milhões, 11% menos em relação aos R$ 408 milhões do mesmo período de 2024. Já o Ebitda ajustado (sigla para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ficou negativo em R$ 160 milhões.
Quando se analisa os resultados acumulados do ano, fica visível o quadro bem mais positivo da companhia. A Hidrovias seguiu registrando prejuízo líquido no consolidado de 2025, mas o indicador veio bem menor em comparação com o ano anterior: passando de R$ 569 milhões no fim de 2024 para R$ 141 milhões no encerramento do ano passado.
Os demais números do resultado acumulado do ano também tornam perceptível a melhora do desempenho da companhia. O Ebitda ajustado (sigla para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) teve um incremento relevante de um ano para outro, passando de R$ 449 milhões em 2024 para R$ 790 milhões no fechamento de 2025.
No lado operacional, a companhia transportou 17,8 milhões de toneladas de produtos no ano passado, 22% a mais que em 2024, volume impulsionado pela recuperação operacional. Assim, a receita operacional líquida cresceu 41% no período, passando de R$ 1,7 bilhão no fim de 2024 para R$ 2,4 bilhões no término de 2025.
No Corredor Norte, que abrange os portos do Arco Norte, foram transportadas 8,1 milhões de toneladas, volume 23% superior na comparação com 2024, impulsionado principalmente pela recuperação das condições de navegação na região, segundo a companhia.
Do montante total, 7,4 milhões de toneladas transportadas foram de grãos e 535 mil toneladas corresponderam a fertilizantes.
A receita da vertical foi de R$ 1,1 bilhão, alta de 31% frente ao ano anterior, sob impacto especialmente do maior volume transportado ao longo do ano, de acordo com a empresa.
Já no Corredor Sul, que engloba a hidrovia Paraná-Paraguai, foram transportadas 4,9 milhões de toneladas, 78% a mais que em 2024, com destaque para o minério de ferro, que corresponde a 76% do volume total - ante 55% em 2024. Ao todo, foram transportadas 3,7 milhões de toneladas de minério, 937 mil toneladas de grãos e 233 mil toneladas de fertilizantes na vertical.
A receita líquida da vertical foi de R$ 982 milhões no ano, alta de 89%, sob impulso de maior volume movimento e melhor mix de cargas.
Na operação de Santos, a companhia movimentou 2 milhões de toneladas ao longo de 2024, crescimento de 17% em relação a 2024, refletindo diversificação do mix de cargas, com destaque para o início e consolidação da operação de sal, além de melhorias operacionais. Ao todo, foram transportadas 1,4 milhão de toneladas de fertilizantes nessa vertical e 526 mil toneladas de sal. A receita líquida da operação somou R$ 153 milhões, alta de 12%.
O crescimento foi inferior ao aumento de volume transportado, pelo efeito de mix de carga com maior participação de sal, que possui tarifa inferior à de fertilizantes.
A única vertical com queda foi a de navegação costeira, cuja operação foi vendida em novembro do ano passado por R$ 715 milhões para a companhia de navegação Norsul. Em 2025, foram transportadas 2,7 milhões de toneladas de bauxita, volume 22% inferior a 2024. A receita líquida da vertical foi de R$ 197 milhões, 12% a menos.
A alavancagem da companhia recuou consideravelmente ao longo de 2025, passando de 7,0 vezes o Ebitda no fim de 2024 para 2,3 vezes o Ebitda ao término do ano passado. A dívida líquida da companhia passou de R$ 4,0 bilhões para R$ 2,2 bilhões entre um ano e outro. No fim de 2025, a Hidrovias tinha R$ 1,5 bilhão em caixa, 41% a mais do que no fim de 2024.
Além da reestruturação e da entrada de capital do Grupo Ultra, a venda da operação de navegação costeira também contribuiu para o resultado financeiro positivo, diz a companhia.
Assim, a Hidrovias pôde comemorar que, pela sua primeira vez em sua história, ficou abaixo do covenant de uma alavancagem de 3,5 vezes o Ebitda, estipulado em algumas captações. Em assembleia realizada em dezembro de 2024, a companhia precisou flexibilizar os covenants para que não recebesse penas severas dos credores.
O impacto do câmbio, que havia pressionado a companhia em 2024, gerando efeito negativo de R$ 396 milhões no hedge da empresa, desta vez esteve controlado, segundo a Hidrovias. A companhia afirmou que "100% da dívida encontra-se protegida por instrumentos de hedge, mitigando a exposição a oscilações cambiais e de taxas de juros".
Os números foram bem recebidos pelas principais casas do mercado. A XP Investimentos, em relatório assinado por Pedro Bruno, Ruan Argenton e João Ramiro, avaliou que os resultados vieram acima do esperado pela gestora.
Os analistas destacaram quatro pontos que chamaram a atenção: os números sólidos no Corredor Norte, o desempenho acima do projetado no Corredor Sul, a melhora na operação de Santos e a queda na alavancagem. Assim, a XP se sentiu confortável para reiterar opção de compra para a ação.
No BTG Pactual, a recepção foi semelhante. Em relatório assinado por Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, a instituição também afirma que os números do balanço vieram acima do esperado, impulsionados por maiores volumes e melhora de preços nos corredores Norte e Sul, apesar de uma base de comparação mais desafiadora em relação ao ano anterior.
O BTG manteve também a recomendação de compra para a ação e elencou quatro fatores que merecem atenção dos investidores em relação ao futuro da companhia: a dinâmica contínua de preços e competitividade no Corredor Norte; o ramp-up da capacidade de expansão modular; os desdobramentos de projetos como o Dobra TUP e as concessões hidroviárias no Brasil; e potenciais sinergias adicionais decorrentes do papel da Ultrapar como acionista controlador estratégico.
Os investidores, porém, tiveram uma percepção mais negativa. Às 12h30 desta terça-feira, dia 3 de março, as ações da companhia na B3 recuavam 3,97%, cotadas a R$ 4,11. No ano, acumulam alta de 104,48%.
Resumo
- A Hidrovias do Brasil encerrou 2025 com forte melhora operacional: a receita líquida cresceu 41% (R$ 2,4 bilhões), o Ebitda ajustado avançou para R$ 790 milhões e o prejuízo anual foi reduzido de R$ 569 milhões para R$ 141 milhões
- A reestruturação financeira ganhou tração com aumento de capital de R$ 1,2 bilhão da Ultrapar e venda da operação de navegação costeira por R$ 715 milhões, permitindo queda da alavancagem de 7,0x para 2,3x Ebitda e redução da dívida líquida para R$ 2,2 bilhões.
- Apesar do prejuízo de R$ 361 milhões no quarto trimestre de 2025, o mercado destacou os resultados acima do esperado e a melhora estrutural da companhia