“De Pranchita para o mundo”, esse poderia ser o título de um livro que contasse a história da fabricante de pulverizadores Markal, que começou atendendo uma demanda pontual do interior paranaense e hoje já exporta para diferentes países.
O empresário Enri Bottega, da pequena cidade do Paraná, com pouco mais de 5 mil habitantes, percebeu que havia uma “dor” a ser solucionada nas fazendas, quando os produtores deixaram de arar a terra e migravam para o plantio direto.
Com a palhada sobre o solo, ficava mais desafiador saber por onde deveria seguir a trajetória das máquinas (nem se falava em GPS nessa época, especialmente entre pequenos produtores).
“O trator passava em cima da palhada, quando voltava, não sabia onde tinha passado. E isso demandava uma demarcação. Aí nós desenvolvemos um marcador de espuma no Brasil”, contou Bottega, em entrevista ao AgFeed.
A “invenção” do empresário começou a ser vendida em 1996, quando ele criou a empresa chamada Markal, um nome derivado de sua fortaleza, “o marcador de linha”, que hoje já é patenteada.
O equipamento acoplado a pulverizadores ia soltando flocos de espuma e deixando o caminho demarcado para as próximas máquinas.
“A demanda era muito grande, porque foi uma transformação e não existia tecnologia de GPS. Havia marcador na Itália e nos Estados Unidos, aqui no Brasil algumas empresas como a Jacto começaram a trazer importado, porém chegava num valor muito alto, R$ 3.200 na época e o nosso a gente vendia por R$ 700”, revelou.
Em 2003, Enri Bottega transferiu a sede da empresa para Santa Tereza do Oeste, com 13 mil habitantes, a poucos quilômetros de Cascavel, no Oeste paranaense.
Lá, além do seu marcador de espuma “100% nacional”, o empresário teve uma nova ideia, produzir kits de barras hidráulicas, que eram acopladas aos pulverizadores.
“Não existia pulverizador 100% automático, a pessoa tinha que manusear uma manivela para levantar a barra, dava muito trabalho”, lembrou.
Quando começaram a sair os primeiros automáticos (no início muito caros), a Markal decidiu produzir apenas o kit de barramento, que era acoplado aos pulverizadores antigos. “Nós só trocávamos essa parte e a máquina ficava automatizada”.
Segundo o empresário, com isso, os pequenos agricultores conseguiam automatizar o pulverizador gastando 30% do que seria o preço de um novo. “A gente vendeu muito, sabe? Mas muito mesmo. No Brasil e fora do Brasil”.
O avanço das máquinas (e das vendas)
Com a modernização das máquinas agrícolas em geral, que foram ganhando novas tecnologias, com preços mais acessíveis, Enri Bottega entendeu que era hora de uma nova empreitada.
“A gente virou referência como fabricante de barras, é o produto que mais exige de um pulverizador. Então pensei assim, se todo mundo fala bem e quer a nossa barra, por que nós não podemos fazer os pulverizadores”, disse ele.
Tudo isso era discutido em família, já que a empresa teve participação de irmãos e até hoje a esposa e o filho de Enri, Micael, que se formou em engenharia, ocupam posições na Markal.
Ele diz que a opção foi fazer um pulverizador “melhor do que já existia”, com inovação, e que fosse mais robusto. Até hoje ele ressalta que o slogan da empresa é “produtos feitos para durar”.
A produção de pulverizadores começou em 2010, primeiro com modelos menores, depois foram aumentando. Bottega diz que buscava, por exemplo, ousar na metragem das barras.
“A concorrência, no modelo de 800 litros, tinha 18 metros, nós já chegamos com 20 metros. Então são dois metros a mais que o cliente ganhava na aplicação”.
Atualmente, diz que grandes marcas do mercado fazem máquinas de arrasto de no máximo 24 metros, enquanto a Markal chega a 27 metros, o que foi reforçando a diferenciação.
Preço mais baixo, segundo ele, não é apelo de venda. Como defende um produto mais duradouro, afirma praticar uma precificação “compatível com as maiores marcas do mercado ou às vezes até mais alto”.
Por ser uma empresa pequena, ele diz que consegue ter menor despesa e ainda assim produzir itens com tecnologia de ponta. “A Markal não vende preço, vende produto”.
O lançamento mais recente, que foi desenvolvido pela Markal nos últimos anos e apresentado ao mercado em 2025. Trata-se de um pulverizador autopropelido (máquina autônoma, equipada com motor e transmissão próprios).
A empresa já obteve os registros para comercializar o pulverizador que será batizado de “gafanhoto”, primeiramente no estado do Paraná, mas depois pretende levar a outras regiões.
Quando começou, a Markal tinha apenas 3 funcionários. Agora, segundo o empresário, são 70 colaboradores, incluindo uma equipe de engenharia.
A conversa com o AgFeed ocorreu na Expodireto, em Não-Me-Toque (RS), feira que a empresa participa há 20 anos.
A Markal não divulga os números de faturamento, mas admite que ainda não chegou no seu primeiro bilhão.
Em termos percentuais, no entanto, garante que vem mantendo um crescimento consistente, até mesmo em 2025, período que o setor de máquinas como um todo teve receita menor.
O crescimento no ano passado em relação a 2024 foi de 30%, segundo o empresário. A expectativa é repetir o avanço neste mesmo patamar em 2026.
Os saltos financeiros acompanham a oferta de produtos de maior valor agregado. “Nós fabricávamos o marcador de espuma, que hoje está na faixa de 3 mil reais, mas agora temos máquinas como o autopropelido, que custa R$ 1,7 milhão”.
Os outros equipamentos também variam de R$ 20 mil até R$ 300 mil, Bottega explica, porque “dependem da tecnologia agregada”, que hoje já incluem não só o GPS mas as plataformas digitais.
Planos da nova fábrica
A sede da Markal ainda está em Santa Tereza do Oeste, onde há uma fábrica de 7 mil metros quadrados.
Enri Bottega revelou ao AgFeed que, desde 2021, vem planejando a construção de uma nova planta, que terá o dobro da capacidade de produção.
“Hoje nós temos o nosso espaço limitado e estamos pensando em expandir porque a demanda está aumentando. A cada dia a gente atrai revendas novas, que vêm procurar o nosso produto”, ressaltou.
A empresa já tem revendas parceiras no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás, além de “vendas esporádicas para a região Norte”.
Ainda não está definido onde será construída a nova unidade. Ele diz há várias conversas com os munícipios da região, com diversos interessados. Até mesmo Cascavel, com 400 mil habitantes, estaria no páreo.
“O nosso projeto é de, no mínimo, 30 mil metros de área, com uma fábrica de pavilhões de 16 mil metros quadrados”.
O empresário não revela qual o valor do investimento. Nos estudos feitos há 5 anos, para uma fábrica de 9 mil metros quadrados, calculava que gastaria R$ 20 milhões, por isso agora estima que seria no mínimo o dobro deste valor.
Ele admite que a decisão final sobre a fábrica ainda não foi tomada em função do período mais desafiador, com agricultores mais desanimados em meio à falta de juros subsidiados e ao preço mais baixo dos grãos.
Caso o crescimento projetado para este ano se confirme, ele acredita que poderá acelerar o projeto de expansão.
Além da demanda brasileira, a Markal espera contar com mais vendas para outros países. Hoje, cerca de 10% da receita vem da exportação. As máquinas da empresa já estão sendo vendidas no Paraguai, Bolívia, Nicarágua, Panamá e “há um grande projeto com a África”, disse o fundador.
No Brasil, ele conta que, de 2020 para 2021, chegou a dobrar o faturamento. No ano seguinte, avançou mais 50% em receita. Mas em 2023 e 2024 teve recuo de 30% e 10%, respectivamente.
O plano agora é tentar voltar ao patamar do auge, que foi 2022. “O cenário atual não ajuda muito, mas eu vejo que o mercado não pode parar. O Brasil não pode parar. Ninguém vai parar de comer”.
Embora suas máquinas sejam fabricadas para durar 10 anos ou mais, ele diz que esse período de “insegurança” do agricultor em renovar os equipamentos acabará sendo compensado pela necessidade de trazer inovações, o que tem feito muitos comprarem novos produtos a cada 5 anos.
“Na pulverização, a máquina é muito usada, então a depreciação dela é rápida. Então, eu vejo que o mercado vai ter que voltar a aquecer, porque vai chegar uma hora que não tem mais como trabalhar com a máquina que está lá no campo”.
Resumo
- Fabricante paranaense evoluiu de 3 funcionários para 70 e hoje compete com multinacionais no mercado de pulverizadores
- Crescimento de 30% ao ano é impulsionado por inovação, como máquinas mais robustas e maior alcance de barras
- Empresa planeja nova fábrica para dobrar capacidade e expandir exportações, que já representam 10% da receita