Nem 8, nem 80. Nem agroquímicos de custo muito elevado, que chegam por lançamentos de grandes multinacionais, nem os defensivos genéricos mais baratos do mercado, que não levem em conta algum grau de tecnologia.

Essa é a receita recomendada pela empresa brasileira de defensivos agrícolas CropChem, que já aparece entre as maiores do País. A companhia é uma espécie de “meio-termo” como alternativa para o produtor rural, que precisa combater pragas e doenças, mas que nem sempre tem margem suficiente para dar conta de pacotes tecnológicos mais caros.

“A gente busca trazer tecnologia. Nossos produtos não são os mais baratos, porque mesmo que seja um genérico, como um glifosato, ele pode ter diversas formulações diferentes, com componentes diferentes”, explicou Rodrigo Leão, diretor geral da CropChem, em entrevista ao AgFeed.

Rodrigo é filho do fundador da empresa, José Leão, um executivo que atuou por décadas em multinacionais de defensivos agrícolas até que, no ano 2000, resolveu abrir uma empresa para oferecer um portfólio complementar aos produtores rurais. Como sócio, ele tinha o químico John Vieira, experiente na área farmacêutica internacional.

As apostas feitas nestes 26 anos de história têm dado certo. Para se ter uma ideia, a CropChem foi a terceira empresa que mais obteve registros de novos produtos junto ao Ministério da Agricultura em 2025.

São 18 produtos que estão chegando ao mercado, agora que foram aprovados. Ao todo, a empresa já possui 87 itens registrados e tem mais 104 pedidos na fila de análise junto aos órgãos reguladores no Brasil.

A CropChem trabalha no segmento chamado de “pós-patente”. Ou seja, depois de vencido o período de reserva de mercado das empresas que desenvolveram determinada molécula, ela vai em busca de atualizações para aquele produto, algo em que as gigantes nem sempre investem tempo e dinheiro.

José Leão já tinha relacionamento com canais de distribuição, principalmente cooperativas da região Sul – a CropChem tem sede em Porto Alegre (RS) – o que facilitou a expansão da empresa.

Durante muito tempo, a empresa chegou a deter, por exemplo, 30% do mercado de carbendazim, um fungicida, que registrou em 2005. O uso do produto acabou sendo proibido no Brasil em 2022.

Atualmente, a CropChem tem 200 funcionários e vende seus produtos em todos os estados brasileiros para “todas as culturas”, como frisou Rodrigo Leão. Estariam no leque os produtores de soja, milho, trigo, cana-de-açúcar, pastagem, reflorestamento, feijão, arroz, entre outros.

Na região do Cerrado, até 2024, atuava em parceria com a AgriConnection, mas desde o ano passado optou por montar um time próprio, contratando executivos que eram de multinacionais.

“Foi bom enquanto durou, mas o foco deles (AgriConnection) é em produto genérico, é atender demanda, não gerar demanda. Nosso foco é buscar produtos especiais, trazer soluções. Os produtos especiais nada mais são do que a gente buscar uma nova solução para os agricultores. Só que quando traz algo novo, tem que mostrar para o seu cliente que o produto é bom para gerar essa demanda, como a AgriConnection não trabalha com isso, a gente decidiu separar”, contou ele.

Hoje a CropChem diz que, com seu time próprio, atende diferentes tipos de clientes e canais de distribuição. Algumas das grandes multinacionais, por exemplo, compra matéria-prima da empresa gaúcha ou mesmo produtos acabados.

Há um time que atende revendas e cooperativas e outro destinado ao atendimento direto ao agricultor, que tem estratégias e precificação diferenciadas.

Sem crescimento de receita, por enquanto

A CropChem diz ter registrado em 2025 uma receita líquida próxima de R$ 1,1 bilhão, mesmo patamar do ano anterior.

Para este ano, também aposta no cenário de estabilidade ou de um pequeno crescimento, apesar da chegada dos novos produtos.

Na conversa com o AgFeed, Rodrigo Leão repetiu diversas vezes que o faturamento não aumenta porque a empresa, neste momento, prefere assim. Há demanda e há estrutura interna para dobrar o faturamento, mas isso implicaria em riscos maiores, em meio ao aperto financeiro de produtores e alta nas recuperações judiciais.

“Nós mantivemos a receita igual a de 2024 por questões estratégicas, principalmente relacionadas a crédito e risco de pagamento. A gente viu muita RJ acontecendo, a gente acompanhou os números das empresas passando por grande dificuldade e decidiu que não valia a pena fazer um movimento de crescimento com o risco da forma como estava se apresentando”, explicou.

A estratégia, segundo ele, foi “botar o pé no freio” e seguir apenas trabalhando melhor, em qualidade, não em quantidade.

“Sem falsa modéstia, com o nosso portfólio, tranquilamente nós poderíamos faturar quatro vezes, três vezes mais do que nós faturamos hoje. A questão é o risco. E se vamos trabalhar só com commodities, vamos trocar dinheiro”, avalia.

Atualmente, 52% da receita vêm da região Cerrado, que engloba estados como Mato Grosso, Goiás, Rondônia e Bahia. O restante, 48%, está nos estados das regiões Sul e Sudeste, além de Mato Grosso do Sul.

Leão garante que, apesar de toda a preocupação, a empresa foi pouco afetada pelas RJs.

“Nós temos um departamento de crédito muito rigoroso. A gente faz muitas análises para conferir a capacidade de pagamento tanto das empresas, quanto cooperativas e agricultores. Então isso reduz bastante a nossa margem de erro. Mas eu acho que o principal ponto dessas RJs é a questão de confiança, né? O mercado inteiro não está confiando no outro e isso destrói todos os mercados”, afirmou.

Do ponto de vista financeiro, o executivo afirma que também não há limitação, ou seja, a empresa possui condições de financiar sozinha um aumento de vendas se for o caso, mas não quer correr o risco de, ao final da safra, não receber parte dos pagamentos, enquanto precisa quitar seus débitos com os fornecedores, a maioria da China.

Nem mesmo ganho de market share está na pauta prioritária do momento, ele garante. A visão é atender bem os atuais clientes.

De qualquer forma, a empresa que tinha 6 funcionários e faturava R$ 30 milhões em 2011. Hoje, tem 200 colaboradores, “todos CLT e sendo 70 vendedores no campo”, e já tem receita bilionária.

No ano passado, a CropChem foi eleita a melhor empresa de defensivos agrícolas do País na premiação “Melhores do Agronegócio” da revista Globo Rural. A distinção leva em conta indicadores financeiros e de sustentabilidade.

Os dados de 2024 que levaram à premiação da companhia incluem margem líquida de 20,2%, margem da atividade de 25,2%, rentabilidade sobre o patrimônio líquido de 46,3% e receita líquida de R$ 1,109 bilhão.

Ao AgFeed, Rodrigo Leão disse que os números de 2025 ainda não foram totalmente consolidados pelas auditorias, mas admitiu que a margem ficará um pouco abaixo disso. O mesmo cenário, de margem um pouco abaixo dos 20% é previsto para 2026.

Quando melhorar as condições de crédito no País e houver mais segurança jurídica, o diretor diz que poderá tirar da gaveta planos de expansão.

A entrada no segmento de biológicos é uma possibilidade.

“Nós temos interesse em adicionar estes produtos no nosso portfólio, mas só iremos adicionar produtos que contemplem um tripé que não abrimos mão que é estabilidade, eficiência e custo compatível. Nunca encontramos um produto que tenha os três. Sempre que encontramos um produto com dois destes requisitos, falta o terceiro”, pontuou.

A CropChem já teria recebido diversas propostas de sociedade ou mesmo de aquisição, mas garante que não está à venda e que isso está fora dos planos da família.

Rodrigo Leão diz há um planejamento estratégico em curso que vai até 2032 – os números também não são revelados.

“Somos uma empresa com muitos planos, com um planejamento muito sólido e um futuro muito promissor. Este planejamento conta com muitos produtos especiais, que trarão um crescimento interessante para a empresa”, afirmou.

Conexão direta com a Ásia

Nos primeiros anos de atuação, Rodrigo Leão diz que CropChem teve alguns percalços por ter maior foco em defensivos “commodities”.

Ele conta que em 2007, por exemplo, houve uma escassez e um encarecimento do glifosato semelhante ao registrado agora, em 2022, por conta da pandemia e da guerra na Ucrânia.

“O produto técnico do glifosato chegou a 14 dólares naquele ano. E nós tínhamos que ir para a China implorar para o fornecedor nos fornecer, porque ele decidia para quem vender. Acontece que, no ano seguinte, o preço despencou abaixo de 3 dólares. Foi bem complicado”, lembra.

Exatamente nessa época Rodrigo Leão estava voltando de um intercâmbio e assumiu uma posição executiva na empresa. Em 2011, foi feito um planejamento estratégico que estabeleceu o posicionamento de ampliar o portfólio e o número de empresas, reduzindo o risco “de trabalhar com produtos comoditizados”.

“Em 2017, nós tínhamos sete registros, obtivemos outros sete, dobramos o portfólio em um ano, e nesse ano a gente decidiu iniciar nossa equipe comercial”.

Houve outra atualização do planejamento estratégico em 2022.

“Agora estamos mais voltados a trazer novas formulações, ou seja, novas misturas, misturas inovadoras, trazer algumas moléculas que já estão esquecidas, que as multinacionais abandonaram por N motivos, e a gente vê que ainda são boas soluções e que, talvez com uma nova roupagem, elas possam se tornar algo importante”.

É por esse caminho que a CropChem pretende trilhar os próximos anos. Há uma relação muito próxima com parceiros e fornecedores de países como China e Índia. Os executivos da empresa passam pelo menos dois meses por ano na Ásia.

Rodrigo Leão viaja no fim de fevereiro para a China, novamente, onde passará 40 dias junto de sua equipe de assuntos regulatórios.

“A gente está trazendo bons produtos para os próximos anos. Estamos buscando novas moléculas com empresas japonesas, chinesas, indianas e as multinacionais. Tem conversas em andamento. Estamos fazendo alguns testes também. Mas isso seria coisa para depois de 2030”, ressaltou.

Também está no radar fazer acordo com empresas criadoras de patentes, onde há forte presença dos japoneses, segundo ele.

“Eles criam as patentes, mas eles não têm comercialização. Então, eles buscam empresas para comercializar para eles. A gente está conversando com criadores e detentoras de patentes para tentar acessar também produtos e trazer produtos patenteados”, revelou.

Novo centro de pesquisa em MT

Segundo o diretor geral, a CropChem segue investindo, anualmente, 4% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento.

A empresa já conta com unidades de P&D em Santa Maria (RS) e Londrina (PR). Agora planeja construir uma nova em Lucas do Rio Verde (MT), possivelmente ainda em 2026.

Entre os 18 novos registros aprovados, a empresa diz ter boa expectativa com seu primeiro produto com foco em tratamento de sementes, à base do inseticida clotianidina, com marca comercial Atrapos.

A prioridade para a empresa tem sido o mercado de inseticidas e herbicidas. Rodrigo Leão explica que para obter um registro o prazo tem sido de 7 a 8 anos, na maioria dos casos, mas há situações que demoram 10 anos.

Ao longo desse período, no caso dos fungicidas, há maior risco de a molécula já ter perdido eficácia no campo (com as plantas resistentes) e todo o trabalho ter sido em vão.

Por isso, uma outra aposta importante para o ano é um herbicida batizado com nome gauchesco – o Ximango (o nome técnico é diclosulam), que serve para culturas de soja e cana-de-açúcar.

É mais um caso interessante das “oportunidades” que a empresa garimpa no mercado. Segundo Leão, a Corteva registrou esse herbicida em 1992. “Mas havia alguns problemas regulatórios que procuramos resolver. Agora conseguimos ser a primeira empresa a obter o registro desse produto, que vamos começar a trabalhar em 2025”.

Normalmente, a CropChem busca registro com maior concentração do produto.

“O inseticida Trigger (clorfenapir) teve uma adesão enorme no Brasil nos últimos anos. Saiu de 3 milhões de litros para 25 milhões de litros em 4 ou 5 anos. O produto registrado é 240 gramas por litro. Nós registramos, no final do ano passado, o produto com 720 gramas por litro, ou seja, tem 3 vezes mais produto por litro. Claro que o agricultor vai usar 1 terço da dose do outro. Mas isso traz ganho de eficiência operacional”, explica.

Resumo

  • CropChem aposta em defensivos “meio-termo”, com tecnologia e custo acessível, e já supera R$ 1 bilhão em receita
  • Empresa freia crescimento por cautela com crédito e RJs, priorizando margem, qualidade e clientes atuais
  • Estratégia inclui ampliar portfólio pós-patente, parcerias com Ásia e novos investimentos em P&D no Brasil