A crise climática já bate na porteira das lavouras de todos os continentes. Para que os produtores rurais continuem alimentando populações inteiras, é essencial transformar os sistemas agrícolas, um desafio que exige ao mesmo tempo tecnologia, conhecimento e investimentos substanciais para essa transformação.
De olho nesse “mundo novo” da agricultura, a Raiar Orgânicos, uma das maiores produtoras de ovos orgânicos do Brasil, está lançando nesta quarta-feira, 2 de abril, o Instituto Folio, uma associação sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de novas tecnologias e à disseminação de conhecimento sobre formas alternativas de cultivo de grãos no setor.
O lançamento formaliza uma iniciativa já existente nos últimos anos, criada como uma “rede”, que era um braço da Raiar e agora ganha autonomia.
“O instituto nasce a partir de uma visão da Raiar de que a transição da agricultura é co-criada e que é um sistema complexo que precisa de soluções complexas”, diz Luis Barbieri, diretor-executivo, idealizador do instituto, sócio e cofundador da Raiar.
O que o instituto defende é a transformação produtiva em busca do cultivo de grãos e de uma agricultura mais saudável, pautada por práticas como o uso de bioinsumos, plantas de cobertura, fertilizantes minerais e de valorização do solo.
Embora a mudança produtiva pareça simples para leigos, é um processo custoso e demorado.
Transformar métodos produtivos em um ambiente tradicional e avesso à riscos como é a agricultura – uma fábrica a céu aberto, como muitos do setor gostam de dizer – é um processo difícil, demorado e custa caro.
Um estudo recente da consultoria BCG, divulgado pelo AgFeed, apontou que a adoção da agricultura regenerativa no Cerrado, bioma chave para o agro brasileiro, demandaria US$ 55 bilhões nos próximos 25 anos.
Barbieri defende que essa transformação deve abranger toda a cadeia produtiva, respeitando ritmos distintos. “Vai todo mundo virar orgânico? Não sei. Mas, na nossa visão, todo mundo está indo nessa direção e, cada um, a partir do conhecimento que tem e da realidade que experimenta, avança à sua maneira. Nosso papel é gerar conhecimento, ter dados e tecnologia para quem quiser avançar mais em direção à uma agricultura regenerativa orgânica, avance”, afirma Barbieri.
A criação do instituto reflete uma mudança de mentalidade observada pela Raiar e pela então rede Folio nos últimos anos. “No início, muitos viam o orgânico como nicho, mas sempre acreditamos que é a tecnologia do futuro”, recorda Barbieri.
Só que hoje já há mais gente – e mais fontes de recursos – interessada em investir tempo, conhecimento e dinheiro nos orgânicos e na transformação da agricultura, de olho na adaptação dos sistemas alimentares às mudanças climáticas.
“Ao longo do tempo, essa agenda começou a ganhar um espaço que era o que acreditávamos: não era nicho, mas sim uma necessidade. Começamos a ser meio que provocados e requisitados para isso ganhar uma outra escala”, diz Barbieri.
União de forças
Mas, como se pode perceber, o tamanho do desafio de transformar uma cadeia inteira e complexa é muito grande – e o Instituto Folio não conseguiria fazer tudo sozinho. “Uma empresa só não dá conta de fazer. A gente idealizou o Folio com o objetivo de juntar outras organizações para acelerar essa transição”, diz Barbieri.
Dessa forma, o voo solo do Folio é amparado por investimentos de cerca de R$ 4 milhões em seus projetos até o momento.
Uma parte veio do Instituto Itaúsa, que pertence à holding controladora do Itaú Unibanco, que entrou com R$ 3 milhões. O restante veio do Instituto Ibirapitanga, fundado pelo cineasta Walter Salles, que aportou R$ 1 milhão. A Raiar também está aportando recursos na operação, que conta com Barbieri e outras quatro pessoas.
Além disso, o instituto também nasce com o apoio de instituições como a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), além de um um conselho consultivo com seis integrantes, misturando representantes do setor produtivo, de empresas e da academia.
Entre os integrantes, estão o CEO da Raiar, Marcus Menoita, o chairman da Morro Verde Fertilizantes, Felipe Alves, o produtor rural e um dos fundador do Gaas, Paulo Borges, o consultor-sênior do WBCSD Marcelo Behar, a pesquisadora do Woodwell Climate Research, Ludmila Rattis, e o CEO da Biofílica Ambipar, Plínio Ribeiro.
“São pessoas que vêm nos acompanhando há bastante tempo, que conhecem a nossa trajetória e que já nos apoiavam de forma ad hoc. Trouxemos para perto pessoas que a gente já dialogava que estão pensando na transição do sistema alimentar”, afirma.
O instituto também montou um comitê fiscal, com a participação do diretor financeiro da Raiar, João Dourado, e da ex-diretora para mercado de capitais do BNDES, Natália Dias, e um comitê científico, que reúne o consultor agrícola Sérgio Pimenta e a professora da UFG Virgínia Damin.
Esse grupo vai ajudar o Instituto Folio a desenvolver projetos amparados em três pilares: construção de novas tecnologias, geração de dados e troca de conhecimentos.
Para Barbieri, os três elementos precisam sempre estar acompanhados. “Não adianta desenvolver tecnologia, ter dado e isso ficar enclausurado”, exemplifica o diretor-executivo do instituto.
No caso da tecnologia, a ideia é fazer o desenvolvimento e a validação de soluções que viabilizem uma produção agrícola resiliente e replicável em escala.
Os dados, por sua vez, são essenciais para que a transformação pare de pé. “A gente está avançando em um ambiente desconhecido que precisa ter dado para apoiar mais gente a avançar. Não dá para a gente fazer nenhum tipo de transição que não envolva um pilar sólido de dados. Para qualquer tipo de frente que a gente, para fazer gestão, para fazer governança, para atrair capital, para atrair recursos, precisa ter dado”, afirma.
Já a troca de conhecimentos é essencial para fechar o ciclo, na avaliação de Barbieri. O Folio tem se unido a instituições de ensino, outros institutos e empresas, além de realizar um fórum anual sobre grãos orgânicos para disseminar todo o caldo cultural que está produzindo. “Não adianta desenvolver tecnologia, ter dado e isso ficar enclausurado”, diz o diretor-executivo do instituto.
Projetos
Nos últimos anos, o Instituto Folio vem executando pelo menos cinco projetos. A organização firmou parcerias com instituições públicas como a Embrapa, Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e o Instituto Federal de São Paulo - Campus Avaré, e também mantém projetos com a fintech Traive e o Instituto Escolhas, um think tank que desenvolve estudos e análises sobre economia e meio ambiente.
Com o IF de Avaré, o Folio vem há dois anos desenvolvendo um projeto de produção de bioinsumos on farm para pequena escala. “É uma tecnologia simples e acessível e temos tido resultados super interessantes”, diz Barbieri.
Já com a Universidade Federal de São Carlos (UFScar), o projeto está sendo desenvolvido na Fazenda Escola Lagoa do Sino, localizada na cidade de Buri, que foi doada em 2010 pelo escritor Raduan Nassar à instituição de ensino com o objetivo de desenvolver na propriedade um amplo projeto de agricultura sustentável.
Hoje, a área é um fazenda-escola da UFScar, com quem o Instituto Folio tem uma parceria de cinco anos para desenvolver um projeto-piloto, denominado Projeto Transição Tropical, de adoção de técnicas regenerativas em 400 hectares de área produtivas de grãos como soja, milho, milheto e cevada. “É um pólo de inovação aberta”, sintetiza Barbieri.
A Embrapa é parceira do Folio nesse projeto para o desenvolvimento de um modelo tecnológico para a transição de áreas degradadas para produzir grãos de forma regenerativa. “O papel da Folio é ir lá na Embrapa, pegar todo o conhecimento que tem lá e tentar colocar na prática”, diz.
O mercado financeiro também não foi esquecido. Barbieri diz que o Folio firmou, no ano passado, uma parceria com a fintech Traive ao perceber que a indústria de bioinsumos tinha dificuldades de crescer pela necessidade de capital de giro.
O projeto foi selecionado por um programa da aceleradora de finanças climáticas da Climate Policy Initative (CPI, na sigla em inglês), que ajudou a Traive a estruturar um Fiagro-FIDC para financiar capital de giro para indústrias de bioinsumos.
O veículo está agora em fase de captação e deve estar operando a partir de agosto, segundo Barbieri. “Mas o instituto não é uma fintech, não é gestora. O papel da Folio aqui foi identificar um gargalo na cadeia e trazer o parceiro para resolver”, diz.
Outros projetos devem ser estruturados mais adiante, segundo Barbieri, que menciona um projeto envolvendo máquinas e herbicidas, sem dar mais detalhes.
“Nós estamos prontos para conversar para mundo que quiser acreditar em um novo modelo de agricultura. Nós somos agnósticos, desde que o caminho seja uma agricultura, de fato, saudável, que seja uma agricultura que a gente pode chamar do que quiser – tem quem vai chamar de sustentável, regenerativo, orgânico, natural, agroecológico. O fato é que a gente está formando uma nova agricultura”, afirma.