A produção de etanol de milho no Brasil está em franca expansão. As estimativas da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) é de que o volume chegue muito próximo de 10 bilhões de litros ao final da safra 25/26.

A entidade projeta que a produção supere os 16,5 bilhões de litros na safra 33/34. Mas alguns fatores podem antecipar o alcance dessa marca, segundo um relatório elaborado pelo Rabobank.

O analista Andy Duff, responsável pela área de Alimentos e Agronegócios da RaboResearch na América Latina, afirma que, com os projetos em andamento para novas unidades de produção, a capacidade produtiva brasileira possa chegar a 16 bilhões de litros ainda em 2028.

Ele chama a atenção para o fato de que essa capacidade não se limita ao etanol de milho, mas também a combustíveis de outras origens, como sorgo e trigo.

“Existem dois modelos de negócios para o etanol de milho no Brasil: o primeiro é a tradicional instalação industrial independente (stand-alone), e o segundo é uma instalação de etanol de milho anexa a uma usina de cana existente (flex). A grande maioria da capacidade existente ou em construção segue esses modelos”, explica Duff no relatório.

O Rabobank ressalta que algumas estimativas dão conta de que a capacidade produtiva pode chegar aos 20 bilhões de litros até 2030.

O analista lembra que a cana ainda é responsável por cerca de dois terços da produção de etanol no Brasil. Mas o rápido avanço do milho como matéria-prima não deixa de ser uma preocupação, podendo ter impacto até nos preços do açúcar.

Isso porque com mais etanol disponível no mercado, sem crescimento da demanda no mesmo ritmo, vai pressionar os preços e as margens nas bombas de combustíveis.

Esse cenário já ocorreu nos últimos anos, o que motivou as usinas a direcionarem mais produção para o açúcar. E essa estratégia também é limitada, pois pode provocar um excesso de oferta global, já que o Brasil está entre os maiores produtores e exportadores mundiais.

As vantagens do milho

Existem outros fatores que podem pesar para a indústria sucroalcooleira nos próximos anos, segundo o Rabobank.

O milho é um produto mais abundante que o açúcar, e as indústrias podem alocar plantas próximas de áreas produtoras, diminuindo os custos com logística.

Diferente do que acontece com a cana, que tem uma janela de produção específica no ano, as usinas produtoras de etanol de milho têm matéria-prima durante todo o ano, com maior aproveitamento das máquinas e menor custo de capital. Além disso, é uma indústria com grande capacidade de armazenamento.

Mesmo assim, todo o setor deve sofrer por um tempo com o excesso de oferta. “O RaboResearch estima que a abundância de oferta poderia empurrar a paridade de preço nas bombas (base São Paulo) para níveis em torno de 63% (contra uma média de 68% nos últimos 10 anos)”, diz o relatório.

O que poderia aumentar a demanda seria o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, que hoje está em 30%. A expectativa do mercado é que essa proporção chegue a 35% nos próximos anos.

Há também a perspectiva do uso do etanol na aviação e na indústria marítima, algo que só deve ganhar força a partir de 2030.

Até mesmo a Reforma Tributária pode ajudar, pois com a uniformização dos impostos estaduais, o etanol pode se tornar competitivo em estados onde hoje é muito caro nas bombas.

“No longo prazo, novas fontes de demanda podem equilibrar o mercado, mas o aumento da capacidade produtiva é rápido e imediato. Essa ameaça de desequilíbrio mantém o alerta amarelo para o açúcar, pois qualquer mudança no mercado de etanol brasileiro reverbera nos preços globais da commodity”, conclui o Rabobank.

Resumo

  • A produção brasileira de etanol de milho pode chegar a 16 bilhões de litros em 2028, segundo o Rabobank.
  • O banco alerta que o avanço rápido do etanol de milho é uma preocupação para usinas de cana, já que pressiona preços e margens.
  • O cenário já ocorreu nos últimos anos e levou usinas a direcionarem maior volume de cana para a produção de açúcar.