No pavilhão do Centro de Exposições São Luís, na região da Avenida Paulista, em São Paulo, o idioma predominante no início desta semana foi o mandarim ou então um inglês improvisado entre chineses e brasileiros.

No local foi realizada uma feira que já chega a 17ª edição, a Agrochemshow, idealizada pelo empresário Flavio Hirata, que há mais de 20 anos vem se dedicando a aproximar produtores de agroquímicos chineses do mercado brasileiro, como já mostrou o AgFeed.

“Em 1999 eu fui pra China, visitei várias fábricas e o pessoal falava que o Brasil é muito longe, o idioma difícil, e são 13 horas de fuso. Mas perguntei - quanto é que custa pra você fabricar isso aqui? Responderam 10 dólares e vendiam por 11. Aí contei que no Brasil era vendido por 200. E não era de uma forma ilustrativa, era um nome de produto que se vendia mesmo”, relatou Hirata, ao AgFeed, enquanto se desdobrava para atender contatos e clientes na feira, em São Paulo.

Ao longo dos anos, o argumento do empresário foi dando resultado, o que levou Hirata à condição de “campeão de registros” de defensivos químicos, junto ao Ministério da Agricultura do Brasil – a maioria chineses, representados pela empresa dele, a AllierBrasil.

O evento deste ano contou com quase mil inscritos, de 12 países. Entre os expositores, quase 70% eram chineses. Lá encontramos Zhang Jinlong, um consultor chinês que faz um trabalho semelhante ao de Hirata, porém lá na ponta asiática.

“Meu principal objetivo é tentar promover os agroquímicos chineses na América Latina, incluindo Brasil e Argentina. Há uma enorme capacidade produtiva e uma grande variedade de produtos na China, especialmente quando falamos de agroquímicos. E, por causa dessas vantagens competitivas, os produtos geralmente apresentam boa qualidade e vantagens de custo”, afirmou Jinlong, ao AgFeed.

Ele diz que o Brasil, como maior consumidor de agroquímicos do mundo, é a prioridade nesta busca de acesso a novos mercados, até porque o mercado chinês não absorve toda a capacidade que a indústria local possui.

O analista calcula que 85% dos defensivos químicos no Brasil já sejam importados da China, seja por produtos já prontos ou pelos ingredientes ativos, que são usados nas grandes multinacionais.

Se considerado o uso de marcas chinesas, aí a participação seria bem menor. Mas Jinlong diz que essa situação está mudando.

Ele cita o exemplo da Rainbow, uma empresa chinesa que tem ações negociadas na bolsa. O grupo fatura, globalmente, US$ 2 bilhões. “Cerca de um terço dessa receita, talvez 30% a 33%, veio do Brasil. Isso é muito importante, estamos falando de mais de US$ 700 milhões”, afirmou.

Ele calcula que a Rainbow já esteja entre as 10 maiores empresas de defensivos no Brasil.

“Ela possui uma forte integração vertical com a indústria chinesa. A empresa atua desde os insumos químicos e os pesticidas até a formulação, a embalagem e outras etapas da cadeia. É um modelo de negócios totalmente integrado. Não acredito que qualquer outra multinacional consiga competir com a Rainbow nesse nível de integração vertical. Essa é uma vantagem importante em termos de custos”.

O analista menciona que a empresa já teria mais de 150 registros de produtos no Brasil, ficando também entre as maiores, neste quesito.

Há uma estratégia da Rainbow, segundo ele, de investir no registro dos produtos mesmo antes de ter a garantia de que haverá mercado para ele no Brasil. Por isso, rapidamente teria conseguido colocar sua marca, substituindo produtos que antes eram fornecidos via multinacionais.

Sobre o desempenho da venda de defensivos no Brasil este ano, Jinlong, que faz trabalhos de inteligência de mercado para as empresas, está prevendo recuo de 7,5% em volume. Já em receita, acredita em queda de 5%.

Ele confirma que o primeiro semestre foi fraco, mas pondera que de julho a setembro há sinais de recuperação. De qualquer forma, um mercado que no ano passado oscilou entre US$ 16 bilhões e US$ 18 bilhões, segundo o consultor chinês, deverá cair para US$ 15 bilhões.

Apesar do cenário de margens muito apertadas no agro brasileiro e mercado ainda desafiador, Jinlang acredita que as grandes companhias seguirão investindo no País em função da visão de longo prazo.

Neste momento, ele diz que está sendo mais demandado por empresas chinesas que querem investir em registros no Brasil e na contratação de pessoas aqui, para seguir avançando no mercado.

“O primeiro passo é o registro, o segundo é estabelecer uma empresa e o terceiro é contratar pessoas, veremos cada vez mais profissionais brasileiros trabalhando para empresas chinesas”, avalia.

A presença “local” normalmente é um escritório próprio ou um contrato de parceria com empresas brasileiras de insumos, ele admite.

Rumo aos “patenteados”

Gavin Zhang, gerente de vendas da Synwill, uma das maiores fabricantes chinesas de agroquímicos, também conversou com o AgFeed durante o evento.

São três fábricas na China e nenhuma no Brasil, mas a companhia já fatura por aqui, segundo ele, cerca de US$ 10 milhões, ou R$ 50 milhões por ano.  A receita global da empresa é estimada em US$ 200 milhões.

A Synwill atua somente no B2B. Além de fornecer para marcas globais, como Bayer e Syngenta, no Brasil a parceria tem sido feita com grupos locais, como AgriConnection e Solus do Brasil.

“Este ano está difícil para o mercado por causa da situação econômica mundial e das guerras, envolvendo Estados Unidos e Europa, houve aumento de preços e alguns problemas. Mas, para nós, continuaremos crescendo”, afirmou Zhang.

Ele diz que espera um avanço de 5% nas vendas aos brasileiros em 2026.

“Todos os anos lançamos alguns produtos novos. Além disso, o mercado agrícola brasileiro é um dos maiores do mundo. Portanto, temos mais oportunidades de crescer aqui”, disse o chinês.

O executivo revela um plano de crescer gradualmente no mercado brasileiro. “A primeira etapa será trazer produtos novos, inclusive produtos patenteados. Também pretendemos trazer biopesticidas”, ressaltou.

Para Flávio Hirata, sempre próximo de empresas como a Synwill, essa realmente deve ser a nova onda dos chineses no Brasil.

“As empresas que investem em novos produtos, eles não conseguem manter mais as margens que os genéricos propiciam. Então eles tentam focar em produtos novos, misturas novas, novas tecnologias”, explicou Hirata.

Até hoje, o mais comum quando se fala em China, são aquelas moléculas desenvolvidas por gigantes americanas, por exemplo, que chegam ao ponto de vencer a patente e depois podem ser comercializados como genéricos. Há também registros a partir de adaptações feitas em produtos mais antigos, um modelo comum em empresas como a CropChem, como já mostrou o AgFeed.

“Agora os chineses estão fazendo produtos patenteados (moléculas novas). Já tem vários patenteados na China, e eles ainda não estão focando no Brasil. Mas eu acredito que nos próximos cinco anos vão começar a registrar produtos patenteados no Brasil”, previu Flavio.

Segundo ele, os chineses já estão registrando e ofertando produtos patenteados na Europa, além de outros países da Ásia, mas certamente chegarão ao Brasil.

Enquanto isso, eles vão avançando à medida que a oportunidade aparece. Gavin Zhang, da Synwill, contou que a empresa já pensa em ter um escritório, talvez na região de Campinas, mas ainda não está totalmente definido.

Como já conta com 20 clientes grandes no Brasil, também pensa em ampliar o número de parceiros locais. Alguns usam o produto da Synwill e colocam a marca própria. Outros estão vendendo o produto com a marca chinesa.

A empresa já possui subsidiárias no México e na Índia e não descarta, futuramente, ter também no Brasil. “Esse é o plano, mas vamos avançar passo a passo, ainda não sabemos quando”.

Resumo

  • Durante dois dias em São Paulo, feira Agrochemshow reuniu fabricantes de insumos agrícolas e quase 70% dos expositores eram chineses
  • Grandes empresas chinesas do setor, como a Synwill, estão ampliando vendas no mercado brasileiro e agora planejam ofertar "patenteados", com moléculas novas
  • Idealizador do evento, o empresário Flavio Hirata diz que a venda de produtos patenteados chineses já está sendo feita na Europa