O nome é quase um trava-língua, difícil de pronunciar e, por enquanto, impossível de se comprar. Mas é no Rimisoxafen que reside uma das maiores apostas da fabricante americana de defensivos químicos FMC Corporation para sair de uma crise financeira que fez com que a companhia cogitasse até buscar um comprador.
Nesta segunda-feira, 28 de setembro, essa aposta recebeu mais um reforço. A empresa protocolou um pedido de registro do herbicida no Brasil, apenas cerca de dois meses depois de ter feito o mesmo movimento junto às autoridades regulatórias nos Estados Unidos.
Com isso, a FMC deu início aos trâmites para buscar sinal verde para dar início à comercialização do Rimisoxafen até o fim da década naqueles que devem ser os seus dois principais mercados. E, a partir daí, explorar um potencial que, segundo cálculos da própria companhia, pode chegar a US$ 600 milhões de receitas anuais com o produto.
O que torna o Rimisoxafen tão estratégico para a empresa e justifica essa expectativa é o fato de, como descreve a FMS, ele ter sido rotulado como o primeiro herbicida de duplo modo de ação pelo Comitê Global de Ação contra a Resistência a Herbicidas (HRAC).
O diferencial do Rimisoxafen está na engenharia química. Na prática, segundo explica a companhia, a molécula inibe duas vias bioquímicas distintas nas plantas daninhas, o que dificulta o desenvolvimento de resistência e amplia o espectro de controle.
Em testes extensivos de campo da FMC, o produto teria demonstrado atividade consistente contra folhas largas de sementes pequenas e contra plantas resistentes a outros herbicidas, incluindo o caruru-de-palmer (Amaranthus palmeri) e o caruru-gigante (Amaranthus hybridus), apontadas por uma pesquisa de 2025 da Sociedade de Ciência de Plantas Daninhas da América como as folhas largas mais problemáticas na produção de soja dos EUA.
O desenvolvimento da molécula, descoberta no Centro de Pesquisa Stine da FMC, envolveu mais de 1.000 estudos de campo e em estufa ao longo de uma década.
O pedido de registro no País mira o coração do agronegócio brasileiro: o complexo soja/milho, que soma mais de 70 milhões de hectares no país — cerca de 50 milhões de soja e mais de 20 milhões de milho. "Produtores brasileiros enfrentam desafios complexos de resistência de plantas daninhas que exigem soluções novas e diferenciadas", afirmou, em nota, Leonardo Bastos, vice-presidente e diretor de marketing global da FMC.
Com o Rimisoxafen, a FMC completaria uma “trilogia” de ingredientes ativos de herbicidas levados à submissão regulatória no Brasil, seguindo as trilhas do Isoflex active e do Dodhylex active, ambos vistos com potencial semelhante, segundo executivos da companhia.
Acordo com a Corteva
Outra prova do potencial do Rimisoxafen é o interesse dos concorrentes na molécula. Anos antes de ele estar liberado para chegar ao mercado – e até antes do primeiro pedido de registro – a Corteva assinou um cheque de US$ 200 milhões para adquirir os direitos de utilizá-la em produtos próprios no futuro.
Em junho, as duas companhiasfecharam um acordo estratégico coexclusivo de licenciamento para expandir o acesso à tecnologia do Rimisoxafen na América do Norte e do Sul, para uso em milho e soja. Pelo contrato, a FMC mantém a propriedade do ingrediente ativo e fornece a matéria-prima à parceira.
As duas companhias desenvolverão suas próprias formulações premix para as Américas, enquanto a FMC fica com o Rimisoxafen para as demais geografias.
A lógica, explicada na ocasião pelo CEO da FMC, Pierre Brondeau, é ampliar o alcance de uma molécula de alto valor. "Quando você tem uma molécula dessa qualidade, com essas capacidades, você precisa encontrar parceiros para alcançar o mercado mais amplo possível", disse.
“E parceiros que tenham um portfólio talvez mais complementar do que o nosso, que é o caso da Corteva. Isso aumentou significativamente o tamanho do potencial de mercado para nós e a capacidade de vender essa molécula."
Para a Corteva, o acordo chega em um momento de reestruturação, em quea companhia se prepara para uma cisão que será efetivada na quinta-feira, 1 de outubro. O Rimisoxafen é apresentado como uma oportunidade de crescimento com economia atrativa.
"Ao colaborar com a FMC no rimisoxafen, estamos expandindo nossa capacidade de oferecer aos produtores ferramentas avançadas de controle de plantas daninhas que complementam nosso portfólio", disse Cynthia Ericson, vice-presidente do segmento de controle de plantas daninhas da Corteva.
Na FMC, o Rimisoxafen entra em cena como uma das peças centrais da estratégia de recuperação. Já há mais de um ano, em junho de 2025, a companhia detalhou que seus novos ingredientes ativos têm potencial de pico de vendas entre US$ 400 milhões e US$ 600 milhões cada — e que, somados, superam significativamente o auge das diamidas, a plataforma que já rendeu US$ 2 bilhões à companhia.
O foco inicial absoluto é mesmo o complexo soja/milho nas Américas. Somente o mercado dos EUA nessas duas culturas tem mais de 70 milhões de hectares de milho e soja cultivados anualmente, com produtores gastando mais de US$ 6 bilhões por ano no controle de plantas daninhas.
Mas a FMC pensa mais longe. A companhia detém os direitos totais globais da molécula e planeja expandir o Rimisoxafen para outras geografias e culturas como cereais, cana-de-açúcar, girassol e leguminosas, multiplicando o teto de faturamento a longo prazo.
Resumo
- FMC protocola no Brasil o registro do Rimisoxafen, herbicida estratégico para o mercado de soja e milho
- Molécula pode gerar até US$ 600 milhões em receitas anuais e tem potencial de expansão para outras culturas e países
- Corteva pagou US$ 200 milhões para licenciar o Rimisoxafen nas Américas, antes mesmo da chegada do produto ao mercado