Depois de uma reestruturação profunda na área comercial, a FMC já havia antecipado ao mercado que os resultados do terceiro trimestre de 2026 viriam enfraquecidos. E não trouxe suroresa ao divulgá-los nesta quinta-feira, dia 29 de outubro.
A companhia norte-americana registrou um prejuízo líquido de US$ 2,07 bilhões no terceiro trimestre, resultado quase quatro vezes superior às perdas de US$ 569 milhões contabilizadas no mesmo período do ano passado.
A receita também sofreu um tombo. Entre julho e setembro deste ano, a FMC faturou apenas US$ 106 milhões, 80% a menos em relação aos US$ 542 milhões registrados um ano antes.
Os números explicam, em grande medida, uma série de ajustes comerciais anunciados pela multinacional em 15 de outubro, com objetivo de reduzir os estoques em mão dos distribuidores e tornar seus produtos mais competitivos em um mercado retraído, com produtores menos economizando cada possível centavo.
Nos seus principais mercados de atuação da companhia –Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá – a FMC reduziu o preço de produtos selecionados que já estão nas mãos dos clientes de canal.
Em paralelo, a companhia também promoveu mudança no modelo de venda e precificação nos Estados Unidos, abandonando a estrutura histórica de preço bruto alto com descontos elevados.
Assim, a FMC pretende reduzir significativamente a diferença entre preço bruto e preço líquido, simplificando a economia para o cliente e alinhando a precificação à realidade de mercado.
Somadas, essas medidas provocaram um impacto negativo de US$ 639 milhões sobre a receita neste terceiro trimestre e de aproximadamente US$ 672 milhões sobre o Ebitda (sigla para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado.
Como consequência, o Ebitda ajustado da FMC ficou negativo em US$ 559 milhões, revertendo o resultado positivo de US$ 236 milhões obtido no terceiro trimestre de 2025..
Mas os problemas da FMC vão além dos efeitos extraordinários dessas medidas.
Mesmo desconsiderando as ações comerciais e as operações na Índia, colocadas à venda, a receita teria alcançado US$ 745 milhões, igual a uma redução de 22% na comparação anual.
A América Latina, uma das regiões mais importantes para os negócios da FMC, também sentiu os efeitos desse cenário.
A receita da companhia na região caiu de US$ 463 milhões no terceiro trimestre de 2025 para US$ 264 milhões neste ano, uma retração de aproximadamente 43%.
Na América do Norte, o impacto foi ainda mais contundente. A receita passou de US$ 244 milhões positivos para US$ 371 milhões negativos, resultado influenciado pelos ajustes no modelo de preços e descontos comerciais adotado pela empresa.
A maior parte do impacto extraordinário sobre os resultados está concentrada na América do Norte, onde a FMC decidiu reformular sua política de preços e descontos concedidos aos distribuidores.
Já na região que reúne Europa, Oriente Médio e África, as vendas passaram de US$ 155 milhões para US$ 121 milhões. Na Ásia, excluindo as operações indianas, a receita ficou em US$ 91 milhões.
“Estamos tomando medidas significativas para enfrentar os valores elevados dos estoques no canal de distribuição e melhorar o fluxo dos produtos da FMC até os agricultores”, afirmou Pierre Brondeau, presidente do conselho e CEO da companhia, em declaração divulgada com os resultados.
Segundo ele, o resultado do terceiro trimestre refletiu tanto o impacto dessas iniciativas quanto uma demanda mais fraca do que a esperada.
O executivo afirmou ainda que a prioridade agora será executar os ajustes junto aos clientes, com a expectativa de melhorar o desempenho em 2027 e construir uma trajetória mais robusta de crescimento e rentabilidade em 2028.
"Acreditamos que a conclusão deste trabalho, juntamente com o progresso em nossas prioridades operacionais, posiciona a FMC para melhor desempenho em 2027 e um perfil de crescimento e lucros mais forte em 2028", disse.
Por ora, no entanto, o desempenho operacional mais fraco também levou a fabricante a reduzir suas expectativas para o encerramento de 2026.
Para o quarto trimestre, a FMC passou a projetar uma receita entre US$ 1,04 bilhão e US$ 1,14 bilhão, excluindo a Índia. No ponto médio da estimativa, o resultado representa estabilidade em relação ao mesmo período de 2025.
Na divulgação anterior dos resultados, em julho passado, a companhia estimava que a receita dos três meses finais de 2026 ficasse entre US$ 1,06 bilhão e US$ 1,20 bilhão.
O Ebitda ajustado projetado para o quarto trimestre ficou entre US$ 210 milhões e US$ 230 milhões, uma queda de 22% no ponto médio da faixa em relação ao mesmo período do ano passado.
Para o resultado acumulado de 2026, as perspectivas são ainda mais desafiadoras.
A fabricante passou a estimar receita anual entre US$ 2,75 bilhões e US$ 2,85 bilhões, excluindo a Índia, queda aproximadamente 28% no ponto médio em relação à base comparável de 2025.
Na divulgação anterior de resultados, em julho passado, a companhia estimava que a receita ficasse entre US$ 3,50 bilhões a US$ 3,70 bilhões.
O Ebitda ajustado, por sua vez, deverá encerrar o exercício no campo negativo, entre US$ 104 milhões e US$ 124 milhões de perdas. Antes, a FMC esperava que ficasse positivo entre US$ 620 milhões e US$ 680 milhões.
Com os números negativos, o lucro por ação vira prejuízo por ação, estimado entre US$ 3,50 a US$ 3,66. Antes, a FMC projetava lucro por ação entre US$ 1,19 e US$ 1,49.
No decorrer do trimestre paralelo às mudanças globais da companhia, na América Latina, houve mudanças no alto comando da corporação.
O brasileiro Renato Guimarães, que liderava a operação da companhia americana na região desde 2024, deve deixar o cargo a partir de novembro. A FMC não confirmou um substituto.
Resumo
- FMC registra prejuízo de US$ 2,07 bilhões no terceiro trimestre, enquanto receita cai 80%, para US$ 106 milhões
- Ajustes de preços e descontos no Brasil e em outros mercados provocam impacto negativo de US$ 672 milhões no Ebitda
- Fabricante reduz projeção de receita para 2026 e passa a prever prejuízo por ação no ano