Em 1837, o autor dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu o conto “A Roupa Nova do Imperador”. A fábula narra a história de um rei obcecado por aparência.
Aproveitando-se dessa vaidade, dois golpistas se apresentam como tecelões capazes de criar um tecido invisível para pessoas ignorantes. Encantado, o rei encomenda a roupa. Com medo de parecerem ignorantes, ninguém, nem ministros e o próprio rei, admitem não ver o tecido. Todos fingem enxergá-lo.
No desfile público, o rei sai nu pelas ruas, enquanto a multidão também simula admiração. Até que uma criança revela o óbvio: o rei está nu. Aos poucos, todos percebem o absurdo, mas, ainda assim, ele segue o desfile.
Hoje, muitos gestores de marketing parecem repetir esse comportamento, seduzidos por soluções “revolucionárias” que prometem resultados imediatos.
No lugar do tecido invisível, surgem siglas como CPM, CPL, CPA e CPC, métricas relevantes, mas insuficientes quando tratadas como único norte.
Ao priorizar exclusivamente performance, muitas empresas deixam de lado fundamentos essenciais do marketing, como a construção e o fortalecimento de marca e a criação de vínculos reais com o público.
Philip Kotler já alertava que a essência do marketing está na construção de marcas: é isso que evita que os produtos sejam percebidos como commodities. No entanto, essa lição parece ter sido esquecida por parte das empresas do Agro.
A 9ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural traz um dado preocupante: 80% dos produtores brasileiros não são fiéis às marcas ou não mantêm recorrência de compra. Entre eles, mais de 40% trocam marcas por preço, enquanto 21% não percebem uma relação clara de custo-benefício.
Diante disso, é inevitável questionar a eficácia dos investimentos que são realizados atualmente. Muitas empresas destinam milhões ao marketing, mas negligenciam seu principal ativo: suas marcas.
Existe uma oportunidade clara de correção de rota. Isso passa por revisar estratégias e, principalmente, a forma como os investimentos são distribuídos. É fundamental compreender o que realmente sensibiliza o produtor rural. Não basta uma comunicação bem produzida ou visualmente moderna se ela não dialoga com a realidade desse público.
Da mesma forma, concentrar a maior parte dos esforços apenas em um determinado meio, incluindo influenciadores, ou em feiras agropecuárias pode ignorar aspectos importantes da jornada do produtor, que ainda envolve meios tradicionais presentes no seu dia a dia.
Mais do que nunca, profissionais de marketing precisam estar atentos às promessas fáceis dos “tecelões modernos”. Caso contrário, correm o risco de repetir a história e perceber tarde demais que estão “pelados” diante dos seus concorrentes.
Ricardo Nicodemos é presidente da (ABMRA) e diretor de Planejamento da RV Mondel Comunicação.