O mercado global de produção de alimentos vive um momento de forte instabilidade. Conflitos geopolíticos como a guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, as tensões no Oriente Médio expõem fragilidades nas cadeias globais de suprimento e trazem impactos para o setor agrícola.
A produção de alimentos depende diretamente de insumos estratégicos como gás natural, petróleo e ureia, amplamente produzidos nas regiões afetadas por sanções, bloqueios logísticos e interrupções de exportação.
Entre esses insumos, a ureia representa um dos principais pontos de atenção, essencial e decisiva para a nutrição do solo e para o desempenho das lavouras. Sem ela, a produtividade cai, assim como a oferta de alimentos, a competitividade do produtor e a previsibilidade dos preços.
Em meio ao confronto entre Estados Unidos e Irã, o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 30% da ureia comercializada globalmente, evidencia riscos concretos à segurança alimentar global. Mesmo após eventual normalização, a recomposição dos circuitos logísticos tende a levar tempo, prolongando os efeitos da crise.
Soma-se a isso a valorização do enxofre, associada ao encarecimento de insumos energéticos e do petróleo, que tem gerado um efeito disseminador de custos na cadeia de fertilizantes, pressionando ainda o custo do fósforo.
A menor disponibilidade de matéria-prima faz o preço do fertilizante disparar e atinge o elo mais vulnerável do ciclo: o agricultor.
Em função disso, somado a outros fatores, a relação de troca vem se deteriorando de forma preocupante, comprimindo margens e reduzindo o poder de investimento dele. Acrescente-se ainda o acesso crédito, agravado por taxas de juros elevadas que chegam a patamares próximos de 24% ao ano.
Essa conjuntura novamente joga holofote para uma realidade que o Brasil conhece há décadas: a elevada dependência da importação de fertilizantes. Para um país que é uma potência agroalimentar, cujo agronegócio representa próximo de 25% do PIB, iniciativas para equilibrar o abastecimento de insumos passam a ser uma questão de soberania da atividade econômica.
Um dos exemplos é o Plano Nacional de Fertilizantes que, mesmo apontando para uma direção correta ao buscar estimular a produção nacional, ainda carece de continuidade regulatória e compromisso institucional, com segurança jurídica.
O Brasil, é sabido, tem todas as condições para se reindustrializar, e com diferenciais como o uso de energias renováveis. O desafio, entretanto, está no ambiente de negócios. Só assim teremos o cenário ideal para crescer de maneira sólida, sustentável e alinhada às demandas de um sistema alimentar cada vez mais pressionado.
Reduzir a dependência internacional na produção de fertilizantes é um passo decisivo para gerar competitividade, segurança alimentar e protagonismo global ao País no longo prazo.
Nunca é demais lembrar que projetos industriais exigem visão de longo prazo. Para se ter uma referência, uma fábrica de fertilizantes leva de cinco a sete anos para sair do papel. Não se trata, portanto, de uma agenda de governo, mas de uma política de Estado, que precisa atravessar ciclos políticos e oferecer estabilidade ao investidor.
A crise geopolítica em curso tende a exercer uma pressão adicional e mais duradoura sobre o setor de produção de alimentos. O conflito afeta diretamente a rentabilidade do sistema de produção agrícola, ao elevar custos e aumentar a incerteza para o agricultor; compromete a disponibilidade de insumos e produtos ao longo da cadeia; e impacta a indústria de fertilizantes, reduzindo a oferta global desses insumos estratégicos.
Diferentemente de crises recentes, esse panorama aponta para um período de instabilidade mais prolongado, exigindo atenção redobrada do setor produtivo nas próximas fases.
Enquanto essa “tempestade perfeita” não cessa, o produtor mais uma vez deve agir com resiliência. É fundamental organizar suas demandas, planejar volumes com precisão, e contar sempre com parceiros confiáveis e capazes de assegurar fornecimento e apoiar decisões estratégicas.
Em momentos de instabilidade e de rentabilidade em risco, é fundamental ter soluções em nutrição que ofereçam ganhos reais de produtividade e retorno sobre o investimento, e baseadas em pesquisa e inovação. Essa é uma decisão que reduz riscos e garante previsibilidade.
Não há espaço para o desperdício. Do lado da indústria, o compromisso se mantém firme: seguiremos buscando alternativas para que o produtor rural cumpra seu nobre papel de alimentar o mundo.
Marcelo Altieri é Presidente da Yara Brasil.