Na missão de reduzir a dívida e fortalecer o capital de giro da Sinova, a multinacional indiana de insumos, UPL, acaba de investir US$ 86,7 milhões (cerca de R$ 450 milhões) na rede de revendas
O movimento faz com que a UPL se torne também a principal acionista da empresa, vendo sua participação saltar de 49,97% para 55,81%. De acordo com um documento publicado pela companhia há poucos dias, a Sinova continuará sendo uma "associada" da UPL, que afirma que não exercerá o controle, mesmo com maioria no capital.
Apesar da justificativa sucinta, alguns números divulgados pela empresa ajudam a explicar o motivo do investimento. A Sinova tem visto seu faturamento cair ano após ano, segundo o documento.
Depois de faturar US$ 891 milhões em 2022, teve receita de US$ 849 milhões em 2023, US$ 417 milhões em 2024 e finalmente, US$ 329 milhões no ano passado, uma queda de quase 70% em três anos.
O último investimento da UPL na Sinova ocorreu em fevereiro de 2025. Na ocasião, aumentou sua participação de 38,96% para os 49,97% com um cheque de US$ 53,8 milhões.
Na época, o aporte foi feito para "atender a necessidade de capital de giro" da subsidiária, segundo o documento publicado naquele momento, sem nenhuma menção à dívida da empresa, diferente de agora.
Ex-Sinagro, a Sinova gahou esse nome ao final de 2023, em uma missão de Bunge e UPL de renovar os ares na empresa. O processo incluiu até um novo CEO, o ex-Adama, Rodrigo Gutierrez, que permaneceu no cargo até junho de 2025. Na época, a empresa esperava um 2024 melhor, mas já projetava não abrir mais lojas por, pelo menos, dois anos.
Gutierrez foi substituído na cadeira de CEO por Ezio Costa, um ex-UPL que também já foi CEO da holding Crop Care, do Pátria.
Mais recentemente, em uma entrevista concedida ao AgFeed em junho de 2025, a UPL afirmou que buscava "novas rotas de distribuição" para seus produtos após o início das crises de Agrogalaxy e Lavoro, duas das maiores redes de revendas da empresa. No caso da Lavoro, a UPL ainda é uma das principais credoras que aceitaram o plano de recuperação extrajudicial.
Nessa ocasião, o então diretor comercial da companhia indiana no Brasil, Cristiano Figueiredo, citou a necessidade de buscar de novos parceiros e opções aos clientes para driblar uma Selic de 15% ao ano, além de uma robusta estratégia de marketing e aproximação com os produtores.
Das vendas da UPL, quase 70% são indiretas, por meio de revendedores ou cooperativas, uma forma de atingir pequenos produtores, de acordo com a companhia. Os 30% vendidos diretamente aos consumidores finais são operados por meio da Origeo, em sociedade com a Bunge (que também é acionista da Sinova).
O documento divulgado há poucos dias não detalha de quem a UPL comprou o novo percentual acionário.
A mensagem da época era que, independente das redes de distribuição em crise, outras ocupariam o espaço. Figueiredo foi alçado ao cargo de CEO da UPL no Brasil no início deste mês, substituindo Rogério Castro - que estava na cadeira há cinco anos.
Em uma de suas primeiras entrevistas já como comandante da operação nacional da UPL, Cristiano Figueiredo não detalhou os impactos de RJs ou REs na empresa, mas comentou que, na estratégia de acesso ao mercado, a empresa buscava "sempre mais de um parceiro comercial em cada geografia".
Fundada no Mato Grosso, a Sinova possui cerca de 60 lojas em 10 estados.
"Lógico que você tem que ter um número limitado para gerar valor, em determinado município ou região. Mas também você não pode ter todos os ovos em uma cesta só. E quando você tem dificuldade com um parceiro, naturalmente você tem como debater com outro de que maneira a UPL continua sendo relevante naquela região, naquela geografia".
O Brasil é considerado um "carro-chefe" da UPL. No ano de 2024/25, as vendas na América Latina (onde o Brasil é o principal País), chegaram a US$ 2 bilhões, mais de 36% do total global de US$ 5,45 bi no ano. O crescimento na região foi de 2% em relação à temporada anterior.
Além dessa injeção de capital da UPL, a Sinova tem se ancorado no mercado de capitais para manter a operação em funcionamento. A rede de distribuição captou, em setembro do ano passado, R$ 250 milhões em um Fiagro FIDC em uma operação orquestrada junto à securitizadora Opea.
No final de março, a Opea anunciou que buscava emitir novas cotas para o fundo da Sinova, visando captar mais R$ 56 milhões para o fundo.
Resumo
- UPL injeta US$ 86,7 mi na Sinova e eleva participação para 55,8%, tornando-se acionista majoritária
- Aporte mira redução de dívida em meio à crise nas revendas e após queda de quase 70% na receita da empresa desde 2022