Ribeirão Preto (SP) - A presença cada vez maior de companhias chinesas no agro brasileiro se estende por diversos segmentos, das tradings às indústrias químicas e de maquinário.

É o caso da multinacional XCMG, de controle estatal, uma das maiores empresas globais de equipamentos para construção e mineração.Presente no Brasil há duas décadas, a empresa foi ganhando tração de forma gradual. Inicialmente, passou a importar máquinas da China a partir de 2004.

Dez anos depois, em 2014, deu um passo decisivo com a instalação de uma fábrica em Pouso Alegre (MG), voltada à montagem de equipamentos com componentes importados – investimento estimado, à época, em R$ 200 milhões.

Em paralelo, a XCMG montou uma rede de parceiros e filiais em todo o Brasil, além de uma instituição financeira própria, o Banco XCMG, para financiar os equipamentos aos clientes.

Hoje, a XCMG colhe os frutos de sua estratégia operacional. Daniel Sasaki, head da divisão comercial da rede de distribuidores da XCMG Brasil, afirma que a companhia cresceu acima do mercado de máquinas e equipamentos em 2025 e projeta manter esse ritmo.

"O mercado deve ter uma linearidade, mas nós já estamos crescendo acima do mercado", diz Sazaki, que conversou com o AgFeed no estande da empresa na Agrishow 2026.

A força da XCMG está nas escavadeiras, carregadeiras e nos rolos compressores que produz e, de certa forma, a empresa já tinha certa presença na cadeia do agro – não é possível operar dentro de um armazém sem uma pá escavadeira, por exemplo.

Mas, agora, a XCMG calça as botinas de vez ao apostar no segmento de tratores agrícolas, com dois lançamentos previstos para este ano.

A companhia vai comercializar dois modelos de menor porte, de 86 e 100 cavalos de potência, com o objetivo de testar a aceitação no mercado brasileiro.

No fim do ano passado, Pérsio Briante, fundador e presidente do grupo Extra Máquinas, o maior revendedor das máquinas da XCMG no Brasil, havia contado ao AgFeed que já vinha revendendo tratores da companhia em um teste.

Agora, a XCMG está apresentando as máquinas aos clientes na Agrishow, mas a comercialização em si ainda não começou de forma oficial. A ideia é focar em produtores de diferentes cultivos, sem atender apenas a uma cultura em específico.

A expectativa da XCMG é de que, no início da próxima safra, as primeiras máquinas já estejam sendo vendidas aos produtores.

“Por trás disso, tem a preparação de toda a rede de pós-venda e treinamento, para que estejam preparados ferramentas especiais, mecânicos e tudo o mais para dar suporte”, relata Sasaki.

A XCMG tem uma rede capilarizada, com presença em diferentes estados do Brasil como Pará, Goiás, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso e Maranhão. Ao todo, são 14 grupos econômicos parceiros, cobrindo todo o território nacional.

A Lei Ferrari, que legisla a venda de veículos, obriga que máquinas agrícolas sejam vendidas por concessionárias. Mas isso não vale para máquinas da linha amarela e a XCMG ainda estuda qual modelo vai adotar para a comercialização dos tratores.

Seu principal revendedor, o grupo Extra, sediado em Sumaré (SP), está investindo R$ 50 milhões para dobrar sua presença no Brasil, com 12 novas lojas e um centro de distribuição em Parauapebas (PA).

Além da capilaridade da rede, um ponto relevante na estratégia da XCMG é a nacionalização gradual da produção na fábrica de Pouso Alegre. Um dos modelos apresentados na Agrishow, por exemplo, já conta com motor fabricado no Brasil pela subsidiária brasileira da companhia americana Cummins.

A fábrica de Pouso Alegre abriga, desde o ano passado, um centro de desenvolvimento voltado à adaptação – ou “tropicalização”, como diz o executivo da companhia – dos equipamentos às condições brasileiras.

O processo de “tropicalização” das máquinas da será progressivo. “A ideia é avançar aos poucos, combinando componentes importados e nacionais até atingir um nível maior de nacionalização. Isso exige o desenvolvimento de fornecedores, o que leva tempo”, explica o executivo.

O discurso não é por acaso. A XCMG faz questão de ressaltar que é hoje a única fabricante de origem chinesa com unidade industrial no Brasil – diferentemente de marcas como a YTO, que chegou ao País em 2024.

“O cliente está comprando um produto fabricado aqui que gera valores, impostos dentro do Brasil. Geramos empregos para brasileiros”, diz Sasaki. Ao todo, a XCMG emprega 2 mil pessoas no País.

A planta mineira tem capacidade de produção de 10 mil máquinas por ano e está com a estrutura quase toda consumida, relata Sasaki. “Nós estávamos com dois turnos, agora já estamos com três turnos. Estamos avançando muito próximo da capacidade máxima”, conta.

Questionado se haveria a possibilidade de a companhia chinesa instalar nova fábrica no Brasil, Sasaki despistou. “Tudo vai depender muito da demanda.”

A empresa também não descarta ampliar o portfólio, operando com tratores de maior potência. “Não dá para abrir mão da faixa até 150 cavalos. Entre 86 e 150 cavalos, você cobre uma parcela relevante do mercado”, afirma Sasaki.

Além disso, para destravar negócios em um ambiente de crédito mais desafiador, a companhia também criou, em 2021, o Banco XCMG, a primeira instituição financeira com capital 100% estrangeiro autorizada pelo Banco Central a operar no País.

A instituição acumulava uma carteira de crédito de R$ 667 milhões ao fim de 2025, segundo o balanço mais recente publicado. Boa parte da carteira – R$ 469,2 milhões – está vinculada a serviços.

A XCMG não abre seus números no Brasil. Mas a companhia é listada na bolsa chinesa de Shenzhen.

De acordo com relatório semestral divulgado pela companhia em agosto do ano passado à bolsa local, a XCMG teve receita operacional de 54,8 bilhões de yuans, quase US$ 8 bilhões no câmbio atual. Isso representa uma alta de 8% em um ano, mostrando que está caminhando na contramão do mercado global.

A John Deere, por exemplo, líder global do segmento, faturou US$ 21,2 bilhões no mesmo intervalo, mas o montante foi 22% menor em um ano.

Em sua página na internet, a XCMG diz que seu volume de exportações supera US$ 1,6 bilhão anualmente.

A empresa foi criada em 1989 e, em 1995, foi nacionalizada pelo governo chinês.

Resumo

  • Chinesa XCMG vai iniciar comercialização de tratores de menor potência no Brasil
  • Empresa já tem forte presença no segmento de máquinas pesadas e quer ampliar presença no agro
  • Ideia é "tropicalizar" produção de máquinas agrícolas, montando os equipamentos com peças brasleiras