Uma esperada reação da oferta de carne no mercado americano pode demorar mais a acontecer. Pelo menos essa é a percepção dos investidores após o reconhecimento, na manhã desta segunda-feira, 8 de junho, de mais dois casos de infestação pelas larvas da mosca-varejeira do Novo Mundo em propriedades rurais do estado do Texas, nos Estados Unidos.
A confirmação foi feita pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês), elevando a quatro o número de detecções da praga no estado nos últimos dias. Foi o suficiente para gerar preocupações sobre a propagação do inseto na região com o maior rebanho bovino do país, com mais de 12 milhões de cabeças.
Como consequência desse receio, as ações das duas maiores empresas produtoras de carnes dos EUA, JBS e Tyson Foods, iniciaram a semana em quedas fortes, que chegaram a mais de 5% nas primeiras horas de negociação em Wall Street.
Os focos ainda estão concentrados em duas localidades, mas o temor é de que novos casos comecem a surgir em outras regiões, limitando o trânsito de animais e reduzindo ainda mais a oferta de gado aos frigoríficos, que já encaram a menor disponibilidade para abates em 75 anos.
Os casos confirmados são os primeiros em cerca de uma década a serem notificados pela USDA. Em bovinos, especificamente, não haviam sido confirmados episódios de infecção pelas larvas da mosca-varejeira desde 1976, quando um surto, também no Texas, afetou mais de 1,5 milhão de cabeças de gado bovino.
As fêmeas desse inseto depositam seus ovos em feridas abertas em animais de sangue quente. Após a eclosão, as larvas penetram no tecido vivo, alimentando-se dele e podendo matar o hospedeiro se não forem tratadas.
Por isso, o simples relato do primeiro desses casos, na quarta-feira, 3 de junho, mexeu com as negociações de contratos futuros de gado para engorda em Chicago, que subiram cerca de 3% desde então.
Outras reações imediatas trataram especificamente de restringir a movimentação de animais para fora do estado do Texas. Uma delas veio do Departamento de Agricultura do estado da Geórgia, que anunciou na última sexta-feira, 5 de junho, a proibição da entrada de animais de criação e de estimação provenientes do Texas.
Já o Canadá decidiu bloquear o trânsito de qualquer animal que tenha estado no Texas nas últimas três semanas.
Em reação à nova ameaça, o governo americano anunciou que deve investir cerca de US$ 1 bilhão em um esforço para erradicar a mosca-varejeira, segundo informou à CNBC a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins.
Para o tratamento das infestações, o governo aprovou, para o uso emergencial, uma série de medicamentos capazes de combater as larvas.
Já para acabar com as moscas, a estratégia é repetir a fórmula que deu certo há 50 anos: a dispersão de moscas estéreis que limitaram a capacidade de reprodução da praga.
O USDA planeja liberar 8 milhões de insetos por semana na atual zona de controle, que abrange 20 quilômetros (12 milhas) ao redor da primeira detecção.
Mas de acordo com Rollins, a dispersão dessas moscas precisará atingir 400 milhões por semana, o que traz um outro desafio. O governo americano conta com uma instalação no Panamá que produz e dispersa 100 milhões de moscas por semana.
"Precisamos de muito mais do que 100 milhões de moscas por semana”, disse a secretária. Uma nova planta com essa finalidade (a primeira nos EUA), com capacidade de fornecer 300 milhões de moscas estéreis por semana, está em construção no Texas. Entretanto, só começa a operar em novembro de 2027 e ainda não com sua capacidade máxima.
Enquanto isso, investigações epidemiológicas foram instauradas para entender a origem e o avanço do inseto pelo território americano.
Os Estados Unidos vinham monitorando o deslocamento do parasita pelo norte do México e muitos consideravam que o surgimento de casos de infestação no país era questão de tempo.
Nem mesmo o fechamento das fronteiras para a importação de gado proveniente do México, determinado há mais de um ano, foi capaz de impedir o avanço da praga. A luta, agora, é para contê-la.
Resumo
- Casos da mosca-varejeira do Novo Mundo no Texas elevaram preocupações oferta de bovinos nos EUA e pressionaram ações de JBS e Tyson
- Primeiras confirmações de infestação provocaram restrição do trânsito de animais e alta nos mercados futuros de gado
- O governo americano anunciou um plano de US$ 1 bilhão para conter o avanço do inseto