A agropecuária está no epicentro de uma transformação de grande impacto. Drones sobrevoam lavouras capturando dados multiespectrais, sensores embarcados em tratores comunicam-se com satélites para ajustar aplicações de insumos em tempo real. Algoritmos de inteligência artificial preveem rendimentos de safra meses antes da colheita e plataformas digitais conectam produtores a mercados globais com apenas um toque em seus celulares.

A agricultura 4.0 chegou sem pedir licença e, para quem está nessa toada, os resultados são concretos com mais produtividade, menos desperdício de recursos, melhor uso de ativos e tomada de decisão com base em dados.

No entanto, independente do portfólio tecnológico em campo, uma pergunta insiste em rondar a porteira: Tem que ter ingresso para entrar nessa jornada? E se sim, quem é que pode pagar por ele?

O economista alemão Klaus Schwab, autor do livro “A Quarta Revolução Industrial” e idealizador do Fórum Econômico Mundial, lembra que a revolução em curso na indústria coloca a humanidade diante de uma encruzilhada onde as tecnologias emergentes podem servir para distribuir oportunidades ou para concentrar ainda mais poder nas mãos de poucos.

A ponderação que Schwab apresenta é de que o resultado dessa equação não é determinado pela tecnologia em si, mas pelas escolhas que os diferentes agentes fazem sobre como ela é desenvolvida, governada e distribuída.

No agro, onde a dinâmica dos negócios ocorre com o envolvimento e ação de uma série de agentes com diferentes interesses antes, dentro e depois da porteira, a tecnologia pode ser habilitadora e ao mesmo tempo excludente.

Os primeiros serão os primeiros e os últimos serão os últimos

A Lei da Difusão da Inovação é um conceito consolidado no mundo da inovação e foi formulado pelo sociólogo Everett Rogers, que explica como novas tecnologias são adotadas e se espalham na sociedade: primeiro com os inovadores, depois os adotantes iniciais, depois a maioria inicial, a maioria tardia e, por fim, os retardatários, que chegam quase que por obrigação.

À primeira vista o conceito da difusão da inovação pode até parecer distante da realidade agropecuária. Porém, é só lembrar que mesmo entre produtores e criadores há inovadores e adotantes iniciais que fazem fila para comprar um novo smartphone ou para fazer um test drive de um novo modelo de drone.

Ao mesmo tempo, seja por limitação de recursos ou por resistência ao novo, há produtores retardatários que em algum momento precisarão aprender a utilizar novos recursos digitais e navegar em ambiente on-line para formalizar a sua conformidade socioambiental (como na emissão do CAR – Cadastro Ambiental Rural) ou para obter acesso a crédito em melhores condições (via apps de bancos e marketplaces).

Apesar de ser de fácil observação no agro, a difusão da inovação pode ter uma consequência um tanto perversa independente ao setor. Isso porque quem pode chegar primeiro captura as melhores vantagens e tem mais margem para negociar preço e modelos de negócio. E aqui a figura dos “clientes-anjos” e o smart money de investidores e corporações também podem ditar muita coisa.

Quem chega depois, além de enfrentar um cenário mais competitivo em termos de adoção e fluência em determinadas tecnologias, costuma ter menos tempo para experimentação, avaliação de opções e ajustes de trajetória das novas tecnologias em campo. Quando for a sua hora, vai precisar colocar para rodar e gerar resultado imediato, sem a chance de errar e aprender rápido, como a boa prática de inovação sugere.

Neste ponto vale lembrar que, de acordo com o último Censo Agro do IBGE (2017), há cerca de 15 milhões de pessoas ocupadas em atividades agropecuárias no país. Tendo isso em mente e considerando o tipo de cultura agrícola, a região de produção e o porte (agricultura familiar, de larga escala ou agroindústria), é importante destacar que no agro existem diferentes percepções e práticas quanto a adoção de tecnologia.

E isso é algo evidenciado na pesquisa “O Pulso do Produtor Brasileiro”, publicada pelo Boston Consulting Group em 2025, que confirma que a adoção de tecnologias digitais na agricultura brasileira ainda é incipiente e estratificada. Se grandes produtores já estão na vanguarda, pequenos e médios ainda enfrentam barreiras de custo, conhecimento e infraestrutura que não são nada triviais.

Para grandes produtores e empresas da agroindústria, fazer a gestão da inovação e investir recursos para processos de inovação é algo que já tem entrado na pauta do planejamento de safra e anos fiscais. Porém, no contexto de pequenos e médios produtores, inovar apresenta desafios particulares.

Na nova dinâmica da agropecuária e mercados globais altamente conectados, produtores rurais precisam ser simultaneamente gestores, técnicos, comerciais e, agora, cientistas de dados. Desenvolver essas capacidades requer investimentos significativos em educação, treinamento e experimentação, recursos frequentemente escassos para quem precisa plantar e colher para sobreviver.

Isso pode criar um círculo vicioso. Onde aqueles com menor capacidade de adoção inicial têm maior dificuldade de capturar valor de inovações, com recursos limitados para desenvolver essa capacidade, o ciclo seguirá mantendo e aumentando desigualdades.

A inovação deveria ser algo para empoderar o setor e não aumentar as diferenças. E essa é uma pauta que ainda é pouco discutida nos ambientes de fomento de novas tecnologias, mas deveria estar bem destacada nos playbooks de qualquer centro de inovação rural.

Os early adopters podem até dar o drive para iniciar o jogo. Mas, para escalar, ganhar tração e atingir o ponto ótimo na equação de desenvolvimento e adoção, é a base massiva de produtores que fará uma nova tecnologia agrícola se consolidar no mercado.

Tecnologia por design, não por default

Klaus Schwab, o pai da Quarta Revolução Industrial, preconiza um princípio que cabe muito bem no debate sobre o desenvolvimento do agro digital: o da tecnologia por design, não por default. Ou seja, não deveríamos nos resignar aos resultados que a lógica do mercado tech entrega por padrão, mas fazer escolhas deliberadas sobre como os sistemas tecnológicos deveriam ser estruturados.

Plataformas tecnológicas deveriam ser desenhadas para distribuir valor ao longo da cadeia produtiva, não apenas para concentrá-lo. Algoritmos deveriam ser desenvolvidos sem vieses em favor de quem tem mais ou de qual cultura/segmento pagará mais. Governança de dados deveria ser pensada para orquestrar e proteger, e não para condicionar o uso e consumo de produtores (encaixe aqui aquela velha pergunta sobre quem é o dono do dado).

E para que isso ocorra os atores precisam estar dispostos a agir. Políticas públicas para incentivo e adoção de novas tecnologias, big techs e agtechs com modelos de negócio que não sejam voltadas apenas para grandes produtores.

Capacitação e serviços de extensão rural atualizados para o mundo digital e mais agentes de inovação que possam assumir o papel de mediadores para pequenos e médios produtores no ecossistema de inovação, reduzindo justamente os custos de transação que podem tornar o acesso mais difícil.

O agro brasileiro é referência global e é plural. Seja um grande player ou produtor de pequeno porte, todos têm expectativas e demandas para uma transformação digital que, em teoria, deveria empurrar para frente e não para lados opostos.

A inovação tecnológica para fortalecer o setor e não segregar. Essa poderia ser a síntese para um agronegócio digital mais inclusivo e para evitar um campo tecnologicamente avançado para poucos e menos inviável para muitos.