É possível produzir chocolate sem cacau e, ainda assim, entregar um produto praticamente igual ao tradicional, com sabor e cremosidade semelhantes? Para a startup alemã Planet A Foods, a resposta é sim.

Com sede em Planegg, perto de Munique, na Alemanha, a empresa desenvolveu o ChoViva, uma alternativa ao chocolate que tem como base o cacau e é produzida principalmente a partir da fermentação de sementes de girassol, além de utilizar também outros ingredientes como aveia e sementes de uva.

O grande mote do produto é a sustentabilidade embutida em cada chocolate. Segundo a Planet A Foods, o ChoViva chega a ter uma pegada de carbono até 85,7% menor do que a do chocolate convencional, dependendo da formulação.

O principal fator responsável pela diferença é o processo produtivo, já que o cacau é historicamente associada ao desmatamento nas principais regiões produtoras, concentradas na África.

É por isso, inclusive, que o nome da startup é “Planet A”, já que, na visão de seus fundadores, não há um plano B para o planeta.

“A Planet A Foods não é mais apenas uma startup – estamos a caminho de nos tornarmos uma empresa líder em tecnologia alimentar, remodelando a indústria de alimentos sustentáveis”, disse Maximilian Marquart, CEO e cofundador da empresa, sem medo de soar arrogante, após fechar rodada de investimentos de US$ 30 milhões em meados de 2024.

Até aqui, a empresa já captou mais de US$ 45 milhões com investidores, atraiu o interesse de gigantes da indústria, como Nestlé, Lindt e Barry Callebaut, e colocou o produto em dez países da Europa e da Ásia.

A ideia surgiu a partir de uma inquietação dos irmãos Sara e Maximilian Marquart em 2021, quando criaram a startup. Durante a pandemia, os dois buscavam uma forma mais sustentável de produzir chocolate, cuja cadeia enfrenta desafios cada vez maiores.

Um estudo publicado em março do ano passado pela revista acadêmica Agricultural and Forest Meteorology, indicou que as mudanças climáticas poderão provocar uma potencial redução de metade da área climaticamente adequada para a produção de cacau na África Ocidental e Central até 2050.

É justamente a parte onde estão concentrados os maiores produtores de cacau do mundo, países como Camarões, Costa do Marfim, Gana e Nigéria.

Só a Costa do Marfim perdeu 79% de sua cobertura florestal entre 2000 e 2024, sendo a expansão do cacau um dos principais motores desse processo, segundo levantamento da organização sem fins lucrativos Trace repassado à agência Reuters.

O cenário cria um paradoxo para a cadeia do chocolate. Ao mesmo tempo em que o aquecimento global ameaça a produção e reduz a disponibilidade de áreas aptas ao cultivo, a demanda mundial segue em trajetória de crescimento, pressionando ainda mais um mercado já marcado por problemas como desmatamento, perda de biodiversidade e baixa remuneração dos produtores.

“Nosso abastecimento de alimentos está ameaçado devido à forma como nos alimentamos”, disse Max Marquart ao site americano TechCrunch no ano em que a startup foi criada. “Adoramos chocolate; no entanto, percebemos que existem alguns riscos à sustentabilidade e queríamos fazer algo a respeito para que ainda possamos tê-lo no futuro.”

A resposta encontrada pela Planet A Foods para resolver o quebra-cabeça da produção de cacau foi, então, substituir o fruto por sementes de girassol cultivadas na Europa Oriental, processo que não foi simples, contou Maximilian Maquart à CNN.

“Entre o nosso primeiro protótipo e a fórmula atual, tivemos 500 versões – e nada daquele produto inicial sobreviveu até a versão comercial", disse.

O processo procura reproduzir as mesmas transformações químicas que acontecem com os grãos de cacau.

As sementes passam por um processo de fermentação, torra e moagem até originarem um concentrado rico em compostos aromáticos semelhantes aos do chocolate.

Na etapa seguinte, esse concentrado é combinado com outros ingredientes, recebe gorduras vegetais e passa pelo processo de conchagem, técnica tradicional da indústria chocolateira responsável por conferir textura cremosa e acabamento ao produto.

Hoje, o ChoViva é comercializado em quatro versões: ao leite, meio amargo, branco e vegano. Mais recentemente, também foi lançada uma versão sem adição de açúcar, substituída pelo adoçante maltitol.

A Planet A Foods, no entanto, não opera no formato B2C, e sim B2B, fazendo acordos com outras empresas para que elas fabriquem produtos à base de ChoViva como biscoitos, bombons de manteiga de amendoim e granola.

“Não estamos competindo com o seu Cadbury Milk ou com suas barras de chocolate puro, esse não é o nosso objetivo”, disse Marquart à CNN.

A quantidade utilizada por outros fabricantes varia bastante. “Ele pode aparecer como cobertura de castanhas, em cookies ou até compor barras inteiras. Dependendo do produto, pode representar desde uma pequena fração até 100% da formulação", afirmou Sara Marquart, cofundadora e diretora de tecnologia da Planet A Foods.

Até o momento, o ChoViva já foi utilizado em mais de 120 países da Europa e Ásia e, em diferentes formatos, está presente em mais de 100 mil lojas espalhadas pelo mundo.

Apesar da proposta inovadora, a empresa evita posicionar o ChoViva como um substituto definitivo do chocolate tradicional.

"O interesse por alternativas ao cacau está crescendo, mas elas precisam coexistir com as categorias já existentes, sem competir diretamente com o chocolate convencional", afirmou Maximilian.

Segundo o executivo, a principal preocupação das grandes fabricantes não é necessariamente a sustentabilidade, mas a segurança no abastecimento diante da crescente volatilidade da produção mundial de cacau.

"A sustentabilidade é um benefício importante, mas, para muitas empresas, garantir o fornecimento é o fator decisivo."

Embora ainda seja uma operação relativamente pequena, a Planet A Foods vem conquistando espaço entre as maiores empresas do setor.

Em março deste ano, a Nestlé anunciou uma parceria com a startup para lançar uma linha de produtos voltada à geração Z, os snacks Choco Crossies Snack Vibes, com três sabores, todos usando ChoViva como matéria-prima base.

"A cooperação com a Nestlé fortalece o papel da ChoViva como parceira estratégica para fabricantes de marcas", afirmou Maximilian Marquart no anúncio do acordo. "Apoiamos nossos clientes a se conectarem com as novas gerações e construírem relevância de longo prazo."

Poucos meses depois, em maio deste ano, a Planet A Foods também ampliou sua parceria com a Barry Callebaut, líder mundial na fabricação de chocolates e produtos de cacau para profissionais.

A startup alemã já tinha firmado um acordo com a companhia, a maior compradora de cacau do mundo, no fim de 2025, para expansão comercial na Europa e, neste ano, também passou a levar o ChoViva para os Estados Unidos.

"Estamos muito entusiasmados em ampliar nosso portfólio e compartilhar soluções que atendam às necessidades em constante evolução dos clientes e da indústria", afirmou Laura Bergan, diretora de marketing para marcas e clientes da Barry Callebaut.

As empresas não divulgaram os volumes e valores envolvidos nos contratos.

Além da Nestlé e da Barry Callebaut, a startup alemã também já fechou acordos comerciais com a suíça Lindt, que lançou, em 2024, uma edição limitada de uma barra de chocolates vegana, e com a companhia aérea Luftansa, com a varejista europeia Rewe, além de várias outras empresas de alimentos e bebidas do mercado europeu.

Desde sua fundação, a Planet A Foods vem financiando esse crescimento por meio de sucessivas rodadas de investimento.

A mais recente delas se encerrou em maio de 2024, quando a startup levantou US$ 30 milhões em uma rodada do tipo série B coliderada pela Burda Principal Investments e pela Zintinus, com participação da World Fund, Bayern Kapital, Cherry Ventures, Tengelmann Ventures, BayWa Venture e Omnes Capital.

A rodada permitiu que a startup alemã ampliasse sua produção de 2 mil toneladas para 15 mil toneladas por ano de ChoViva em uma fábrica na cidade de Pilsen, na República Tcheca.

“O momento foi perfeito”, diz Maximilian ao site GreenQueen. “Com as mudanças climáticas afetando a indústria do cacau e os preços subindo, a ChoViva oferece uma solução com impacto a longo prazo no mercado. Demonstrar que a ChoViva pode crescer e, ao mesmo tempo, ter um sabor convincente, nos deu confiança mesmo em um ambiente difícil.”

A Planet A Foods não está sozinha no mercado. Outras empresas como a britânica Nukoko, que produz chocolate a partir de fava (leguminosa que faz o papel de feijão na Europa), e a brasileira Cellva também se aventuram no mercado de chocolates sem cacau.

A Cellva, em especial, levantou US$ 4 milhões em uma rodada de investimento pré-série A recentemente, com o objetivo de montar uma unidade semi-industrial em Manaus (AM).

A startup brasileira está empenhada em colocar de pé o CoffeeCoa, um substituto de sólidos de cacau feito a partir do fruto do café arábica, mas não do grão, e sim do que sobra dele.

O resultado é um ingrediente natural capaz de substituir sólidos de cacau em formulações de bolos, brownies, biscoitos, sorvetes e bebidas. “Onde houver chocolate, pode haver CoffeeCoa”, disse o CEO da empresa, Sérgio Pinto, ao AgFeed em março passado.

Resumo

  • Startup alemã Planet A Foods criou um chocolate sem cacau feito a partir de grãos de girassol, com sabor e textura semelhantes aos do tradicional
  • ChoViva reduz a pegada de carbono em até 85,7% e surge como alternativa diante da crise climática e da pressão sobre o cacau
  • Nestlé, Barry Callebaut e Lindt já apostam na tecnologia da Planet A Foods para desenvolver produtos com o ingrediente sustentável

Sara e Maximilian Marquart, cofundadores da startup

Nestlé lançou produtos no mercado europeu com ChoViva