Mesmo diante de um Plano Safra 2026/2027 com menor volume de recursos para crédito equalizado, o Sicredi não espera dificuldades para atender a demanda de seus associados ao longo da temporada.

A cooperativa de crédito planeja disponibilizar R$ 72,1 bilhões em crédito rural durante o Plano Safra 2026/2027, volume que poderá representar uma alta de 4,4% em relação ao ciclo anterior, quando o Sicredi liberou R$ 69 bilhões em mais de 320 mil operações.

A expectativa da instituição é de, agora, incrementar a quantidade de negócios em cerca de 6%, com a projeção de cerca de 340 mil operações feitas ao longo da temporada.

O volume de R$ 72,1 bilhões considera tanto os recursos livres quanto os equalizados, que são aqueles subsidiados pelo governo.

Do montante total, o Sicredi prevê destinar R$ 27,6 bilhões para custeio, R$ 15,4 bilhões para investimentos e R$ 2 bilhões para comercialização e industrialização.

Outros R$ 18 bilhões deverão ser liberados por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), enquanto R$ 9 bilhões serão destinados às chamadas linhas dolarizadas, voltadas principalmente a produtores com receitas vinculadas às exportações.

O plano de financiamento da cooperativa de crédito mantém, como de praxe, o foco nos pequenos e médios produtores.

Para a agricultura familiar, o Sicredi planeja a concessão de R$ 13,3 bilhões, enquanto os produtores de médio porte terão acesso a R$ 14,6 bilhões. Juntos, esses dois segmentos devem concentrar 88% das operações previstas. Para os demais produtores, a instituição planeja destinar R$ 17,1 bilhões.

Em entrevista a jornalistas na manhã desta quinta-feira, dia 2 de julho, em São Paulo, os executivos do Sicredi disseram que, embora o volume de recursos controlados para custeio possa ser menor do que no ciclo anterior, isso não deverá comprometer a oferta de crédito aos associados.

"A gente deve ser atendido quase que integralmente. Estamos confortáveis e entendemos que vai conseguir atender pelo menos o que planejou em termos de demanda", afirmou Gustavo Freitas, diretor executivo de crédito e segmentos do Sicredi.

Na safra 2025/2026, os executivos do Sicredi estimaram que aproximadamente 52% das operações foram realizadas com recursos controlados e 48% com recursos livres, proporção que deve permanecer relativamente estável.

A instituição ainda não tem claro qual será o mix desta safra, mas que provavelmente deve seguir em volumes semelhantes aos do ano passado.

Apesar de a subvenção de recursos destinados à equalização tenha aumentado 41% no pacote anunciado pelo governo federal, passando de R$ 3,94 bilhões para R$ 5,56 bilhões, o volume de crédito subsidiado oferecido diminuiu 14,8%, passando de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões.

A estratégia da cooperativa já considera um portfólio diversificado de funding, combinando recursos controlados e livres de acordo com a necessidade de cada cliente, complementou o superintendente de Agronegócio do Sicredi, Vitor Moraes.

"Quando a gente considera todas as fontes disponíveis, não vê um impacto relevante para atender o custeio dos nossos produtores", afirmou o executivo.

“Mesmo eventualmente tendo um menor valor, não é um valor que vai ser relevante, nem vai nos prejudicar para atender, do ponto de vista de custeio, os nossos produtores.”.

Linhas em dólar novamente em destaque

Além dos recursos equalizados, Moraes destaca o avanço de linhas dolarizadas, além de operações com CPR e recursos oriundos de fundos constitucionais e do BNDES.

As operações em moeda estrangeira, em especial, aparecem mais uma vez como uma das apostas da instituição neste ciclo produtivo para ampliar a oferta de crédito aos produtos rurais.

O volume previsto a ser ofertado – R$ 9,1 bilhões – representa um crescimento de cerca de 57% em relação à safra anterior.

A linha dolarizada, voltada a produtores rurais que têm receitas na moeda americana, já vinha ganhando força nos negócios do Sicredi nos últimos anos, tendo passando de R$ 4 bilhões na safra 2024/2025 para R$ 5,8 bilhões na safra 2025/2026, avanço de 45%. Hoje a carteira de crédito dolarizado soma R$ 10 bilhões, segundo a cooperativa.

“É uma linha que vem ao encontro da necessidade do produtor de custos mais baixos sem deixar de financiar sua atividade”, avalia Vitor Morais.

O custo do capital dessa modalidade é mais vantajoso em tempos de taxa Selic a 14,25% ao ano e sem sinais de rápida desaceleração no curto prazo. Segundo Moraes, os juros da linha dolarizada correspondem a 70% da Selic.

O executivo ressalta, porém, que esse tipo de financiamento exige cautela, por estar atrelado ao câmbio, variável que oscila bastante ao longo do ano.

Para isso, o Sicredi busca compatibilizar os vencimentos das operações com o momento em que o produtor receberá suas receitas, reduzindo a exposição às oscilações cambiais, segundo Vitor Moraes.

"Mesmo tendo receita em dólar, se tiver uma diferença muito grande de tempo, a variação cambial pode destruir todo aquele ganho que a gente proporcionou na taxa de juros", afirmou.

Inadimplência e cautela

Como era de se esperar, um ponto de atenção é a crescente inadimplência entre os produtores, que não dá sinais de arrefecimento no curto prazo.

Levantamento recente do Banco Central indica que a inadimplência do crédito rural para pessoas físicas no sistema financeiro como um todo atingiu 7,6% em maio, cinco vezes mais do que os 1,6% registrados no mesmo mês do ano passado.

Vitor Moraes reconheceu que os índices cresceram nos últimos anos, acompanhando o movimento observado em todo o sistema financeiro, mas afirma que os números de inadimplência do Sicredi permanecem significativamente abaixo da média do mercado – ainda que não tenha revelado o número exato.

"Quando o produtor precisa de equilíbrio de fluxo de caixa, a gente procura construir alternativas para que ele consiga recuperar sua capacidade de pagamento e continuar investindo", disse.

O cenário macroeconômico mais desafiador vem levando também o Sicredi (e também os produtores rurais) a adotar uma postura mais criteriosa na concessão de crédito.

Tanto Freitas quanto Moraes afirmaram que o foco da instituição permanece no crescimento da carteira, mas sem abrir mão da qualidade das operações.

“A cautela está dos dois lados. Tanto por parte do produtor, quanto por parte das instituições financeiras, que, naturalmente, colocam outras análises variáveis para tornar isso e essa escolha com mais qualidade. Nosso crescimento está pautado por crescer, sim, mas com qualidade.

Para o produtor que pretende tomar crédito, não basta apenas apresentar garantia, disse Gustavo Freitas.

“Se você tem um produtor alavancado e que tem terras próprias todas dadas em garantia, eu vou ter que dizer: “Com sua capacidade de pagamento eu não consigo te atender independente da garantia, garantia não paga conta, você precisa ter capacidade de pagar””, diz. “Ter garantia é o ideal, mas não é zero ou um. Posso fazer um crédito clean”, emendou.

É nesse sentido que a cooperativa tem reforçado sua atuação consultiva, emenda o executivo, analisando de forma individual a situação financeira de cada produtor.

"Em muitos casos, talvez seja o momento de dizer: ‘Olha, talvez seja melhor frear um pouquinho, reduzir investimentos ou buscar alternativas mais adequadas ao planejamento financeiro", concluiu Gustavo Freitas.

Seguro rural e consórcio

Além de detalhar a estratégia para o crédito rural, os executivos do Sicredi também apresentaram os números da operação de seguro rural da instituição.

Em 2025, o Sicredi contabilizou a contratação de 113 mil apólices de seguro agrícola e rural, garantindo proteção a lavouras avaliadas em R$ 2,4 bilhões, além de R$ 58 bilhões segurados em benfeitorias e máquinas.

Ao todo, 479 mil hectares foram segurados na temporada e, para a safra 2026/2027, a expectativa do Sicredi é ampliar essa área em 10%, o que alcançaria, se confirmado o número, aproximadamente 527 mil hectares.

Para os executivos da instituição, há uma crescente preocupação de produtores com eventos climáticos atípicos, ampliando o interesse dos produtores pelo seguro rural inclusive em regiões do Brasil que não costumam demandar tanto a contratação de apólices.

“De São Paulo, para baixo, já faz parte inclusive do bloco que o produtor inclui na sua conta. Do Centro-Oeste para cima, isso existia menos”, diz Gustavo Freitas.

O diretor executivo de crédito e segmentos do Sicredi, no entanto, ressaltou que o mesmo produto não pode ser oferecido para diferentes produtores do Brasil.

“Precisamos de produtos que também “parem de pé”. Não adianta pegar um produto para a geada no Oeste do Paraná e achar que essa cobertura serve para o Norte do Mato Grosso ou para o Sul do Pará”, brincou.

Ainda que acredite que reformas estruturais não devem acontecer ao longo deste ano em função do ano eleitoral, que desmobiliza equipes dentro do governo que poderiam tratar do tema, Freitas ainda espera que o governo anuncie alguma medida complementar ao longo da safra.

O seguro rural ficou de fora do anúncio oficial do Plano Safra, o que gerou críticas de vários produtores e especialistas. "Não vejo nada estruturante, mas tenho uma expectativa de que ainda saia algo", afirmou Freitas.

Além do seguro rural, o Sicredi destacou também a expansão do volume de consórcios para máquinas agrícolas e equipamentos, indo desde veículos pesados como tratores e colheitadeiras até drones.

No ano passado, a cooperativa relatou ter vendido R$ 3,2 bilhões em consórcio e tem como meta, até o fim de 2027, superar a faixa de R$ 20 bilhões na carteira desse tipo de produto.

Gustavo Freitas, diretor de crédito da cooperativa, defendeu que o consórcio seja visto pelo produtor como uma opção de longo prazo.

“Para o produtor que não precisa trocar a máquina agora, que está planejando para daqui a dois, três, quatro anos, para o planejamento financeiro dele, para a educação financeira dele, é um produto sensacional. O problema é quando você precisa trocar um pneu agora. Aí um consórcio não resolve”, disse.

Resumo

  • Sicredi prevê liberar R$ 72,1 bilhões ao agro na safra 2026/27, alta de 4,4%, em cerca de 340 mil operações
  • Cooperativa amplia aposta em crédito dolarizado, que deve crescer 57%, mas reforça cautela com o risco cambial
  • Instituição acompanha alta da inadimplência e vê mais cautela no mercado para novas operações