O apetite do investidor estrangeiro pelo agro brasileiro ainda é pequeno e, apesar de um interesse estrutural pelo setor, ele não tem pressa para apostar nas empresas do setor.
Essa é a principal conclusão de um relatório publicado nesta terça-feira, 23 de junho, pelo Itaú BBA, trazendo a análise do clima percebido pelos profissionais do banco em um road-show realizado nos Estados Unidos.
O objetivo da instituição com os encontros realizados nos EUA era justamente sondar o interesse de investidores em relação aos setores de Agribusiness e Food & Beverage brasileiros.
Segundo o relatório, a percepção preponderante obtida foi a de que eles "continuam a enxergar o Brasil como altamente relevante dentro da dinâmica global de oferta e demanda nas commodities agrícolas e proteínas, reforçando uma perspectiva estruturalmente positiva de crescimento de longo prazo, apesar do momento de curto prazo mais fraco".
Na prática, isso significa que as companhias sob cobertura do banco seguem bem posicionadas para atrair capital, mas apenas quando o ciclo se tornar mais construtivo. Por enquanto, destaca o texto assinado pelos analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama, "o buy-side continua seletivo quanto aos pontos de entrada, mostrando urgência limitada para aumentar exposição nos níveis atuais de valuation".
O relatório indica que os investidores estão esperando por "maior visibilidade sobre um ciclo de melhora", especialmente porque o momento de curto prazo segue desafiador, tanto no agro quanto em proteínas e consumo.
No setor de proteínas, as discussões ficaram ancoradas no momento cíclico fraco e na disciplina de balanço das companhias. O grande tema, de acordo com os analistas, foi o timing de uma recuperação que possa sustentar os lucros e permitir a desalavancagem orgânica dos grupos.
Nesse cenário, a JBS foi o nome mais comentado, impulsionada pelo valuation atrativo e por potenciais catalisadores de reclassificação, incluindo a inclusão em índices como o Russell e o S&P 500, e as iniciativas para destravar valor, como a redução da alavancagem.
O relatório destaca que, "apesar do amplo acordo de que a JBS negocia a valuations atrativos, os investidores continuam focados no timing de uma recuperação da carne bovina nos EUA, com urgência limitada para adicionar exposição antes que sinais mais claros de melhora cíclica apareçam".
O documento ressalta ainda que a recente listagem da empresa nos EUA aumentou a disposição dos investidores em revisitar o case, com discussões concentradas nos padrões mais elevados de governança e nas implicações de uma supervisão mais rigorosa da SEC.
A Ambev e as canetas emagrecedoras
No setor de bebidas e consumo, as conversas giraram em torno dos ventos contrários estruturais ligados ao impacto das canetas emagrecedoras nos padrões de consumo. Maior companhia do segmento, a Ambev liderou o debate, com o mercado reconhecendo a sólida execução da companhia na otimização do portfólio em um ambiente adverso.
No entanto, segundo os analistas, "esse momentum operacional mais forte contrasta com um cenário de demanda mais incerto, impulsionado por mudanças estruturais, como as gerações mais jovens bebendo menos, ao lado da pressão incremental da dinâmica dos GLP, o que pode restringir ainda mais o crescimento do setor ao longo do tempo".
Com isso, o valor de mercado continua sendo, para os investidores, um fator limitante, mesmo considerando o custo de capital mais baixo para estrangeiros.
A variável El Niño
Para as empresas com mais foco na produção agropecuária, a visão de curto prazo é ainda mais complexa. O relatório aponta margens comprimidas dos produtores, pressionadas por um cenário inflacionário de custos e juros elevados que afetam os players mais alavancados. As discussões também abordaram os potenciais impactos do El Niño no risco à produção nas fazendas e na volatilidade dos preços das commodities.
Apesar do momento adverso, o banco aponta que a SLC Agrícola é vista como estruturalmente bem posicionada, oferecendo exposição a uma potencial recuperação cíclica e continuando a ser percebida como uma alternativa de longo prazo, com criação consistente de valor.
Já a 3tentos foi destacada como uma outperformer (com desempenho acima da média de mercado), apoiada por seu modelo de negócios diversificado, que reduz a dependência dos ciclos de preços de commodities.
O relatório faz uma observação particularmente interessante sobre a companhia gaúcha: "Vários investidores não conheciam o case da 3tentos, mas reagiram positivamente à tese de investimento quando apresentada, sugerindo espaço para maior reconhecimento de mercado à medida que a companhia continua a escalar".
No setor de Açúcar e Etanol, os preços das commodities seguem pressionados, e as discussões se concentraram no potencial de o El Niño reverter essa trajetória, ao afetar a produção em mercados asiáticos-chave.
O relatório pontua que, embora nem sempre se materializem, eventos climáticos decorrentes do El Niño podem sustentar os preços globais do açúcar e beneficiar os players brasileiros, particularmente se as operações locais permanecerem relativamente incólumes.
Do ponto de vista estrutural, a rápida expansão da capacidade do etanol de milho continua sendo um ponto de atenção, "destacando a necessidade de a indústria canavieira reinvestir e impulsionar ganhos de produtividade, ao lado de riscos emergentes para os players de etanol de milho, incluindo potenciais restrições regulatórias em torno da origem da biomassa".
Resumo
- Em road-show nos EUA, Itaú BBA identificou interesse estrutural pelo agro brasileiro, mas investidores aguardam sinais mais claros de recuperação
- JBS foi o case mais debatido, com foco em valuation atrativo, desalavancagem e potencial inclusão em índices dos EUA
- SLC Agrícola e 3tentos foram vistas positivamente; já açúcar, etanol e proteínas seguem pressionados por desafios cíclicos