Como era esperado, as importações brasileiras de fertilizantes perderam ritmo no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, o Brasil importou 8,6% menos das principais matérias-primas utilizadas na produção de fertilizantes em relação ao mesmo período do ano passado, segundo levantamento da StoneX.
A retração foi puxada principalmente pela ureia, cujos desembarques caíram 32% na comparação anual. O MAP recuou 24%, o nitrato de amônio teve queda de 42% e as importações de enxofre (insumo essencial para a produção de fertilizantes fosfatados) encolheram praticamente 42%.
Na direção oposta, apenas alguns produtos escaparam da tendência: as compras de cloreto de potássio avançaram diante de relações de troca mais favoráveis, enquanto o TSP ganhou espaço como alternativa diante da oferta mais restrita de MAP e DAP no mercado internacional.
Os números, contudo, escondem histórias distintas. Enquanto parte dos produtores que adiaram as compras de ureia acabou recompensada pela recente queda dos preços, quem fez o mesmo movimento nos fosfatados agora enfrenta um mercado ainda apertado, com custos elevados e uma janela cada vez menor para garantir o abastecimento da safra de verão 2027.
"O semestre foi de bastante turbulência para os nitrogenados. Os preços aumentaram de forma muito acelerada já no fim de fevereiro e, durante boa parte dos últimos seis meses, a ureia trabalhou em níveis relativamente elevados. Os compradores optaram por uma postura defensiva, postergaram negociações e deram prioridade apenas ao mais imediato", afirmou Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, em entrevista ao AgFeed.
O cenário de fundo é conhecido, com as tensões no Oriente Médio pressionando o mercado global de fertilizantes ao longo dos últimos meses, elevando principalmente os preços de ureia com as restrições logísticas causadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz - que ainda levou a uma disparada do preço do petróleo e do gás natural.
Em abril, a ureia chegou a ser negociada próxima de US$ 800 por tonelada no Brasil, praticamente o dobro do patamar observado no fim de 2025. O movimento, porém, perdeu força antes mesmo da trégua entre Irã e Estados Unidos, e com a demanda enfraquecida e relações de troca entre as piores dos últimos anos, as cotações voltaram para níveis próximos aos registrados antes do conflito.
"Quem esperou foi recompensado por cotações muito mais atrativas agora no início de julho. Isso não significa que os desafios acabaram. As importações de nitrogenados ainda estão abaixo do ano passado e terão de acelerar daqui para frente para recompor os estoques", disse Pernías.
Segundo o analista, esse movimento deve ocorrer naturalmente ao longo do segundo semestre. Ele relembra que, historicamente, as compras brasileiras de nitrogenados ganham força entre junho e dezembro, quando importadores reforçam os estoques para atender principalmente a safrinha de milho.
Nos fosfatados, porém, o cenário é outro. Mesmo com a demanda também mais fraca, os preços permanecem elevados porque a oferta continua limitada.
Antes mesmo do conflito, relembrou Pernías, o mercado já não era dos melhores - situação agravada pela disparada do enxofre, matéria-prima essencial para a produção desses fertilizantes, e pelas restrições às exportações chinesas.
"O mercado de fosfatados já era estruturalmente apertado antes da guerra. Agora ele continua com preços elevados porque existe uma oferta muito restrita. A demanda enfraqueceu, mas isso não foi suficiente para derrubar as cotações", prosseguiu o analista da StoneX.
A alta do enxofre ilustra esse desequilíbrio: o insumo, que no fim de 2025 era negociado abaixo de US$ 600 por tonelada no País, chegou a superar US$ 1,2 mil durante a crise no Oriente Médio, comprimindo as margens das fabricantes de fosfatados.
A Mosaic, por exemplo, interrompeu sua produção de fosfatados no Brasil citando uma inviabilidade econômica de comprar a matéria-prima, que chegou a ficar mais cara que o fertilizante em si.
Diante dessa dificuldade, o Governo Federal instalou uma espécie de "gabinete de crise" ou "sala de situação" para discutir medidas que possam evitar uma eventual falta de fertilizantes para a safra 2026/2027, como subsídios, como noticiou o AgFeed há algumas semanas.
"O preço do enxofre que estava em US$ 100 (antes da guerra) chega a ser oferecido hoje a US$ 1,2 mil para indústria brasileira", disse uma fonte do setor, ilustrando o drama.
Um dos pleitos apresentados pela indústria à Casa Civil é que seja criado algum mecanismo que subsidie as fabricantes locais que compram o enxofre para fazer fertilizante fosfatado, evitando assim, o fechamento de mais unidades.
Olhando para a safra 2026/2027, o Itaú BBA pontuou, em relatório sobre as perspectivas para a temporada que acabou de começar, que a trégua no Oriente Médio reduziu parte do risco logístico no curto prazo, mas ainda não alterou a vulnerabilidade estrutural do mercado global de fertilizantes, muito dependente de poucos polos exportadores e do fluxo pelo Estreito de Ormuz.
Para os nitrogenados, a expectativa do banco é de uma recuperação das importações brasileiras ao longo do segundo semestre, favorecida pela queda da ureia e pela melhora das relações de troca. O Itaú BBA ressalta, porém, que esse movimento ocorreu principalmente porque o fertilizante ficou mais barato, e não por uma valorização das commodities agrícolas.
Nos fosfatados, a avaliação é mais cautelosa. A combinação entre oferta restrita de enxofre, menor participação da China nas exportações e preços ainda elevados do MAP deve manter o mercado pressionado por mais tempo, reduzindo a flexibilidade de oferta justamente às vésperas do plantio da safra de verão.
Essa diferença já aparece nas compras brasileiras, e segundo o Itaú BBA, parte dos produtores já começa a reduzir a adubação fosfatada como forma de preservar caixa, comportamento comum em períodos de custos elevados.
Para Pernías, da StoneX, o principal desafio agora é o calendário.
A maior parte das compras de fosfatados costuma ser realizada entre abril e agosto para garantir a entrega antes do plantio da soja, a partir de setembro. Com o ritmo de importações ainda abaixo do necessário, a janela para abastecimento começa a ficar mais apertada.
"Nos nitrogenados, a situação hoje é mais favorável. Nos fosfatados, o cenário continua desafiador. Para manter o mesmo nível de estoques do ano passado, os importadores brasileiros terão de acelerar as compras, mas a janela está cada vez mais curta", afirmou.
Na avaliação do analista, existe alguma expectativa de alívio caso a normalização logística no Oriente Médio aumente a oferta de enxofre nos próximos meses, mas ainda há muitas incertezas sobre a velocidade desse processo e sobre uma eventual retomada das exportações chinesas de MAP e DAP.
Sem esses fatores, a tendência é que o mercado continue operando com oferta limitada e preços elevados, aumentando as chances de produtores reduzirem a aplicação de fósforo na safra 2026/27, o que deve prejudicar a segunda safra, que já deve sofrer com possíveis atrasos na soja causados pelos efeitos climáticos do El Niño que se desenha no horizonte.
Resumo
- Importações de fertilizantes caíram 8,6% no semestre, com forte recuo de ureia, MAP, nitrato de amônio e enxofre
- Queda da ureia recompensou produtores que adiaram compras, mas fosfatados seguem caros por oferta global restrita
- StoneX alerta que importações de fosfatados precisam acelerar para evitar riscos de abastecimento na safra de verão