O relatório Visão Agro, produzido pelos analistas do Itaú BBA com as projeções do banco para a safra 2026/2027, tem 104 páginas. Nelas, o termo "El Niño" aparece 49 vezes - quase uma vez a cada duas páginas -, ilustrando que o fenômeno climático já se impôs como a principal variável de risco da temporada agrícola recém-iniciada.

Em um evento realizado na manhã desta quinta-feira, 2 de julho, em São Paulo, analistas do banco deixaram claro que o mercado de grãos entra no novo ciclo com um pano de fundo desconfortável: preços pressionados, margens comprimidas, crédito mais seletivo e, agora, a possibilidade de um El Niño forte afetando justamente o coração produtivo do país.

É desse ponto que sai o alerta mais sensível do relatório: se o fenômeno repetir em Mato Grosso uma quebra semelhante à vista em 2023/2024, quando também influenciou o clima no mundo, a balança global de soja pode ficar com 5 milhões de toneladas a menos, levando o superávit de anos recentes para um déficit.

"Três anos atrás, o saldo global da soja era de 15 milhões de toneladas. Agora, estamos falando de algo perto de 1 milhão de toneladas", disse Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, durante o evento. "Se algum lugar importante do Brasil der errado, isso muda o sinal do mercado".

O mundo ainda deve ter uma oferta elevada de soja em 2026/2027, mas o colchão está mais fino. Segundo o Itaú BBA, a safra global deve girar em torno de 441 milhões de toneladas, com consumo praticamente no mesmo nível. Ou seja, qualquer quebra mais relevante no Brasil, especialmente em Mato Grosso, deixa de ser um problema regional e passa a mexer na conta global.

Um corte de 5 milhões de toneladas equivale, em ordem de grandeza, a quase um Piauí inteiro de soja, levando em conta a projeção da Conab para a safra 2025/2026 da oleaginosa no estado nordestino, de 4,4 milhões de toneladas.

O cenário-base do Itaú BBA ainda é de recorde para a soja brasileira na temporada que começa agora no segundo semestre. O banco projeta uma produção de 182,4 milhões de toneladas em 2026/2027, em linha com as cerca de 180 milhões de toneladas da temporada anterior. O recorde ainda parte de uma expansão quase simbólica de área e depende mais do clima do que em outros anos.

A área de soja deve crescer apenas 0,5%, para algo próximo de 49 milhões de hectares. "Esse percentual, nos nossos números, dá 250 mil hectares. São algumas fazendas, bem irrisório perto de 2,5 milhões de hectares que já crescemos em anos anteriores. É uma expansão já contratada, investimento que já estava feito, área que já estava preparada. Quando falamos em crescimento, é praticamente de lado", disse Queiroz, do Itaú BBA.

A questão, contudo, continua sendo sobre clima. O banco trabalha com um cenário em que o El Niño pode trazer chuvas acima da média no Sul da América do Sul, beneficiando Rio Grande do Sul, Paraguai, Uruguai e parte da Argentina, enquanto o Centro-Oeste e o Matopiba ficam mais expostos a irregularidade pluviométrica, atraso de chuvas e veranicos.

Em anos normais de El Niño, esse jogo de compensações costuma manter a produção brasileira relativamente estável no agregado. Mas a preocupação agora está justamente na possibilidade de um evento mais intenso.

"O El Niño traz vencedores e perdedores", disse Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA. "Em geral, o Sul vai melhor, mas excesso de chuva também pode virar problema. E, se Mato Grosso sofrer como em 2023, a leitura muda completamente", afirmou.

Segundo ele, a possibilidade de um El Niño forte trazendo "quebras parecidas com os anos de 2015 e 2023", pode trazer uma visão altista para os preços da soja.

"Abre potencialmente uma janela de possibilidades de ver ajustes de preços mais à frente. O El Niño, no geral, é bom para o Brasil, mas o fato de ser forte preocupa muito", disse.

Se na soja o risco climático ainda convive com a possibilidade de compensação regional e até de outros países, com boas safras nos EUA, Argentina ajudando a eternizar ainda mais uma pressão nos preços, no milho, a leitura do Itaú BBA é mais direta: o El Niño preocupa mais.

O problema não é apenas o clima para o milho em si, mas o efeito em cadeia: se a soja atrasar no Centro-Oeste por irregularidade de chuvas, o plantio da safrinha sai da janela ideal e aumenta a exposição da lavoura ao déficit hídrico no enchimento de grãos.

"Pensando em Brasil, a maior preocupação é o milho de segunda safra. Geralmente o El Niño não traz grandes prejuízos para a soja brasileira no agregado, mas para o milho safrinha sim, porque a irregularidade na soja afeta o plantio e o calendário", disse Queiroz.

O Itaú BBA projeta, contudo, uma produção brasileira de milho em 142,5 milhões de toneladas em 2026/2027, alta de 3,3% sobre 2025/2026.

Além disso, o milho chega a 2026/2027 com um fundamento mais apertado do que a soja. No mercado global, a produção deve recuar para algo próximo de 1,30 bilhão de toneladas, enquanto o consumo sobe para 1,315 bilhão. Com isso, os estoques finais devem cair para a faixa de 281 milhões a 285 milhões de toneladas, levando a relação estoque e uso para perto de 21%, um dos menores níveis dos últimos anos.

No Brasil, a demanda interna segue avançando forte, puxada principalmente pelo etanol de milho. O consumo do cereal para biocombustível deve saltar de 27,7 milhões para 37,7 milhões de toneladas em 2026/27. Com isso, sobra menos espaço para exportação, e qualquer problema produtivo tende a repercutir mais rapidamente nos preços domésticos.

"Aqui é um cenário mais construtivo sob a ótica de preços porque temos uma tendência de balanço que eventualmente pode ver um enxugamento dos estoques pelo crescimento expressivo da demanda", disse Francisco Queiroz.

Resumo

  • Itaú BBA projeta safra recorde de soja, mas avanço depende do clima em um ciclo de expansão mínima de área
  • Banco vê maior risco para o milho safrinha, já que atrasos na soja podem comprometer a janela ideal de plantio
  • Demanda crescente por etanol de milho reduz folga nos estoques e reforça potencial de alta nos preços em caso de quebra