Mesmo em um ambiente de margens pressionadas, juros elevados e maior dificuldade de financiamento para parte produtores rurais - que ainda ganharam uma guerra pelo caminho - o Itaú BBA mantém sua projeção de ampliar a carteira de crédito no agro em 10% neste ano.
O crescimento, porém, virá acompanhado de uma palavra que, segundo o banco, passou a definir o mercado de crédito agrícola e que não sai da boca de Pedro Fernandes, diretor de Agronegócios da empresa: seletividade.
Hoje, a carteira agro do Itaú BBA soma aproximadamente R$ 135 bilhões. Se a projeção for cumprida, desconsiderando os efeitos da variação cambial, como frisou o banco, o crédito para o setor pode encerrar 2026 em R$ 148 bilhões.
"Estamos iniciando mais um ano-safra e continuamos a enxergar os mesmos desafios de 25/26 agora em 26/27, com margem agrícola baixa e um cenário de juros altos. Olhando para soja e milho, com preços inflexionados, boa parte do resultado operacional tem sido consumida pelo serviço da dívida", disse Fernandes, durante evento promovido pelo Itaú BBA nesta quinta-feira, 2 de julho, em São Paulo.
"Continuamos acreditando no setor no longo prazo, mas no curto prazo existem os desafios da financiabilidade. É natural que seletividade tem sido uma palavra cada vez mais utilizada, e será tendência no financiamento da safra 26/27", continuou.
Segundo Fernandes, isso não significa que o banco passou a privilegiar uma cultura em detrimento de outra. Embora cite café e pecuária como exceções por ainda apresentarem boa rentabilidade (ainda que com desafios específicos), o executivo afirma que o principal filtro passou a ser a qualidade da gestão dentro da porteira.
"Eu acho que esse grau de exigência, por parte do agricultor, mudou. E é uma barra que vem subindo ao longo dos anos, notadamente na parte de gestão de risco".
Ele acredita que o agricultor precisa ter um controle muito claro sobre custos, obrigações, quando vencem contas, indexação, quando e como comercializar.
"Vimos gente liquidando, na mesma praça, soja a R$ 130 a saca e outros abaixo de R$ 100, essencialmente por gestão de risco. Isso significa que fazer gestão é quem vendeu pelo preço mais alto? Não, é o entendimento da política de comercialização, e a seletividade passa pelo produtor entender que ele é um negócio, não somente prática no campo", afirmou Fernandes.
O diretor ainda acredita que essa gestão pode passar, inclusive, por desinvestimentos. Esse processo também é muito particular, pode envolver uma redução de arrendamento, venda de área ou até mesmo reavaliar culturas, cultivares ou aluguéis de áreas de baixa produtividade.
Nesse processo, Fernandes colocou o Itaú BBA à disposição para quem precise passar por esse ciclo.
"Acompanhamos todo esse ciclo de investimento, e se houve algum endividamento alto do produtor, estamos disposto a construir pontes pra desalavancar, diminuir o risco de caixa, e em muitos casos isso passa por alongar prazos. A imagem que uso é: somos negócio de construir pontes, não de construir pier", disse.
Com isso, finalizou dizendo que a seletividade buscada pelo Itaú BBA envolve apoiar clientes que fizeram lição de casa para melhorar a saúde do negócio. "Tendo consciência e tomando decisões corretas, podem contar com o banco".
Fernandes ressaltou que essa postura não significa que o banco esteja evitando operações expostas ao clima. Segundo ele, eventos climáticos extremos passaram a fazer parte da rotina do crédito rural e já são incorporados à análise das operações.
"Montamos essa operação há 12 anos e não teve um ano em que alguma região atendida não enfrentou um evento climático. Mesmo com diversas safras recordes, isso nunca implicou em um volume menor de crédito ou em um apetite menor do banco. Sabemos lidar com quebra de safra".
O que muda, segundo o executivo, é a disposição em financiar produtores que decidam aumentar significativamente sua exposição ao risco justamente em um momento de maior incerteza.
"Não podemos ter alguém alavancado enxergando um El Niño e decidindo aumentar o risco. Nesse cenário de margens e incertezas climáticas, na nossa seletividade não apoiaríamos esse cliente", afirmou.
Apesar do ambiente mais restritivo para parte da produção agrícola, Fernandes afirma que o Itaú BBA continua enxergando que segmentos que "seguem demandando capital" devem puxar o crescimento da carteira neste e nos próximos anos.
Entre eles, o diretor destacou a expansão da capacidade de esmagamento de milho para produção de etanol, os investimentos em biodiesel e oportunidades ligadas ao financiamento da cadeia de insumos.
"Notadamente aumento de capacidade de esmagamento, de biodiesel. e de milho para produzir etanol, além de uma série de oportunidades dentro da cadeia produtiva, seja barter, seja nesse financiamento de insumos", explicou.
Atenção especial no setor sucroenergético
Se a seletividade tem guiado a concessão de crédito para boa parte do agronegócio, no setor sucroenergético a leitura do Itaú BBA é levemente diferente.
Com cerca de R$ 25 bilhões em exposição ao segmento, o açúcar e etanol representa hoje quase um quinto de toda a carteira agro da instituição. Segundo Fernandes, o banco continua vendo a indústria como uma das mais preparadas para atravessar um ciclo de preços menos favoráveis.
O executivo evitou comentar casos específicos, como o da Raízen, que recentemente aprovou seu plano de recuperação extrajudicial com os credores. Mas fez questão de separar a situação da companhia da leitura do banco para o restante do setor.
"Nossa posição em açúcar e etanol nunca considerou a Raízen. Como ela tem um negócio de distribuição maior em faturamento, sempre foi muito difícil separar quanto do financiamento estava em cada operação", explicou.
Na avaliação do diretor, a principal diferença em relação aos ciclos anteriores está na forma como as usinas aproveitaram os anos de preços elevados do açúcar para reorganizar seus balanços.
O Itaú BBA projeta, para a safra 2026/27, uma moagem de 644 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, um avanço de 6% em um ano. O mix deve ficar em pouco mais de 46% para o açúcar, com uma produção de 39,4 milhões de toneladas do adoçante fabricados, um milhão a menos que na temporada 25/26.
A safra mais alcooleira deve produzir 38,4 bilhões de litros de etanol também na mesma região, sendo 27% desse total, pouco mais de 10 bilhões de litros, vindos do milho. Para além de uma produção melhor, um certo otimismo com o setor se dá mais pelo passado do que pelo futuro.
"O setor passou por quatro anos muito positivos de geração de caixa. A grande maioria dos grupos aproveitou muito bem esse cenário. Onde antes víamos usinas entrando em momentos difíceis com alavancagem de 2,5 vezes, hoje vemos empresas entrando com 1,5 vez. Isso faz uma diferença enorme", disse o diretor de agro do Itaú BBA.
Segundo Fernandes, além da desalavancagem, as empresas também ampliaram sua participação no mercado de capitais para alongar o perfil de suas dívidas, reduzindo a pressão de curto prazo sobre o caixa.
Na prática, isso alterou até mesmo a dinâmica tradicional do setor. Em ciclos anteriores de preços deprimidos, as usinas costumavam reduzir a renovação dos canaviais para preservar liquidez, movimento que posteriormente limitava a oferta de matéria-prima e contribuía para uma recuperação dos preços.
"Desta vez estamos vendo um comportamento diferente. Pela correlação histórica, era para a renovação de canaviais ter caído, mas isso não está acontecendo. Pode haver casos específicos, mas, de forma geral, a manutenção dos investimentos continua. Isso nos leva a acreditar em uma boa safra no próximo ciclo", continuou Fernandes.
A visão é compartilhada por Mariana Zechin, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo ela, produtores e usinas aprenderam com as crises anteriores e entraram no atual ciclo com uma estrutura financeira mais robusta.
"As usinas aprenderam com as crises anteriores. Alongaram dívida, focaram em liquidez e chegaram a esse momento com um nível de preparação que não se via no histórico do setor. Existe pressão de margem, tanto para açúcar quanto para etanol, mas o fôlego financeiro hoje é muito maior", afirmou.
Na avaliação da analista, o ponto de maior atenção não está nas usinas, mas sim nos fornecedores independentes de cana, principalmente aqueles que operam áreas arrendadas. Pedro Fernandes concorda.
"O grau de preocupação é maior com os fornecedores de cana, especialmente aqueles em áreas arrendadas. Aí, sim, vemos casos de fluxo de caixa negativo e produtores que talvez não tenham conseguido fazer a lição de casa no alongamento das dívidas. Já escutamos de uma série de fornecedores passando a soqueira para as usinas por falta de condição financeira para realizar os tratos culturais", finalizou o diretor.
Resumo
- Itaú BBA prevê carteira agro de R$ 148 bi em 2026, com crédito mais seletivo diante de juros altos e margens pressionadas
- Banco aposta em etanol de milho, biodiesel e insumos para puxar demanda por crédito, mesmo em cenário mais restritivo
- Setor sucroenergético segue como destaque: usinas chegam mais desalavancadas, mas fornecedores independentes inspiram atenção