O ano de 2022 havia apenas começado quando três executivos deixaram a mesa de commodities agrícolas da trading agrícola do BTG Pactual, a Engelhart, para fundar a MerX.
A ideia? Digitalizar um mercado que, apesar de movimentar centenas de bilhões de reais todo ano, ainda era muito “analógico”: planilhas, e-mails e processos manuais para conectar produtores, cooperativas, tradings e compradores.
Quatro anos depois, a plataforma criada para organizar essas informações se transformou na base de um ecossistema muito mais amplo.
Hoje, como uma espécie de "multiagfintech", a empresa atua em software para comercialização de grãos, certificações socioambientais, crédito rural, além de uma trading própria. Só na vertical financeira, a empresa projeta se aproximar de R$ 1 bilhão em crédito concedido com uma nova geração de fundos estruturados.
Já na plataforma tecnológica, acumula mais de 82 milhões de toneladas de grãos transacionadas, uma base de mais de 200 mil produtores vinculados e mais de 2 milhões de relatórios socioambientais processados.
“Vimos que as multinacionais do ABCD já estavam numa onda mais avançada de inteligência e dados, mas faltava muita tecnologia naquelas empresas brasileiras que cresceram muito na última década”, disse Guilherme Dominici, um dos sócios-fundadores da companhia, em entrevista ao AgFeed.
A ideia então, era dar toda a base tecnológica para que cooperativas, tradings e cerealistas, principalmente de soja e milho. “A gente queria conectar desde o campo até a comercialização, passando por toda a cadeia financeira que envolve esse ecossistema", acrescentou Dominici.
O momento também ajudava. Para além das cotações elevadas de grãos, Dominici cita que essas empresas brasileiras passaram a ganhar uma parte relevante do mercado de exportação. Com isso, o primeiro produto da MerX foi uma plataforma capaz de integrar essa cadeia de comercialização.
Nela, produtores, cooperativas, cerealistas, tradings e compradores conseguem concentrar informações como contratos, preços, logística, boletagem, controle operacional e documentação, reduzindo etapas manuais que antes eram distribuídas entre diferentes sistemas.
Mas, segundo Paolo Silva, sócio responsável pela área de tecnologia, o software nunca foi o objetivo final. "A gente sempre foi uma empresa que enxergou muito valor no dado. Sendo um mercado físico, o dado é o que gera informação e é esse dado que serve de lastro para tudo o que fazemos, seja inteligência, crédito ou comercialização", afirmou.
Até hoje, a plataforma já movimentou mais de 82 milhões de toneladas de commodities agrícolas e reúne uma base superior a 200 mil produtores cadastrados. Ao longo desse processo, a empresa também gerou mais de 2 milhões de relatórios socioambientais utilizados por clientes para diferentes finalidades regulatórias. Segundo Silva, o diferencial da MerX está justamente na integração entre essas diferentes camadas.
"Você encontra empresas que fazem crédito, empresas que fazem tecnologia e empresas que fazem RenovaBio. O nosso diferencial é oferecer tudo isso de forma integrada. O cliente acessa desde precificação de grãos, boletagem, relatórios socioambientais e motor de crédito até comercialização", disse.
Foi justamente essa base de dados que abriu espaço para uma segunda vertical de negócios: o crédito. A operação começou em 2024, em parceria com a gestora Indie Capital, formada por ex-executivos do Pátria, justamente quando o mercado agrícola passou a enfrentar juros elevados e um ambiente financeiro mais restritivo.
Em vez de comprar carteiras prontas de recebíveis, modelo comum entre diversos FIDCs do setor, a MerX estruturou um modelo em que financia diretamente produtores vinculados às cooperativas, cerealistas e tradings que já utilizam sua plataforma.
"A cooperativa quer originar mais grãos e fortalecer a relação com aquele produtor, mas muitas vezes não tem DNA de crédito. É aí que a gente entra, estruturando toda a governança, documentação, análise e operação", explicou Dominici.
"A gente aqui opera muito mais como um banco, oferecendo uma linha de crédito para aquele produtor que é vinculado, que também é fornecedor daquela empresa”, prosseguiu.
Segundo ele, o primeiro fundo da empresa nasceu com R$ 100 milhões, mas já girou aproximadamente R$ 400 milhões em operações, financiando mais de 250 produtores principalmente na região do Cerrado.
Agora, a empresa prepara uma nova etapa. A MerX recém estruturou um segundo fundo em parceria com a XP, voltado ao financiamento da comercialização de grãos, e trabalha na montagem de um terceiro veículo denominado em dólar, destinado ao custeio agrícola.
Com os três fundos, a empresa deverá alcançar cerca de R$ 450 milhões sob gestão nos próximos meses. "Estamos montando uma prateleira de produtos. Cada fundo atende uma necessidade específica do mercado", afirmou.
Enquanto o primeiro fundo financia o custeio da produção, o segundo acompanha o fluxo comercial dos grãos após a colheita, oferecendo capital de curto prazo durante o transporte e negociação das cargas. Já o terceiro deverá atender produtores que buscam financiamento dolarizado.
De acordo com Dominici, considerando a velocidade de rotação desses veículos, a expectativa é que a companhia se aproxime de R$ 1 bilhão em crédito concedido nos próximos anos.
Os mesmos dados utilizados para análise de risco financeiro também deram origem a outra frente que hoje ganha importância crescente dentro da companhia: as certificações socioambientais.
Há cerca de três anos, a empresa passou a analisar por que tantas usinas deixavam de capturar receitas relevantes dentro do RenovaBio, programa federal que remunera produtores de biocombustíveis por meio da emissão dos Créditos de Descarbonização (CBIOs). A conclusão foi relativamente simples e, segundo Dominici, tudo era uma questão de falta de informação.
“A soja e o milho estavam sendo processados, mas as empresas não conseguiam organizar toda a documentação necessária para provar a origem daquela matéria-prima", afirmou Dominici.
A MerX passou então a atuar principalmente em duas frentes do programa: a cadeia de custódia - responsável pela rastreabilidade da matéria-prima desde a fazenda - e a chamada fração elegível, percentual da produção que efetivamente atende aos critérios ambientais do RenovaBio e pode gerar CBIOs.
Esse trabalho envolve rastrear propriedades rurais, verificar se houve desmatamento após dezembro de 2017, organizar documentação fiscal e consolidar todas as informações exigidas pelas certificadoras. Segundo Dominici, muitos clientes consideravam esse processo inviável.
"As usinas achavam impossível fazer esse trabalho. Quando olhamos com tecnologia, vimos que era um problema de organização de dados”, afirmou. Hoje, a empresa estima participar de projetos que envolvem aproximadamente dez empresas responsáveis por algo entre 30% e 40% do biodiesel produzido no Brasil, atendendo clientes como Be8. Mais recentemente, também passou a atuar junto às usinas de etanol de milho, onde tem a Inpasa como cliente.
Dominici ainda cita como clientes a Fazendão, tradings da ABCD (principalmente nas verticais de certificação e na criação de plataforma), e as “principais cooperativas do Paraná”. “80% do número de clientes são as grandes companhias e cooperativas brasileiras”, disse.
Um dos casos mais recentes na vertical de certificação foi desenvolvido para a Usimat, empresa do Grupo Sipal, conglomerado com receitas anuais acima de R$ 15 bilhões e que construiu a primeira usina flex do Brasil na produção de etanol de cana e milho.
O projeto envolveu mais de 190 produtores rurais, 478 propriedades monitoradas e aproximadamente 500 mil hectares rastreados e elevou a fração elegível da usina de 68,9% para 95,6%. Segundo a MerX, este avanço poderá representar potencial adicional de aproximadamente R$ 15 milhões por ano em geração de CBIOs.
A empresa afirma também ter casos em que conseguiu elevar a fração elegível de usinas de biodiesel de 14% para mais de 80%, envolvendo dezenas de milhares de produtores.
Enquanto isso, uma quarta vertical também cresce dentro da companhia. Sob a marca Sigma, liderada pelo sócio Gustavo Vazquez, a MerX passou a atuar diretamente na comercialização internacional de commodities.
A operação utiliza toda a infraestrutura de dados construída pela empresa para conectar compradores e vendedores que demandam características específicas de rastreabilidade ou certificação.
Segundo Dominici, o primeiro navio completo foi embarcado no ano passado, movimentando operações da ordem de US$ 30 milhões por carga. "A gente tem feito isso com bastante cuidado, dentro das possibilidades da companhia, mas já realizamos o primeiro navio completo e temos novos embarques previstos”, disse.
Embora a receita da trading represente hoje a maior parcela do faturamento consolidado da empresa - por envolver compra e venda direta de commodities -, Dominici afirma que o crescimento mais acelerado está nas verticais de serviços.
Segundo ele, as áreas de tecnologia, certificações e soluções digitais cresceram cerca de 150% entre o primeiro semestre de 2025 e o primeiro semestre deste ano, enquanto o faturamento consolidado da companhia multiplicou-se por 2,5 vezes no período.
Para os fundadores, porém, todas essas frentes continuam sendo parte da mesma estratégia: "o dado que usamos para aprovar um crédito é o mesmo que pode gerar um relatório socioambiental, atender uma exigência do RenovaBio, preparar um cliente para o EUDR europeu ou apoiar uma operação de comercialização", afirmou Paolo Silva.
"Nosso trabalho é transformar esses dados em informação e, a partir dela, criar diferentes linhas de negócio para os nossos clientes”, acrescentou.
Resumo
- MerX reúne tecnologia, crédito, certificações e trading, criando um ecossistema digital para a cadeia de grãos
- Enquanto plataforma já movimentou 82 milhões de toneladas, vertical de crédito mira R$ 1 bilhão com ajuda de novos fundos estruturados
- Base de dados conecta comercialização, crédito, RenovaBio e rastreabilidade para cooperativas, tradings e usinas