Na missão de escalar globalmente sua tecnologia de análises de solo em tempo real - e com o Brasil no centro dessa estratégia -, a startup alemã Stenon acabou de captar 18 milhões de euros (cerca de R$ 106 milhões pela cotação atual) em uma rodada do tipo Série B.
Por aqui, segundo revelou o CEO e fundador da empresa, Niels Grabbert, a ideia é ampliar a equipe local, acelerar o desenvolvimento de novos produtos e expandir o uso de sua tecnologia especialmente para o manejo de nitrogênio, insumo que ele considera um dos mais caros e estratégicos da agricultura moderna.
A Stenon iniciou sua operação brasileira há cerca de três anos, quando desembarcou no País por meio de uma parceria com a Lavoro. Desde então, vem utilizando o País como uma das principais vitrines para sua tecnologia.
Em setembro do ano passado, o AgFeed mostrou que a empresa havia dobrado sua receita local entre 2023 e 2025, e segundo o CEO, globalmente, já foram 7 milhões de acres analisados, cerca de 2,8 milhões de hectares.
"No Brasil, as principais culturas que atuamos nos últimos anos foram, principalmente, milho, algodão, cana-de-açúcar, feijão e café. Como não somos tão grandes quanto as maiores revendas de insumos, atendemos propriedades de médio e grande porte, e por isso buscamos mais parceiros em campo", disse, em entrevista ao AgFeed.
"Esses parceiros vão nos ajudar a prestar um bom atendimento a propriedades menores e de porte intermediário, porque isso exige muito mais alcance, mais trabalho e mais pessoas, e é algo que certamente queremos desenvolver no futuro", prosseguiu o CEO alemão.
O produto da empresa é o FarmLab, um equipamento de análise química de solo em tempo real, que utiliza inteligência artificial e um software intuitivo.
Embora o equipamento portátil seja o elemento mais visível da operação, Grabbert cita que a Stenon quer se posicionar como uma fornecedora de inteligência agronômica.
O modelo de negócios hoje combina três frentes. Primeiro, a venda dos equipamentos de medição acompanhados da plataforma de software. Segundo, a prestação de serviços de medição diretamente nas propriedades rurais, permitindo que clientes utilizem a tecnologia sem necessariamente adquirir os dispositivos.
Por fim, existe uma espécie de consultoria voltada ao manejo de nitrogênio, com a startup ajudando a interpretar dados coletados e na construção de estratégias de fertilização mais eficientes.
Além das medições pontuais, a plataforma também monitora o carbono orgânico do solo (SOC), indicador que a empresa cita que vem ganhando relevância tanto por sua relação com produtividade quanto pelas discussões envolvendo agricultura regenerativa e mercados de carbono.
O nitrogênio ganha destaque nessa rodada pelo timing. Nos últimos anos, a volatilidade do mercado global de fertilizantes somada a dependência nacional por esses insumos que vem de fora, mexeu com os produtores.
A guerra entre Rússia e Ucrânia já havia provocado uma reconfiguração importante das cadeias globais de nutrientes, e neste ano as tensões no Oriente Médio e o conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos reacenderam preocupações sobre oferta, logística e custos de matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes, especialmente nitrogenados.
O que se vê por aqui é uma perspectiva de uma próxima safra com menos importação dos produtos, seja pelo preço ou pela própria disponibilidade.
Nesse ambiente, a proposta da Stenon é simples: se o produtor não controla o preço internacional do fertilizante, pode ao menos controlar, com muito mais precisão, onde, quando e quanto aplicar, explicou Niels Grabbert.
"Tomar decisões melhores sobre cada quilograma de nitrogênio ficou muito mais importante. Esse é um desafio não apenas no Brasil, mas praticamente no mundo inteiro", afirmou Grabbert.
Segundo a empresa, projetos conduzidos em diferentes países já mostraram economias entre 20% e 40% no consumo de fertilizantes nitrogenados, além de ganhos de produtividade que variam entre 2% e 8%, dependendo da cultura e das condições de cultivo.
O Brasil aparece como um dos mercados prioritários justamente por reunir dois fatores considerados estratégicos pela companhia: grande consumo de fertilizantes e elevada dependência de importações.
"A ideia é expandir nossa atuação para muito mais hectares no Brasil e permitir que produtores tomem decisões de fertilização baseadas em dados coletados diretamente no campo", disse o executivo.
Embora a companhia não detalhe metas de crescimento, Grabbert afirma que a intenção é aumentar significativamente a presença nacional nos próximos anos. "Gostaríamos de ampliar muito nossa atuação no Brasil. Vemos um enorme potencial para apoiar uma agricultura mais eficiente no uso de fertilizantes", afirmou.
Os recursos captados também financiarão o desenvolvimento da próxima geração da plataforma tecnológica da startup. Ainda mantido em sigilo, o novo sistema promete integrar sensores, inteligência artificial e análise de dados em uma arquitetura mais fácil de escalar e incorporar às operações agrícolas.
"O próximo produto será baseado em uma nova plataforma de hardware. Trabalhamos nisso desde que fundei a empresa e acredito que vai mudar bastante a forma como as medições são realizadas", disse Grabbert.
A rodada foi liderada pela gestora holandesa Pymwymic e contou ainda com a entrada do fundo alemão DeepTech & Climate Fund (DTCF), além da participação de investidores que já apoiavam a companhia, como a TIME Ventures, veículo de investimentos do fundador da Salesforce, Marc Benioff.
Apesar do perfil predominantemente europeu da base acionária, o executivo afirma que a empresa não descarta buscar investidores brasileiros à medida que a operação local ganhe escala.
"Temos muito interesse em construir oportunidades locais no futuro e certamente estaremos abertos a conversar com investidores brasileiros", afirmou.
A última captação havia sido em 2021, quando levantou US$ 20 milhões com o Founders Fund, a The Production Board, de David Friedberg, além de fundos como Cherry Ventures e Atlantic Labs.
Resumo
- Startup alemã levantou 18 milhões de euros (cerca de R$ 106 milhões) em rodada Série B para acelerar sua expansão global
- Brasil é um dos mercados prioritários da empresa, que pretende ampliar equipe, parcerias e a adoção de sua tecnologia em culturas como milho, cana, algodão, café e feijão
- Stenon aposta em análises de solo em tempo real para reduzir o uso de fertilizantes, aumentar a eficiência da adubação e apoiar decisões agronômicas baseadas em dados