Ao chegar em Sapezal, Mato Grosso, a 500 km de Cuiabá, o AgFeed ouviu mais de uma vez a mesma piada sobre a característica da região: “Aqui é agricultura familiar, são três famílias que plantam aqui: Maggi (Amaggi), Scheffer e Bom Futuro (de Eraí Maggi)”.

A brincadeira é por que estes grupos fizeram parte do desbravamento da região na década de 1980 e, atualmente, plantam áreas que ultrapassam 100 mil hectares (cada um) em Sapezal.

Um dos destaques da região é o Grupo Scheffer. Até poucos anos atrás, o patriarca Eliseu Maggi Scheffer morava em Sapezal – ele é irmão de Eraí Maggi Scheffer (considerado o maior produtor agrícola global, no comando do Grupo Bom Futuro) e primo de Blairo Maggi (um dos herdeiros de outro gigante, o grupo Amaggi), mas os negócios de cada um sempre foram tocados de forma independente.

Na visita recente à Sapezal, o AgFeed presenciou o clima otimista que está predominando entre os produtores de algodão da região. As chuvas vieram em volume até melhor do que o esperado e a expectativa é de uma safra recorde da pluma.

“A perspectiva é muito boa, este ano está muito bom pro algodão, que está bem sadio. Choveu em maio e essa chuva define muito bem a cultura do algodão”, disse animado, o gerente regional da Scheffer, Paulo Fetsch, em entrevista ao AgFeed.

Ele foi um dos convidados em evento promovido pela multinacional FMC para mostrar tecnologias no campo, em visita a fazendas de Sapezal – uma das áreas visitadas era da própria Scheffer.

A expectativa de produtividade média na safra que está no campo e começa a ser colhida em julho, segundo o gerente, é de 350 arrobas por hectare nas fazendas que o grupo possui no município. Trata-se de um crescimento de 17% em relação à média alcançada pelo município no ano passado, quando choveu mais do que o necessário, afetando a qualidade.

Ele ressalta que a região é campeã de produtividade para a empresa, com índices mais elevados do que outros polos onde atua, como Juara (MT) e região da BR 163.  “Só perde para a Bahia, onde é algodão irrigado, com pivô”.

Lucas Beltramin, gerente de companhias agrícolas da FMC, atende exclusivamente clientes como Scheffer, Amaggi e Bom futuro. Segundo ele, todos vêm se mostrando satisfeitos com a evolução das plantações de algodão.

“Na região de Sapezal a gente está vendo um excelente desenvolvimento da cultura, esse ano está melhor que o ano passado, que á tinha sido uma excelente safra, então acredito em uma safra recorde em 2026”, afirmou.

A expectativa de safra recorde se estende ao estado de Mato Grosso como um todo. Segundo Márcio Souza, do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt), a produtividade média do ano passado foi de 315 arrobas por hectare e, para atual safra, já é possível estimar 320 arrobas. A média histórica estaria em torno de 305 arrobas por hectare.

O destaque, segundo ele, é a região Noroeste, que inclui Sapezal e Campo Novo do Parecis, representando quase 50% da área de Mato Grosso.

“Sapezal tem um clima muito abençoado, a condição de produção aqui, a altitude é muito boa, as chuvas são adequadas. É lógico que ainda é cedo, tem tudo para ser uma safra recorde em Sapezal, acima de 350, 360 arrobas. Algumas situações de produtores muito próximo a 400 arrobas por hectare”, disse Souza.

Ele destaca também o fato de os produtores da região plantarem com padrão de solo totalmente corrigido, em áreas antigas, e acertando na escolha das cultivares.  “É todo o manejo, que não é só o clima, o manejo geral faz com que tenham essa excelente produção”.

Na visão dele, além dos três grandes grupos “familiares”, há pequenos e médios produtores também alcançam excelente produtividade por ser uma região que usa muita tecnologia.

Expansão de área plantada

Em todo o País, a Scheffer planta mais de 230 mil hectares, considerando as duas safras anuais. São 5 unidades em Mato Grosso, uma no Maranhão e um projeto na Colômbia.

“O algodão é a nossa principal cultura, a gente hoje tem 81 mil hectares plantados. Desses, 60 mil estão aqui em Sapezal. A projeção para o ano que vem é plantar 90 mil hectares. E a gente vai manter a nossa maior projeção aqui em Sapezal devido às áreas que são consolidadas aqui”, explicou Fetsch.

A Scheffer diz já ter comprado praticamente todos os insumos necessários para a safra 2026/2027. As áreas próprias representam 33% da Scheffer, o restante é arrendado, uma estratégia que o grupo adotou desde o começo.

O gerente de Mato Grosso admite que as margens estão mais apertadas, em função dos custos elevados, mas ainda assim garante que não há planos de reduzir adubação, por exemplo.

“Todo dia você tem que fazer conta, não está sobrando muito dinheiro, as margens realmente são apertadas, mas a gente é bem sólido nesta parte. A gente investe para colher, porque, no final, o que paga a conta é a produção”, afirmou.

A guerra do Irã trouxe aumento no custo de fertilizantes e defensivos. Em contrapartida, no algodão, houve valorização dos preços, em função do encarecimento dos concorrentes da pluma, que são os fios sintéticos, dependentes do petróleo.

“O ruim nem sempre é tão ruim e o bom nem sempre é tão bom. Então na média não vai ficar tão ruim”, disse Paulo Fetsch, comentado o custo mais alto acompanhado do algodão mais valorizado.

Por esse motivo, a decisão de ampliar área plantada de algodão dificilmente será revertida. Em Mato Grosso, o algodão é plantado como segunda safra, após a colheita da soja, na mesma área.

“Se for para sacrificar (reduzir produção), como nós estamos sólidos no algodão, a gente prefere sacrificar a soja, plantar a precoce, colher um pouco menos, mas plantar o algodão dentro de uma janela ideal”, pontuou o gerente da Scheffer.

A empresa conta com beneficiadora própria e, como a maioria dos grandes no setor, já faz negócios antecipados na exportação, o que torna o algodão prioritário.

“É o conjunto, fibra, caroço, a gente tem todas as indústrias. Então você consegue armazenar, agregar valor e trabalhar conforme o mercado”.

Pioneiros na mesma tendência

Um dos pioneiros em Sapezal foi o gaúcho Inácio Webler, hoje com 82 anos, mas que ainda acompanha presencialmente os dias de campo na lavoura.

Ele chegou na região em 1981, quando lá “só tinha gafanhoto e abelha”, brincou, na conversa com o AgFeed.  No começo comprou 3 mil hectares e por 12 anos ainda deixou a família no Paraná, até que a cidade tivesse mais condições de acolher a todos.

Webler conta que serviu de avalista quando Eliseu Scheffer arrendou terras do tio – André Maggi, fundador da Amaggi, já falecido.

“Eliseu começou realmente aqui do zero, pensavam que ele não ia pagar o arrendamento, mas ele trabalhou muito e honrou”, lembra o sr. Inácio. “Ele sempre produziu e plantou bem, trabalhou muito”.

Atualmente, o grupo Webler planta em 25 mil hectares de área própria e tem mais 10 mil hectares arrendados.

“Na produtividade de algodão, nós estamos entre os melhores. Teve algumas áreas de 500 arrobas e a média chegou em quase 400”, disse ele sobre a última safra.

Na colheita que começa no próximo mês, o grupo Webler já cogita uma produtividade média acima de 400 arrobas por hectare, 10% maior que a média da região.

Como aumentou 3 mil hectares no último ciclo, ele diz que agora talvez não faça nova expansão, em função do período de margens mais apertadas.

Outro grupo pioneiro, o Três Coqueiros, liderado por Mauro Fernando Schaedler e a esposa Ieda Webler Schaedler (filha do sr. Inácio), também vem crescendo ano a ano, em Sapezal.

O grupo planeja plantar 17 mil hectares de algodão na safra 2026/2027, acima dos 15 mil do ciclo atual. Na soja, serão 29 mil hectares com mais de 6 mil de milho safrinha.

Durante encontro com o AgFeed, o casal contou que foi investindo em gestão ao longo dos anos, buscando consultorias especializadas e hoje possui um conselho de administração. Mas nunca abriu mão de seguir crescendo, mesmo quando algumas recomendações externas diziam o contrário.

Eles reconhecem que a margem de lucro diminuiu, mas afirmam que ela ainda existe e que todas as culturas do grupo (incluindo soja e milho) permanecem positivas.

O algodão é visto como uma cultura que oferece janelas de oportunidade de venda quando ocorrem picos nos preços. Além disso, a condição geográfica e climática de Sapezal favorece as altas produtividades, reduzindo o risco.

Marcio Souza, do IMAmt, está mais cauteloso com previsões de aumento de área, mas diz que o fato de colher bem, acaba estimulando o produtor a plantar, por isso não vê risco de redução.

“Eu não acredito muito em expansão de área porque aí você vai pegar áreas menos férteis, mais arenosas, então o produtor vai adequar o manejo para que ele possa adequar o custo de produção”, avalia.

Em Sapezal, ele diz que nem mesmo as recuperações judiciais são uma preocupação. Embora o custo de produção esteja em R$ 17 mil por hectare, a margem média no estado ainda estaria entre 20 e 30 arrobas por hectare.

“Aqui é um universo de produtores que estão estruturados, estão preparados para algumas adversidades. E são pessoas profissionais, que já construíram, já têm uma equipe bem firmada, uma situação financeira boa”.

O fator que poderá influenciar o cenário para a próxima safra é a preocupação com o El Niño, ele lembra. Caso haja algum prejuízo na soja (atraso nas chuvas, por exemplo), há consequências para o algodão, que entra como segunda safra.

Resumo

  • Produtores de Sapezal (MT) projetam produtividade acima de 350 arrobas por hectare, impulsionada por clima favorável, chuvas bem distribuídas e manejo tecnológico avançado
  • Grupos como Scheffer, Webler e Três Coqueiros ampliam ou mantêm investimentos na cultura, que segue prioritária mesmo diante de margens mais apertadas
  • Solo corrigido, cultivares adaptadas, comercialização antecipada e forte profissionalização explicam o desempenho acima da média da principal região algodoeira do Brasil