Serra Negra (SP) - É possível produzir mais café, de maior pontuação e maior resiliência climática, regenerando o solo em vez de apenas corrigindo seus problemas?
Um projeto conduzido pela Syngenta e pela JDE Peet’s (dona de marcas como Pilão, Caboclo e L’OR) começou a mostrar que, ao menos em algumas áreas testadas, a resposta pode ser positiva.
Depois de pouco mais de um ano de implementação, o projeto "Café Sustentável", focado em promover práticas de agricultura regenerativa no café arábica trouxe seus primeiros resultados, comparando os anos de 2024 e 2025.
As empresas apresentaram os números, que mostraram que as 30 fazendas que somam 90 hectares participantes registraram ganhos de produtividade de até 55%, melhora na qualidade da bebida e uma forte redução na incidência de nematoides, uma das principais dores da cafeicultura nacional.
Os resultados ainda são preliminares, já que o projeto termina apenas com a colheita da safra de café deste ano, mas já chamam atenção dentro de uma indústria pressionada por mudanças climáticas, ondas de calor, irregularidade de chuvas e aumento dos custos de produção.
“Tem produtor muito tecnificado, mas não regenerativo. Alguns agrônomos olhavam muito para a planta e pouco para o solo. Hoje, em todas as regiões do projeto, o agrônomo anda com uma enxadinha na mão”, resumiu o agrônomo e cafeicultor Fernando Sarreta, que atua como consultor técnico independente no projeto, em conversa com jornalistas nesta semana.
As 30 fazendas estão espalhadas pelas três principais regiões produtoras de café arábica do País - Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Mogiana Paulista - e nesta semana o AgFeed esteve em uma delas - o Sítio São Geraldo, uma área de 18 hectares onde é produzido o café da marca Nonno Marchi, em Serra Negra (SP) - para conhecer o projeto de perto.
A ideia surgiu a partir da convergência de interesses entre as duas multinacionais. De um lado, a Syngenta buscava fortalecer sua agenda de sustentabilidade e saúde do solo. Do outro, a JDE Peet’s queria ampliar programas capazes de garantir café de qualidade no futuro em um cenário climático cada vez mais imprevisível.
“A gente percebeu que as agendas de sustentabilidade das duas empresas conversavam muito. Queríamos alguém que estivesse no campo, treinando produtor, mostrando na prática como essas ferramentas funcionam”, disse Bruno Ribeiro, gerente de sustentabilidade da JDE Peet's e responsável pela iniciativa dentro da companhia.
“Produzir café passou a exigir adaptações muito mais precisas”, afirmou. Segundo ele, o projeto nasceu para entender como práticas regenerativas poderiam aumentar a resiliência da lavoura sem comprometer produtividade ou rentabilidade.
O piloto começou oficialmente em julho de 2024, mas as primeiras discussões se deram ainda em 2023. Além da Syngenta e da JDE Peet’s, a iniciativa reúne cooperativas, consultorias e empresas parceiras como Coopercitrus, Coopercam, Agroconsult (responsável por verificar a viabilidade econômica), Ribersolo (para as análises de solo) e Senar (que ficou a cargo dos treinamentos).
O modelo foi estruturado em três pilares: agronômico, ambiental e social, segundo explicou Natalia Vasconcellos, gerente de Sustentabilidade na Syngenta.
No campo, isso significou desde adoção de plantas de cobertura e redução do uso de fertilizantes nitrogenados até análises biológicas profundas do solo, treinamentos técnicos e acompanhamento econômico das propriedades. Em um ano, os efeitos já apareceram na lavoura.
Um dos principais indicadores envolve os nematoides, praga que Sarreta considera um dos maiores problemas da cafeicultura atualmente. Nas áreas regenerativas, a presença de ovos caiu 71% no Sul de Minas, 70% no Cerrado e 64% na Mogiana.
Segundo os técnicos do projeto, o avanço está ligado principalmente à recuperação da biologia do solo e ao fortalecimento do sistema radicular das plantas.
A produtividade também avançou. Nas áreas regenerativas do Cerrado, a produção subiu de 38,7 para 41,3 sacas por hectare na média. Na Mogiana, o salto foi de 37,2 para 44,6 sacas. Já no Sul de Minas, o ganho foi mais expressivo: de 26,1 para 40,6 sacas por hectare.
Além do volume, houve melhora na qualidade da bebida. As análises sensoriais mostraram avanço nas notas SCA - metodologia usada internacionalmente para classificar cafés especiais.
Enquanto áreas convencionais praticamente não registraram mudança, as regenerativas tiveram ganhos de até 1,97%, com todas as regiões mostrando pontuações acima de 80 pontos (o suficiente para ser considerado especial).
"Quando você melhora o solo, a planta responde. A gente vê diferença no vigor, no crescimento das ramas, no sistema radicular e na capacidade da planta de enfrentar estresse climático”, disse Sarreta.
Na visão da JDE Peet’s, a discussão vai além de produtividade. A companhia, que recentemente foi adquirida pela Keurig Dr Pepper num negócio de US$ 18 bilhões, opera programas com produtores em diversos países e vê a agricultura regenerativa como peça importante para garantir oferta futura de café em um mundo mais quente e instável, conforme explicou Bruno Ribeiro.
A empresa afirma possuir atualmente 86 projetos ligados a produtores rurais ao redor do mundo. No Brasil, o programa Common Grounds prevê treinar cerca de 5 mil cafeicultores até 2026.
A aposta ganhou ainda mais relevância após a aquisição - anunciada em agosto do ano passado e que deve ser completamente finalizada nos próximos meses - criando o maior grupo global especializado em café.
Hoje, marcas da companhia como Keurig, Jacobs, Peet’s e L’OR já superam US$ 1 bilhão em receita anual. No Brasil, a Pilão aparece entre as marcas acima de US$ 500 milhões por ano.
O "sítio do seu Roberto"
Foi justamente essa transformação que ajudou a mudar a trajetória da fazenda de Roberto Marchi, uma das propriedades participantes do projeto e que sediou o evento de apresentação dos resultados parciais do projeto.
Localizada nas montanhas de Serra Negra, a fazenda pertence à quinta geração da família Marchi, descendentes de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil ainda no século XIX.
A história começou em 1885, quando Ângelo Marchi desembarcou no porto de Santos para trabalhar nas lavouras de café da região de Amparo. Décadas depois, a família compraria terras em Serra Negra, consolidando uma tradição que atravessa gerações.
Hoje, a propriedade é comandada por Roberto Marchi, neto do "nonno" Atílio, que foi o primeiro a atuar naquela terra há cerca de 50 anos.
A trajetória de Marchi com esse tipo de prática, contudo, não surgiu com o projeto. Ele cita que, entre os anos de 2009 e 2010, desmotivado com os preços de café, considerou até deixar o ramo, mas ouvindo sobre o mercado de cafés especiais e o uso de matéria orgânica no solo, continuou na atividade.
"Migramos para a produção de cafés especiais em 2015, com um primeiro lote no ano seguinte. O nome da marca surgiu em 2019 em homenagem ao meu avô, e desde então começamos a ganhar alguns concursos", disse o produtor.
Em 2020, um dos cafés da propriedade foi eleito o segundo melhor do estado de São Paulo. Neste ano, a fazenda conquistou o terceiro melhor café do Brasil no concurso Florada Premiada.
Na pandemia de Covid-19, Marchi ainda reformou uma área da fazenda e construiu uma loja e cafeteria para receber turistas. Ele estima que a produção da fazenda gire em torno de 750 sacas por ano até agora.
Cerca de 30% a 40% é torrado ali mesmo e comercializado na loja, com alguns parceiros e pela internet. O restante é vendido para a Coopercitrus, na qual ele é cooperado.
A entrada no projeto de agricultura regenerativa deve, contudo, melhorar esses números daqui para a frente. Dos 18,5 hectares da propriedade, inicialmente apenas três participaram do piloto. Hoje, praticamente toda a área já migrou para o manejo regenerativo, restando apenas meio hectare de área “testemunha”.
Nos talhões regenerativos da fazenda, a produtividade saltou de 40 para 58,5 sacas por hectare. A pontuação média da bebida subiu de 83,8 para 89,1 pontos.
“A gente começou a entender que produzir café especial não era só pós-colheita. Era cuidar melhor do solo, aumentar matéria orgânica, deixar a planta mais equilibrada. Foi aí que tudo começou a mudar”, afirmou Marchi
Roberto Marchi estima que isso representou um incremento de renda de cerca de R$ 25 mil por hectare, já descontando os custos.
Os indicadores de solo também mudaram drasticamente. A presença de ovos de nematoides caiu 96%, saindo de 720 ovos por raiz para apenas 30. Durante a visita à propriedade, as diferenças apareciam visualmente: folhas mais verdes, ramos mais carregados, maior vigor vegetativo e raízes mais profundas nas árvores com manejo regenerativo.
Boa parte disso vem do manejo do solo, na opinião do agrônomo do projeto, Fernando Sarreta. A fazenda passou a utilizar cobertura vegetal com braquiária, crotalária e milheto, além de migrar parte da adubação química para organominerais.
Segundo os técnicos, a cobertura reduz erosão, melhora retenção de água e ajuda a controlar a temperatura do solo. Em uma das medições feitas pelo projeto, áreas cobertas registraram temperatura de 22 graus, contra quase 30 graus em solo exposto.
As análises biológicas conduzidas no projeto também mostraram melhora nos ciclos de enxofre e carbono, indicadores ligados à atividade microbiológica e saúde do solo.
*O jornalista viajou à convite da Syngenta
Resumo
- Projeto da Syngenta e JDE Peet’s elevou produtividade do café em até 55% em áreas regenerativas
- Fazendas reduziram em até 96% os nematoides após adoção de manejo regenerativo do solo
- Áreas regenerativas melhoraram qualidade da bebida, com cafés acima de 80 pontos na escala SCA