Cascavel (PR) – Mesmo com condições de crédito mais restritivas, em razão do elevado patamar da taxa Selic e de um cenário mais apertado no campo, o Sicredi, principal instituição cooperativa de crédito do País, deve encerrar o ano-safra 2025/2026 cumprindo o volume de repasses inicialmente projetado para a temporada.

A estimativa foi apresentada pelo diretor executivo de negócios, crédito e produtos do Sicredi, Gustavo Freitas, em entrevista a jornalistas nesta terça-feira, dia 10 de fevereiro, no espaço do Sicredi no Show Rural Coopavel, feira de máquinas e insumos agrícolas realizada nesta semana em Cascavel (PR).

O alvo, segundo Freitas, é de cerca de R$ 59,1 bilhões. “E pelo ritmo que a gente vem observando, estamos no caminho de conseguir bater esse volume total, mas o mix inicial esperado tem que ser diferente”, disse.

O executivo explicou que a composição das operações deve mudar em relação ao padrão observado em safras anteriores. Em geral, cerca de 50% do volume de crédito vem de repasses subsidiados, enquanto a outra metade corresponde a crédito livre.

“Acho que, nesse ano, esse mix deve mudar um pouco pelo que a gente tem visto, para 55% (de livres) e 45% (de subsidiados), ou 60% contra 40%. Essa é a lógica que a gente tem visto”.

Até dezembro, o Sicredi havia liberado R$ 39,8 bilhões aos produtores rurais. Apesar dos desafios impostos pela conjuntura macroeconômica, a cooperativa tem registrado crescimento na maioria dos indicadores de crédito rural ao longo da safra.

“Temos tido um ano muito bom em termos de demanda de recursos. As demandas não foram tão acentuadas, por causa dos juros mais altos, mas a capacidade de atendimento tem sido muito promissora, os limites têm sido muito bons e também as soluções compradas”, afirmou Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ.

De acordo com a cooperativa, as operações de custeio somaram, até o momento, R$ 16 bilhões, alta de 4% em relação à safra 2024/2025. Já as operações de investimento totalizaram R$ 10 bilhões, expansão de 41% na comparação com o ciclo anterior.

Na direção contrária, as operações envolvendo Cédulas de Produto Rural (CPRs) recuaram 13%, atingindo R$ 9,2 bilhões. “A CPR perdeu um pouco de impulso neste ano em função dos juros”, disse Freitas.

As demais linhas apresentaram crescimento expressivo. As operações com moeda estrangeira totalizaram R$ 3,4 bilhões, alta de 79% em relação à safra anterior. As operações de comercialização cresceram 42%, alcançando R$ 983,3 milhões, enquanto as de industrialização avançaram 29%, somando R$ 119,7 milhões.

Freitas destacou que o aumento das operações em moeda estrangeira já vinha sendo observado antes mesmo do início da safra.

“Se a gente olhar um pedido mais longo, de um ano, a gente tem 121% de crescimento no volume de moeda estrangeira financiada”, disse. “Nós não esperávamos uma composição tão grande.”

Segundo o executivo, embora esse tipo de crédito ainda esteja mais concentrado entre produtores do Centro-Oeste, ele tem avançado também no Sul do País.

“A gente tem observado que, para produtores também no Paraná, quando têm essa estruturação, quando estão bem preparados financeiramente, se fazem a venda programada, a proteção programada, etc, essas linhas passam a ser muito viáveis”, afirmou.

Freitas destacou ainda que o Sicredi seguiu, ao longo da safra, como uma das principais instituições repassadoras de recursos do BNDES, tendo liberado R$ 8,7 bilhões em financiamentos do banco público voltados ao agronegócio.

Os recursos são destinados a operações de custeio, aquisição de máquinas e equipamentos, melhorias em infraestrutura rural e investimentos em tecnologias sustentáveis.

O nível atual de inadimplência da carteira de crédito agro do Sicredi está em 3,86%, patamar que Freitas reconhece estar acima do observado em anos anteriores.

“Se eu olho o nível de inadimplência, que é o volume de crédito em atraso com proporção da carteira total, tenho basicamente o dobro em três anos. Antes, eu rodava num patamar abaixo de 2%, com 1,8%, 1,7%, 1,6%”, recordou o executivo.

Embora o índice esteja abaixo da média de outros setores de crédito, Freitas ressaltou que o patamar merece atenção.

Ainda assim, segundo o executivo, o indicador tem apresentado melhora nos últimos meses, apesar de o ambiente geral de crédito continuar adverso.

Para Freitas, o nível elevado de endividamento reflete também uma mudança estrutural. “O que a gente tem observado, de forma geral, é que o nível de endividamento no Brasil, com o patamar de taxa de juros altos, cresceu como um todo, o que faz com que o patamar de inadimplência esteja diferente”, afirmou.

“É um ‘novo normal’ para todos os setores da economia, pois a inadimplência até cai, mas não está voltando aos patamares do pós-pandemia”, completou.

Questionado sobre a elevação da quantidade de pedidos de recuperação judicial no campo, Manfred Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ, defendeu que esses pedidos vão decrescer com a passagem do tempo.

“Essa indústria que se montou, da recuperação judicial, já está decrescendo”, afirma. “Nossa teoria é muito simples: é dizer ‘cuida do teu CPF, cuida do teu nome, porque se você não deixar o teu nome, teu sobrenome, o nome da tua família, da tua organização, quem é que vai te emprestar o dinheiro?”, pondera.

Ele afirmou que há situações observadas na região do Mato Grosso em que famílias, após serem enganadas, passam a procurar alternativas para voltar a financiar a produção, mas encontram dificuldades por já não terem acesso ao crédito.

“A gente sempre alerta: quem precisa continuar financiando, plantando e investindo não pode fazer isso, porque acaba estragando o próprio nome e o da família por gerações.”

No Show Rural

Durante esta edição do Show Rural Coopavel, o Sicredi reservou R$ 2,5 bilhões para operações a serem acessadas pelos produtores ao longo do evento, um volume três vezes maior do que o disponibilizado no ano passado.

A expectativa da cooperativa é fechar R$ 800 milhões em negócios na feira, alta de 14% em relação aos R$ 697 milhões registrados na edição anterior.

Além das linhas do BNDES, como Pronamp, Inovagro, Moderfrota e Pronaf, bem como recursos próprios equalizados e livres, o Sicredi também aposta, como de costume, na ampliação das operações de consórcio e seguros durante o evento.

A instituição promete descontos de até 30% nas taxas de administração para clientes que contratarem consórcios – produto considerado estratégico neste momento, já que boa parte dos produtores realizou outras operações anteriormente. O mesmo percentual de desconto – de até 30% – será oferecido para aquisições de seguros durante a feira.

Resumo

  • Mesmo com Selic elevada e crédito mais restritivo, o Sicredi projeta cumprir a meta de cerca de R$ 59,1 bi em repasses de crédito rural na safra 25/26
  • Cooperativa prevê mudança no mix do crédito, com maior peso das operações livres, que podem chegar a 55% ou até 60% do total
  • Até dezembro, já foram liberados R$ 39,8 bilhões aos produtores, com crescimento em grande parte das linhas de crédito rural