Quem investe no agronegócio está acostumado a ouvir (e repetir) a tradicional previsão da Organização das Nações Unidas (ONU) de que o mundo terá aproximadamente 10 bilhões de habitantes por volta de 2050 e que, por isso, será preciso garantir alimento e energia para atender essa demanda.
É desse número – 10 bi - que surgiu o nome de uma das principais gestoras do País que se dedica 100% ao setor “agroalimentar”. A 10b Partners hoje atua em carreira solo, mas quando foi criada, em 2019, resultou de um desdobramento das teses mais específicas de outra tradicional gestora no mercado, a Tarpon.
“10b é uma referência aos 10 bilhões de pessoas que a gente vai ter no planeta Terra, em 2054, por aí, segundo a ONU. A Tarpon investiu muito nesse período todo, basicamente um terço do que a gente fez foi na cadeia de agroalimentos e, se olhar para o PIB do Brasil, é aproximadamente um terço só o agro, se colocar a indústria de alimentos junto”, explicou Marcelo Lima, fundador e atual CEO da 10b, em entrevista exclusiva ao AgFeed.
A visão da gestora é que investimentos que tragam rentabilidade e produtividade ao produtor, de forma sustentável, seguirão com o “o vento a favor”.
A estreia no agro foi com o investimento na Rúmina, em 2019, uma plataforma de soluções para a pecuária leiteira e de corte. “Hoje aproximadamente 15% do leite brasileiro passa pela Rúmina”, disse Lima.
Uma das grandes sacadas, porém, foi a decisão de investir na Kepler Weber, uma empresa centenária de equipamentos para armazenagem de grãos que surfou bem na bonança da última década.
A 10b começou a comprar ações da companhia já nos primeiros anos da gestora e foi aumentando, gradativamente. Em 2020, chegou a deter mais de 30% de participação, se tornando a principal acionista da Kepler. Na época, Marcelo Lima ocupou o cargo de presidente do conselho de administração da companhia.
Nos últimos anos, a gestora foi reduzindo sua participação na empresa, até que zerou a posição em setembro de 2024.
Marcelo Lima disse ao AgFeed que o investimento na Kepler gerou um retorno acima de 40% ao ano, cumprindo um patamar que vinha sendo a marca da gestora até 2023.
“Lógico que hoje está menor (o retorno), consolidado, mas vai voltar. Como a gente está ganhando share, as empresas estão crescendo e gerando caixa, a gente está muito bem posicionado no próximo ciclo positivo para encontrar oportunidades de trazer liquidez para os investidores com retornos acima disso”, afirmou.
Crescimento em 2025
Atualmente, um dos mais importantes investimentos da 10b é a fabricante de bionsumos Agrivalle. A gestora adquiriu o controle acionário da empresa, que tem sede em Indaiatuba (SP), há seis anos.
O setor sofreu com queda de preços ao longo do último ano, mas os volumes vendidos seguem crescendo.
“É outro vento a favor, de substituição dos químicos no agro, por fungos, bactérias, que são de certa forma, algumas vezes complementares”, disse.
Também são investidas da 10b a Seedz, um sistema de fidelidade para o agro, que nasceu dentro da John Deere, e a Rehagro, empresa de educação especializada em agronegócio.
Mas a “menina dos olhos”, mais recente, é a True Source, empresa de vitaminas, minerais e suplementos, com foco em alimentação humana, um segmento que vem crescendo fortemente no Brasil.
“Os últimos anos têm sido desafiadores do ponto de vista macro, no agro. Essa empresa (a True Source), como ela não está exposta diretamente ao agro, é mais na frente, no consumo, ela está performando mais, tem surpreendido muito positivamente, está quase dobrando de tamanho”, ressaltou o CEO.
Ele garante que, apesar das dificuldades, as empresas do agro também cresceram em 2025, principalmente pelo avanço em market share. Por isso, a receita da 10b fechou o ano com crescimento médio de 25% em relação ao ano anterior.
E o futuro?
A formação de Marcelo Lima é na área de negócios, com passagens por instituições como a USP, FGV e Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
Mas lá no início da carreira o universo já dava sinais de que o agro estava no seu caminho. Durante a famosa “bolha” da internet, ele chegou a ter um site de informações sobre o setor, o “Portal do Campo”, com sócios agrônomos, que até ganhou prêmios de destaque.
Passado esse momento, ingressou na Tarpon em 2007, onde mais tarde assumiu como CEO e acabou ajudando a gestora a apostar parte de suas fichas no agronegócio.
No início de 2025, a 10b optou por ficar totalmente independente da Tarpon, com 100% do foco em agroalimentos, mas segundo Lima, as gestoras seguem próximas e poderão vir a fazer operações em conjunto.
O executivo agora, no comando da 10b, acompanha com atenção “o ciclo de ajuste” que envolve o agro brasileiro, principalmente em função das margens mais apertadas para produtores de soja e milho, que impactaram os negócios de toda a cadeia.
Para seguir em frente, sabendo que o ciclo uma hora vai virar, Lima está se cercando de nomes de peso. O mais novo sócio da 10b é Rodrigo Rodrigues, ex head de agronegócios da Falconi, conselheiro de diversas empresas do setor e filho do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
“Coincidiu com esse movimento de dar ainda mais foco no agro com a vinda dele (Rodrigo). Ele tem sido um super sócio, uma experiência maravilhosa, além de conhecer muito do negócio, tem experiência no setor, mas ele também conhece muita gente”.
Além da chegada de Rodrigo, alguns investimentos feitos em 2025 já indicam para onde a 10b pretende ir daqui para frente.
A participação na Agrivalle foi ampliada de 59% para 88%, com a crença de que o segmento de bioinsumos segue promissor.
“O setor de insumos como um todo têm sofrido bastante, talvez químicos mais do que biológicos, mas biológicos continuam crescendo. Tem pressão de preço, mas os nossos volumes têm crescido bastante, até o mercado como um todo”, avaliou.
“Quando a gente investiu na Agrivalle, em 2020, se você comparasse o mercado de biológicos com o de químicos, a penetração era de menos de 1%. Hoje já fica perto de 7%, então cresceu”.
E o crescimento de 25% na 10b, poderá ser repetido em 2026? Marcelo Lima respondeu que “não vai ser fácil, mas acredita que sim”.
A expectativa de melhoria no cenário do agro, na visão dele, está mais para a safra 2026/2027.
“Ainda deve ser um ano desafiador em 26, ainda com a atenção da alavancagem, ao longo do ano, a percepção principalmente dos economistas é que a gente veja uma redução na taxa de juros que deveria ser marginalmente benéfica, ainda muito alta, mas ao longo do ano um certo alívio nessa direção. Acho que preços ainda ficam comprimidos, o que significa que as margens devem estar ainda pressionadas também”.
Segundo o CEO da 10b, também houve um investimento na True em fevereiro de 2025 e o foco no setor alimentar deve seguir presente.
“O que a gente está mais ativo, hoje, é numa tese de ingredientes. Então, ingredientes para a indústria de alimentos, então, está meio que na intersecção entre a indústria de agro e de alimentos, a gente já olha há bastante tempo”, revelou.
Lima explica que esse interesse pelos ingredientes é parecido com o que ocorreu com os biológicos, onde a gestora foi estudando o assunto, conhecendo todas as empresas, até conseguir viabilizar a compra da Agrivalle.
Ele diz que o grupo olhava no passado, por exemplo, para a Puravida, que acabou sendo comprada pela Nestlé, mas depois teve sucesso na aquisição da True Source. “Conhecemos muita gente do setor e acreditamos que tem uma oportunidade aí”.
Em relação ao agro tradicional, ele dá sinais de que o momento ainda é de cautela. “A gente está de olho em novas oportunidades, mas tem que ter muito cuidado, também, porque tem, nesse momento, tem coisas que, boas que estão com dificuldade, tem coisas que, talvez, não estão boas e podem sofrer ainda mais, então, a gente está muito atento”.
De qualquer forma, Marcelo Lima lembra que muitos dos investimentos de sucesso que ele liderou ao longo da carreira foram feitos em momentos desafiadores. Ele estava na Tarpon, por exemplo, quando houve o investimento na Hering.
“Outros investimentos que a gente fez em momentos de desafio, em geral, são os melhores retornos”, disse.
Entre os investidores da 10b, segundo ele, há uma base de pessoas que são do agro e que entendem do assunto, o que acaba ajudando na decisão, como ocorreu nos biológicos.
A expectativa do executivo em relação à Agrivalle é de uma melhora nos resultados, não apenas em função do potencial do mercado como um todo, mas também pelo fato de a empresa estar entre as poucas que investem em produtos diferenciados, por meio de P&D.
“A Agrivalle é a primeira empresa, não só no Brasil, mas no mundo, a misturar microrganismos, a ter fungo e bactéria no mesmo produto. Hoje em dia, todo mundo está fazendo isso. A gente é a primeira empresa a fazer isso, estamos investindo em RNAI, então, assim, sempre tentando, na fronteira, nos diferenciar para ter produtos que não estão só brigando com commodities”.
Resumo
- Há um ano desmembrada da Tarpon, gestora 10b reforça time com nomes como Rodrigo Rodrigues e mantém foco em empresas do agro
- Gestora aposta em biológicos, ingredientes e alimentação, com cautela no agro tradicional e foco na retomada a partir de 2026/2027.
- Investimentos como Kepler Weber, Agrivalle e True Source renderam retornos de até 40% ao longo dos últimos anos