Ao se deparar com a possibilidade de expansão da GreenLight Biosciences, empresa de biotecnologia americana que hoje opera em diferentes regiões do mundo, o pesquisador e empreendedor Andrey Zarur buscou responder à seguinte pergunta: “Qual é o país onde se pode alcançar o maior impacto, o maior reconhecimento e um rendimento econômico eficiente?”.

A resposta, segundo ele mesmo contou ao AgFeed, não poderia ser outra: o Brasil. “É o país que tem a economia agrícola mais sofisticada do mundo”, resume.

O manancial de oportunidades da agricultura brasileira encheu os olhos do CEO da GreenLight Biosciences e apressou sua vinda ao País. A companhia lança nesta quarta-feira, 26 de março, sua operação no Brasil, com a ambição de alcançar 1 milhão de hectares nos próximos anos. A ideia é colocar no mercado insumos que utilizam a tecnologia de RNA para combater parasitas.

A companhia chega ao país, mais precisamente em um centro de tecnologia em Piracicaba, no interior de São Paulo, amparada por um investimento de US$ 25 milhões de um parceiro importante: a firma de investimentos Just Climate, ligada à Generation Investment Management, gestora que tem o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore como sócio.

A operação da Just Climate no Brasil é coordenada pelo CIO Eduardo Mufarej, ex-sócio da gestora Tarpon e fundador da Good Karma Partners.

Trata-se de um dos primeiros aportes anunciados pelo Just Climate até a divulgação de uma captação de US$ 175 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) para um fundo focado em soluções climáticas naturais (NCS, na sigla em inglês), recursos obtidos com o Fundo de Inovação Climática da big tech Microsoft e o fundo de pensão dos professores da Califórnia.

A gestora já tinha um fundo focado em soluções para a indústria, o Climate Asset Fund I, que levantou US$ 1,5 bilhão, e desde o ano passado olhava para o agro "verde".

Mesmo antes do lançamento oficial, a GreenLight já está produzindo no país um adjuvante potencializador para inseticidas, o Fortivance. Zarur conta que a empresa produziu, em 2024, 1 milhão de litros desse produto, que espera vender em 2025.

Além disso, a empresa também está buscando aprovação junto ao governo federal para outros dois produtos.

Um dos produtos tem foco no combate ao oídio, fungo que aparece na soja e em diversas outras culturas, e o outro mirando o controle de pragas na culturas de frutas.

Em comum, ambos utilizam a tecnologia de RNA para combater os parasitas, diminuindo a necessidade de utilização de produtos químicos no campo.

E o que é esse tal de RNA? Vamos voltar às aulas de biologia: cada organismo vivo possui um RNA, sigla para ácido ribonucleico, molécula importante no processo de síntese de proteínas e é fundamental para a regulação genética e expressão das informações do RNA.

Os produtos da GreenLight trabalham com o RNA de interferência, que tem esse nome porque silenciam os genes no momento de tradução genética.

Aplicações com moléculas de RNAi podem silenciar genes essenciais para insetos ou fungos que atacam as plantas, levando à morte do patógeno sem afetar outros seres vivos.

“Isso significa que se inibe, se destrói, a habilidade da praga para produzir uma proteína que é vital para ela. Sem essa proteína, a praga não pode sobreviver na planta”, explica Andrey Zarur, CEO e cofundador da GreenLight, ao AgFeed.

Foi justamente o RNA presente nos produtos da GreenLight que chamou a atenção da Just Climate. A gestora aprovou o investimento na empresa na virada do ano, mas já vinha acompanhando o desenvolvimento da Greenlight desde 2023.

Mufarej explica que a ideia de investir na empresa veio a partir de uma inquietação da Just Climate sobre o caminho que tomaria a indústria de biológicos no futuro.

"Foi aí que uma das pessoas do nosso time, o Vinícius Souza, conheceu o Andrey nos Estados Unidos, em 2023, e voltou bastante entusiasmado, porque entendia que a GreenLight tinha desenvolvido um produto que ainda estava buscando o seu nível de escalabilidade e de eficácia, mas que tinha um produto que parecia bastante promissor, desenvolvido em cima de insumos biológicos, através de RNA", afirma.

O líder da Just Climate no Brasil atenta para o diferencial tecnológico que a utilização do RNA pode trazer para o mercado de insumos biológicos.

"O RNA é muito poderoso, na nossa visão, porque age diretamente na praga, não afeta o que a gente chama de organismos periféricos. Ele é completamente direcionado. É uma solução biológica muito importante com um benefício adicional de segurança tanto para produtores como consumidores", afirma.

Além disso, ele destaca que os produtos da GreenLight podem se integrar ao sistema de controle de pragas que o produtor já tem hoje – outro ponto que chamou a atenção da Just Climate.

“Com isso, você aumenta a eficácia dos controles atuais, ao invés de você ter que abandonar o controle atual e ir para um novo modelo de controle”, analisa Mufarej.

Nos Estados Unidos, a empresa conseguiu aprovar no EPA, o órgão ambiental norte-americano, o registro de seu biopesticida, o Calantha, que utiliza a tecnologia de RNA para o combate do besouro da batata do Colorado, uma histórica praga que atrapalha a produção americana do tubérculo.

A Greenlight diz que o produto é aplicado de forma semelhante aos defensivos químicos e tem ação similar ao manejo mais conhecido.

A partir da entrada no Brasil, a GreenLight finca o pé na América do Sul. O CEO, Andrey Zarur, não tem medo de admitir que a empreitada de convencer o produtor não é fácil.

"Acho que muita gente tem tentado vender coisas que não servem para o produtor. A gente chama isso em inglês de "snake oil", como se uma poção mágica fizesse com que o cultivo dos produtores melhorasse", afirma.

A proposta da GreenLight não é levar um produto premium ao produtor, mas sim oferecer um produto de qualidade, que traga resultados e segurança, na avaliação de Zarur.

“Para nós, é importante que o agricultor no Brasil dê o selo de aprovação e diga que os produtos da GreenLight funcionam e funcionam bem, dão melhor rendimento de produção e minimizam a quantidade de químicos que se colocam no campo”, diz Zarur.

A ideia da empresa no país é alcançar as culturas tradicionais do país como soja, café, algodão e laranja. "Mas o lado bonito do ácido ribonucleico é que podemos ir contra todas as pestes, porque todas as pragas, todos os seres vivos do planeta tem RNA”, afirma.

Além do Brasil, a empresa foi se espalhando por outras partes do mundo, com presença na Ucrânia, no México e na Espanha, país onde possui um centro de desenvolvimento de produtos, e acaba de conseguir um investimento de 35 milhões de euros do Banco Europeu de Investimento (BEI) para o desenvolvimento de um pipeline de dez produtos a serem lançados na União Europeia.

Zarur está empolgado com as possibilidades que encontrou por aqui. "O agricultor brasileiro é incrivelmente exigente, mas também aberto a adotar tecnologias que funcionem”, avalia.

Na América do Sul, a estratégia da Greenlight é focar suas operações no Brasil para depois espalhá-las para outros países como Argentina, Chile, Uruguai e Colômbia.

A ideia é que, em um primeiro momento, os produtos com tecnologia de RNA sejam fabricados nos Estados Unidos, onde a empresa tem uma linha de produção em Rochester, no estado de Nova York, e venham para o Brasil. Mais adiante, no entanto, Zarur ambiciona que a produção seja nacional.

“O objetivo é mover a maioria da produção para uma planta no Brasil”, diz Zarur. "O que eu gostaria, honestamente, é de produzir no Brasil e utilizar o país como um centro de distribuição para toda a América do Sul", complementa.

Apesar de estar chegando agora ao Brasil, o caminho de Zarur e da GreenLight já é relativamente longo no mercado – e não está restrito apenas ao setor agrícola.

A empresa foi criada em 2008 por Zarur e recebeu pelo menos 216 milhões de euros em várias rodadas de investimento ao longo dos anos, segundo informações do associação infOGM, para o desenvolvimento de seus produtos.

A companhia chegou a ser listada na Nasdaq entre 2021 e 2023. Mais recentemente, em 2023, a empresa fechou o capital por meio de uma transação liderada pela Fall Line Capital, que está focada em investimentos em terras agrícolas e agtechs nos Estados Unidos e foi um dos principais investidores em rodadas de investimento anteriores na GreenLight Bio.