Sluiskil (Países Baixos) - Disparada nos preços das matérias-primas, incertezas geopolíticas e produtores rurais com margens pressionadas, endividados, reduzindo o uso de fertilizantes.

Essa é a realidade da indústria de adubos em 2026, um cenário que só se agravou desde que as commodities agrícolas caíram para patamares mais baixos há três anos.

É por isso que cada vez mais o resultado das companhias do setor é definido “no detalhe”.

Para quem segue apostando no fertilizante “commodity” tradicional, uma alta expressiva no preço do enxofre, por exemplo, matéria-prima essencial para produzir os fosfatados, acabou inviabilizando a produção em algumas plantas no Brasil. Era algo que já vinha sendo visto no mercado, mas que piorou com a guerra no Irã.

Na multinacional Yara, gigante em fertilizantes nitrogenados, os executivos garantem que está sendo possível minimizar os impactos do agravamento da crise no setor.

“Acho que a diferença entre a Yara e outros players no Brasil é que reagimos muito mais cedo, ou seja, passamos por uma reorganização significativa, incluindo o fechamento de alguns ativos, mas fizemos isso entre 2021, 2022 e 2023”, afirmou Crystel Monthean, vice-presidente executiva da Yara para as Américas.

Ela conversou com o AgFeed na Holanda, logo após um momento de festa para a empresa, em cerimônia que reuniu lideranças políticas e empresariais, na unidade de Sluiskil.

Foi a inauguração do projeto de captura e armazenamento de carbono, com investimentos de 200 milhões de euros, ampliando em no mínimo 10 vezes a capacidade da empresa de produzir fertilizantes de baixo carbono, como mostrou o AgFeed.

Monthean disse que está ciente das decisões de outras companhias de interromper a produção de fertilizantes em algumas localidades no Brasil este ano, mas garantiu que a Yara já teria se antecipado, por isso estaria em situação mais favorável.

“Passamos por uma simplificação significativa. Portanto, estamos muito bem preparados neste momento para enfrentar mercados difíceis”, ressaltou, se referindo aos ativos e também às operações.

Em 2021, por exemplo, a empresa fechou uma misturadora que operava em Jaú, interior de São Paulo. O anúncio mais recente foi no início de 2025, quando a Yara informou ter suspendido a produção de fertilizantes fosfatados e ácido sulfúrico nas plantas de Cubatão (SP) e Paulínia (SP).

Houve uma opção de empresa em ter mais foco nos fertilizantes nitrogenados, que é a fortaleza global da gigante norueguesa. Ao mesmo tempo, a Yara tem priorizado produtos de maior valor agregado, que associam ingredientes orgânicos, por exemplo, para melhorar o desempenho do NPK tradicional.

Esse conjunto de medidas teria resultado em market share menor, porém, acompanhado de margens mais maiores para a empresa.

“Não há crescimento se não for um crescimento rentável. Então, não devemos confundir crescimento com fracasso”, declarou.

Crystel Monthean lembra que muitas vezes a Yara pode ser vista como uma empresa “lenta”.

“Talvez sejamos lentos, mas damos passos muito firmes. Damos um passo de cada vez. Estamos no Brasil e estamos comprometidos com o Brasil”.

Com as dificuldades recentes de alta no enxofre, a indústria de fertilizantes vem negociando possíveis subsídios junto ao governo brasileiro.

A executiva da Yara não demonstrou entusiasmo com a iniciativa. “É sempre muito complexo pedir aos governos que subsidiem ineficiências. Isso pode talvez resolver problemas no curto prazo, mas talvez crie problemas no longo prazo, porque acaba desequilibrando o sistema”.

No caso específico do enxofre, a Yara não está tão “exposta” à disparada de preços e os efeitos no Brasil por algumas razões. Uma delas é fato de ter optado pelo foco em nitrogenados e não mais competir tão fortemente em fosfatados, como ocorria há 5 anos.

Na conversa com jornalistas na Holanda, o CEO global da Yara também mencionou uma vantagem da companhia em função do processo adotado em algumas fábricas.

“A situação do enxofre é muito desafiadora para muitos. Como companhia, também somos impactados por isso. Mas temos múltiplos processos de produção. Em duas de nossas grandes fábricas localizadas na Noruega, temos um processo de produção diferente, no qual não usamos enxofre para dissolver o fosfato presente nas rochas. Somos capazes de produzir os produtos sem enxofre, o que é útil no momento que estamos vivendo”, explicou.

Sobre a menor demanda por fertilizantes no Brasil, a executiva avalia que está muito difícil prever se haverá recuperação já no próximo ano.

“O mercado está diminuindo por causa do preço das commodities agrícolas. E o preço depende de muitos fatores que estão fora do nosso controle, como clima e geopolítica”.

Ela diz que “a rentabilidade dos agricultores no mundo está sendo pressionada”, não apenas no Brasil, “porque os preços das commodities agrícolas estão baixos e os custos dos insumos estão altos”, já que são ligados à energia e à geopolítica.

Ainda assim, acredita que a tendência para o Brasil é de crescimento no consumo de fertilizantes.

“Não sei se no próximo ano, mas ao longo do tempo, porque o Brasil é uma potência na produção de grãos, café, de suco de laranja, de carne bovina. Essa é a tendência. Mas o caminho pode ter altos e baixos antes de chegarmos lá”.

Resumo

  • Yara se reorganizou antes do agravamento da crise e aposta em uma operação mais enxuta e rentável
  • Alta do enxofre e queda na demanda desafiam a indústria global de fertilizantes e pressionam as margens
  • Companhia mantém foco no Brasil e vê potencial de crescimento do consumo de fertilizantes no longo prazo