Consultorias de mercado e as principais indústrias de fertilizantes do País já projetam uma queda nas entregas de adubos em 2026, em um cenário marcado pela retração da demanda dos produtores, dificuldades de acesso a crédito e pelos efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre a oferta e os preços de matérias-primas.

As estimativas ouvidas pelo AgFeed durante o 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, realizado pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), em São Paulo, nesta terça-feira, dia 25 de agosto, apontam para um mercado entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas entregues neste ano, abaixo das 49 milhões de toneladas entregues em 2025, o que representaria uma queda de mais de 10%.

A Agroconsult trabalha com 45 milhões de toneladas, mas admite que o volume pode ficar ainda menor. A Agrinvest estimava 44 milhões de toneladas até recentemente, mas também já avalia que a projeção pode ser até menor.

No lado das indústrias, a Yara estima cerca de 43 milhões de toneladas, enquanto a Mosaic projeta uma faixa de 42 milhões a 45 milhões de toneladas.

A retração ocorre poucas semanas antes do início do plantio da safra de grãos no Centro-Oeste, principal região produtora de soja do País. Nesse momento do ciclo, o ritmo de compras está abaixo do observado em safras anteriores, reflexo principalmente da menor rentabilidade das lavouras e das dificuldades de financiamento.

“É uma safra Mounjaro”, resumiu André Pessôa, fundador sócio-diretor da Agroconsult, durante painel no evento da ANDA, em uma referência aos efeitos da caneta emagrecedora da Eli Lilly sobre a demanda por fertilizantes.

Para a consultoria, as entregas devem fechar o ano em 45 milhões de toneladas, com viés de baixa. “Não será surpresa se chegar a 44 milhões de toneladas. Surpresa seria se chegasse a 46”, disse Pessôa.

A redução deve atingir todos os principais nutrientes, embora seja mais acentuada nos fosfatados. Nitrogênio e potássio também devem apresentar retração.

O período mais crítico para as entregas, segundo a Agroconsult, deve ser entre maio e setembro.

No mesmo período de 2025, foram entregues 23,9 milhões de toneladas de fertilizantes. Para este ano, a estimativa é de 19,6 milhões, uma diferença de 4,3 milhões de toneladas.

A consultoria também projeta queda nas importações e na produção doméstica. As compras externas devem recuar de 43,3 milhões de toneladas em 2025 para 38,4 milhões neste ano, redução de 11,3%.

A produção nacional, por sua vez, cairia de 7,2 milhões para 5,8 milhões de toneladas, reração de 19,4%.

“Há uma queda expressiva tanto no nitrogênio quanto no volume dos fosfatados; potássio, nem tanto”, afirmou Pessôa. Segundo ele, a combinação de menor oferta importada e dificuldades na produção doméstica explica parte do ajuste.

No balanço entre oferta e demanda, o cenário também aponta para um mercado mais apertado.

A oferta total, considerando estoques iniciais, importações e produção, deve recuar 10,4% em 2026, para 53 milhões de toneladas.

A demanda, que inclui entregas, exportações e outros usos, cairia 7,7%, para 46,3 milhões de toneladas.

Como a oferta deve diminuir em ritmo superior ao da demanda, os estoques finais tendem a cair 23,4%, de 8,8 milhões para 6,7 milhões de toneladas.

Para produtores com maior dificuldade financeira, Pessôa avaliou que pode fazer mais sentido reduzir a área plantada do que somente cortar a quantidade de fertilizante aplicada.

“O produtor está reduzindo por necessidade. O plano A não era reduzir nada, pelo contrário, era até ampliar a tecnologia, mas ele está sendo obrigado a repensar”, afirmou.

Crédito trava compras

A dificuldade de acesso a crédito aparece como um dos principais fatores por trás da retração. Para Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil, o produtor enfrenta uma combinação de inadimplência, percepção de risco e juros elevados. “Todo esse nível de inadimplência, percepção de risco e taxa de juros se tornou hoje um grande gargalo”, afirmou o executivo em entrevista ao AgFeed nos bastidores do evento.

Segundo estimativas da Mosaic, cerca de 85% dos fertilizantes necessários para a safra haviam sido negociados duas semanas antes do evento da Anda. Ainda assim, o percentual está abaixo do observado normalmente neste momento.

“Nessa altura do campeonato, os percentuais estão abaixo das safras anteriores, diria que de 3% a 5%”, estimou Monteiro.

Na Yara, a avaliação é semelhante. Guilherme Schmitz, vice-presidente de Marketing e Agronomia da companhia, afirmou ao AgFeed que a combinação de margens mais apertadas e fertilizantes mais caros tem levado os produtores a postergar investimentos.

“O preço, junto com uma rentabilidade retraída e margens dos produtores, principalmente de grãos, achatadas, tem diminuído também o investimento por parte do produtor.”

O atraso é mais evidente em algumas regiões. No Cerrado, mais de 90% dos fertilizantes destinados à safra de verão já foram comercializados, segundo Schmitz. No Rio Grande do Sul, o percentual de comercialização de fosfatados e potássicos está entre 65% e 70%.

A menor capacidade de compra também começa a mudar o perfil da adubação. Monteiro afirma que produtores estão migrando para produtos com menor concentração de nutrientes como o superfosfato triplo. “E, na combinação fósforo e nitrogênio, o sulfato vem ganhando um espaço importante também dentro desse contexto.”

Entre os nutrientes, o fósforo concentra parte importante das preocupações da indústria, principalmente por causa da alta do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.

Na Yara, Schmitz estimou que o preço do MAP, que estava na faixa de US$ 620 a US$ 630 por tonelada CFR antes dos conflitos, chegou a US$ 900 a US$ 920 e segue em patamar elevado. “Ainda não recuou porque o mercado segue pressionado em custos e disponibilidade.”

Na Mosaic, Monteiro avaliou que o MAP esteja precificado entre US$ 850 a US$ 860. “Dos três elementos, foi o único que subiu e não voltou”, disse.

A empresa também projeta uma redução de 20% a 30% na aplicação de fertilizantes fosfatados neste ano. Segundo Monteiro, o corte representa uma tentativa de reduzir custos, mas pode acabar afetando a produtividade.

Nas estimativas da empresa, a menor aplicação de fósforo poderia reduzir a produtividade da soja entre 5% e 7%. O efeito tende a ser maior em áreas mais novas, que acumulam menos anos de adubação.

“Historicamente, 70% das nossas terras destinadas à agricultura já são trabalhadas há mais de 10 anos. Mas 30% não são e, nessas áreas, adubar menos tem um impacto maior [em produtividade]”, disse.

Já André Pessôa, da Agroconsult, avaliou que os produtores têm buscado calibrar a redução no uso de fertilizantes para evitar impactos sobre a produtividade e trazer problemas econômicos. “Mas é no limite”, ressaltou.

Enxofre preocupa para 2027

Se a principal preocupação em 2026 é a demanda, o alerta para 2027 está do lado da oferta, avaliou Eduardo Monteiro, da Mosaic.

Ele afirmou que parte do enxofre utilizado atualmente pelas fabricantes de fertilizantes no Brasil foi adquirida antes da escalada dos preços, o que ajudou a evitar uma restrição maior na produção de fertilizantes fosfatados neste ano.

“Não tivemos problema de falta de fósforo neste ano por dois motivos: uma redução importante do consumo e o fato de que o enxofre utilizado nas fábricas brasileiras havia sido adquirido antes, aos preços antigos.”

Essa proteção, porém, tende a diminuir. Segundo o executivo, a normalização da oferta pode levar de seis a 12 meses, em um mercado no qual a produção vem sendo afetada em diferentes regiões.

O preço do enxofre passou de US$ 400 a US$ 450 por tonelada antes do início do conflito para cerca de US$ 1.200 atualmente.

“Hoje, não é economicamente viável produzir fosfatados com esse patamar de preços do enxofre.”

A preocupação é que a combinação entre preços elevados e menor produção em diferentes regiões produtoras provoque um choque de oferta no próximo ano.

“Os produtores do Brasil mostram isso, o Norte da África também reduziu a produção, a China também vem sofrendo com isso e os Estados Unidos também vêm sofrendo com isso”, afirmou Monteiro.

“Esse é um impacto global e, se a situação não melhorar, teremos um forte choque na oferta de fertilizantes no próximo ano. Quando? Ainda é difícil dizer.”

Ainda assim, a Mosaic projeta encerrar o ano com resultado menos negativo do que poderia ter sido em função da paralisação ou redução do funcionamento de sete de suas 15 unidades no Brasil

“Quando o mercado cai de 49 milhões de toneladas para potencialmente 42 milhões, 45 milhões, nós fizemos um ajuste importante na nossa capacidade de produção e isso nos permitiu perder muito menos do que nós perderíamos em uma condição normal”, disse Monteiro.

Na Yara, a diversificação de sua matriz de produção e de fornecedores diminuiu a exposição da companhia neste ano a eventuais rupturas de oferta.

Segundo Guilherme Schmitz, cerca de 25% dos fertilizantes comercializados pela companhia no Brasil vêm de unidades próprias no exterior, principalmente na Europa, e outros 25% são produzidos no País, em fábricas como Rio Grande (RS), Ponta Grossa (PR) e Cubatão (SP). Os 50% restantes são importados de fornecedores externos.

“Essa diversificação nos dá uma estabilidade maior e uma segurança de fornecimento também maior. Hoje, 50% vêm da nossa matriz e os outros 50% são comprados de fontes mais seguras em termos de abastecimento”, afirmou.

Assim, a companhia espera estável em relação ao ano passado. “[O resultado final de 2026 é de] estabilidade com relação ao ano passado, em termos financeiros e de volumes de comercialização, bem estável em termos de volume e rentabilidade”, disse Schmitz.

Resumo

  • Entregas de fertilizantes devem cair de 49 milhões para até 42 milhões de toneladas em 2026, segundo estimativas do setor
  • Crédito caro e margens apertadas fazem produtores adiar compras e reduzir a adubação, com impacto maior sobre os fosfatados
  • Alta do enxofre elevou custos dos fosfatados e acende alerta para um possível choque de oferta de fertilizantes em 2027