O risco de desabastecimento de fertilizantes para a próxima safra de verão diminuiu significativamente nas últimas semanas, mas o mercado de adubos ainda convive com um cenário de incerteza e de restrição de crédito aos produtores rurais.
A avaliação é de Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil, que conversou com jornalistas após participar de painel do evento World Agri-Tech Summit, nesta terça-feira, dia 23 de junho, em São Paulo (SP).
De acordo com o executivo, apesar da reabertura do Estreito de Ormuz e da perspectiva de um ponto final no conflito por parte de Estados Unidos e Irã, os efeitos práticos sobre a oferta ainda não chegaram à indústria.
"Do ponto de vista prático, para a safra de verão não teremos nenhum impacto efetivo", afirmou durante evento do setor.
Isso acontece, segundo Monteiro, porque há uma defasagem entre a alta dos preços internacionais e seus reflexos no mercado brasileiro.
“Pensando na dinâmica da nossa produção, isso vai levar um certo tempo. A partir do momento que você intensifica a comercialização até a indústria receber esse produto e processar demora de três a quatro meses, isso num cenário otimista”, disse.
Na avaliação do country manager da Mosaic, os estoques brasileiros de fertilizantes recuaram cerca de 10% em relação ao período anterior, mas ainda permanecem em um nível capaz de abastecer o mercado.
Houve um mix de redução de demanda e mudanças no mix de produtos. A participação de fertilizantes de menor concentração, como o superfosfato simples e o triplo cresceu, enquanto os MAPs e fertilizantes NP (nitrogênio e potássio) de alta concentração tiveram redução nas compras. “As importações de fósforo em termos de nutriente reduziram, mas em toneladas absolutas não reduziram”, resumiu Monteiro.
Assim, a combinação entre redução do consumo, estoques existentes e menor volume de nutrientes importados são vetores que indicam que o País conseguirá atravessar a temporada sem falta generalizada de produto. "Essa equação indica que nós teremos como passar este ano. Não vai sobrar produto, mas o risco de falta está minimizado."
De acordo com Monteiro, eventuais problemas podem ocorrer apenas de forma pontual, principalmente em momentos de pico da demanda, quando gargalos logísticos costumam aparecer.
Preços altos e produtor avesso
Se na oferta os riscos estão controlados, na demanda há mais problemas a serem resolvidos.
Os preços continuam em patamares historicamente elevados, com o fósforo, por exemplo, na faixa de US$ 1,2 mil a tonelada, e não devem ceder muito.
A precificação, que já vinha mais elevada desde antes do conflito no Oriente Médio, deve levar entre seis a 18 meses para se recompor, na avaliação de Monteiro, mas sem quedas bruscas.
“No próximo ciclo de verão, a gente tem a possibilidade de a situação voltar a começar a tentar retroceder aquilo que a gente enxergou no período pré-guerra – que já era alto”, disse.
Com esses vetores negativos, muitos agricultores têm buscado reduzir aplicações e buscar alternativas para diminuir custos, observa o executivo.
Dessa forma, Monteiro disse acreditar que, mesmo com uma boa safra, os rendimentos dificilmente repetirão os níveis registrados quando o pacote tecnológico foi plenamente utilizado.
"Neste ano você vai ter uma redução de tecnologia, e essa redução implica em uma produtividade menor."
Além dos preços mais altos, Monteiro destacou outro fator que vem reduzindo a demanda: a dificuldade de acesso ao crédito rural.
Enquanto instituições financeiras têm endurecido a concessão de financiamentos, muitos produtores também aguardam definições sobre o PL 5122/2023, proposta que tramita no Congresso Nacional e que trata do refinanciamento das dívidas dos agricultores.
“O agricultor está esperando e quem está na expectativa vem postergando a sua decisão (de compra). Conversando com os grandes canais de distribuição, a situação de abril, maio e junho não melhorou. Ela se deteriorou”, relatou Monteiro.
Resumo
- Com estoques ainda suficientes, temor de falta de fertilizantes fica de lado, mas crédito restrito vem deixando agricultores mais avessos a ir às compras
- A avaliação é de Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil
- Tendência é de que produtores tenham menor produtividade com queda no uso de adubos e preços ainda sigam altos