Enquanto o "Super El Niño" se forma e começa a aquecer as águas do Oceano Pacífico, instituições financeiras e especialistas em clima de todo o mundo fazem contas e projeções sobre o impacto que os seus efeitos sobre o clima global podem provocar à economia de todo o mundo.

E eles não devem ser pequenos, segundo economistas do banco americano Goldman Sachs, um dos mais influentes do planeta. Eles afirmam que o fenômeno climático traz consigo uma ameaça de choque duradouro sobre os preços globais de alimentos, com efeitos que podem se estender até o segundo semestre de 2028.

Segundo um relatório da instituição, citado neste domingo, 12 de julho, em reportagem do jornal britânico The Guardian, secas e enchentes provocados pelo El Niño devem resultar em quebras significativas em safras em diferentes continentes, acarretando em uma alta de 15,8% nos preços globais de commodities agrícolas.

O número, por si só, já colocaria pressão adicional sobre a inflação mundial num momento em que os preços dos alimentos já atingem o maior patamar em três anos, impactados pela guerra envolvendo o Irã e por interrupções em cadeias de suprimento de fertilizantes.

Mas o banco vai além: para as culturas mais expostas — arroz, óleo de palma, açúcar e café —, o salto pode ser de 50% a 100% ou mais, segundo a reportagem.

"O El Niño coloca a 'climateflation' (termo em inglês cunhado pelo banco para falar da inflação climática) no topo das preocupações", escreveram os analistas do Goldman Sachs, de acordo com o Guardian.

O efeito completo, no entanto, levará tempo para se materializar, por causa da forma como o custo do impacto climático se propaga pelas cadeias globais de suprimento de alimentos.

O banco estima que as consequências levarão até o segundo semestre de 2028 para serem "totalmente realizadas" — a defasagem, explica, decorre dos diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita de cada cultura nas diferentes regiões.

O alerta do Goldman Sachs não é isolado. A gestora Schroders, em relatório publicado em junho passado, também acendeu o sinal de alerta. A casa estima que um El Niño muito forte, combinado com a escassez de fertilizantes agravada pelos conflitos no Oriente Médio, pode levar a inflação de alimentos nos países do G7 a dois dígitos em 2027.

"Ondas sucessivas de inflação impulsionada por commodities aumentam o risco de que as pressões sobre preços se enraízem", escreveram os analistas David Rees, head de Economia Global, e Sandeep Jaggi, da Schroders.

A instituição britânica projeta que, se o índice de preços de alimentos da FAO subir 50% até o fim de 2026, a inflação de alimentos nos países ricos pode disparar no ano seguinte, adicionando mais de um ponto percentual à inflação geral — num momento em que o choque energético atual começar a arrefecer.

Outra gestora, a americana Neuberger Berman, também entrou no coro de advertências. Em análise publicada em junho, seu gestor associado de portfolio, David Waugh, argumentou que os mercados estão subprecificando os riscos do El Niño.

"Se um evento forte de El Niño ocorrer junto com as interrupções no fornecimento de fertilizantes, os investidores podem enfrentar uma combinação particularmente desafiadora: inflação de preços de alimentos sobreposta à inflação de energia, criando uma pressão dupla sobre as classes de ativos tradicionais", escreveu.

Para a Neuberger, este é o tipo de inflação puxada pela oferta, contra a qual a política monetária tradicional tem pouca eficácia.

Também o Banco Mundial dedicou um capítulo de seu mais recente Food Security Update, divulgado em maio, à ameaça do El Niño. A instituição projeta que os preços dos fertilizantes devem subir 31% em média em 2026, atingindo o menor nível de acessibilidade desde 2022, e alerta que a probabilidade de 61% a 87% de emergência do El Niño até meados de 2026 — com continuidade para 2027 — pode agravar ainda mais o quadro, ameaçando a produção agrícola no Sul da Ásia, na África Austral e em partes do Leste Asiático, com a produção de arroz podendo cair de 20% a 50%.

Em reportagem publicada nesta segunda-feira (13), o site da revista americana Newsweek repercutiu o relatório, que chama de "Godzilla", em uma referência à magnitude do fenômeno, destacando que a projeção de alta de 15,8% nos preços globais de commodities agrícolas representa um alerta severo para consumidores em todo o mundo.

Outra matéria da mesma publicação, há cerca de um mês, já havia alertado que as importações de alimentos dos Estados Unidos estavam na linha de frente do risco, com a inflação de alimentos no país projetada em 3,4% para 2026 e a possibilidade de o El Niño agravar esse cenário.

Ela também citou uma análise de 2023 do Banco Central Europeu (BCE), que previa que um El Niño forte poderia empurrar os preços globais de commodities alimentares para cima por até dois anos.

Impacto por cultura

Os efeitos do fenômeno climático, que já está sendo monitorado por meteorologistas como um dos mais fortes das últimas décadas, variam de acordo com a região e o ciclo de cada cultura.

Mas o padrão histórico, segundo a Neuberger Berman, é consistente: um ciclo forte de El Niño tende a restringir a oferta global e aumentar a volatilidade dos preços em algumas das principais culturas agrícolas.

O trigo australiano é um dos mais vulneráveis. Segundo a Schroders, a área plantada na Austrália deve cair de forma acentuada, com perdas potenciais de produção de cerca de 9 milhões de toneladas na safra 2026/2027.

O país é um dos maiores exportadores globais do cereal, e uma quebra dessa magnitude teria impacto direto sobre os preços internacionais.

A Neuberger Berman corrobora a análise, lembrando que a Austrália sofreu declínios de produção devido à seca em praticamente todos os anos de El Niño nas últimas seis décadas, com perdas que variam de significativas a severas.
Também o açúcar está entre as culturas mais expostas. A Schroders aponta que eventos anteriores de El Niño — como os de 2015/2016 e 2023/2024 —, mesmo mais fracos que o previsto para este ano, levaram a quedas de 20% a 30% na produção de Índia e Tailândia, dois dos maiores exportadores mundiais, que passaram a recorrer a importações e elevaram os preços globais.

A Neuberger Berman acrescenta que o Brasil, maior produtor mundial de cana, pode ter a colheita prejudicada pelo excesso de chuvas típico do El Niño em parte de seu território.

O impacto pode ser ainda mais pronunciado porque uma parcela maior da cana plantada está sendo desviada para a produção de etanol nos países asiáticos, impulsionada pelo choque do petróleo no Oriente Médio.

Alimento básico para metade da população mundial, o arroz também está na linha de frente dos temores. O El Niño tende a enfraquecer as monções no Sul da Ásia e a elevar as temperaturas acima do normal nas regiões produtoras, comprometendo a produtividade das lavouras na Índia, Tailândia e Vietnã.

Segundo o relatório de maio do Banco Mundial, a produção de arroz pode cair de 20% a 50% nas regiões mais afetadas. A Goldman Sachs projeta que o arroz está entre as culturas que podem sofrer choques de 50% a 100% nos preços.

Outra cultura incluída entre as mais vulmeráveis, segundo a Neuberger Berman, é a do cacau. A África Ocidental — responsável por cerca de 70% da produção mundial — enfrenta o risco de condições mais secas e ventos mais fortes (os chamados Harmattan, que descem do Saara), que historicamente reduzem a produtividade.

Em eventos passados, como os El Niños de 1997-1998 e 2015-2016, a produção na Costa do Marfim sofreu quedas acentuadas. O Equador, outro grande produtor, enfrenta o problema oposto — chuvas excessivas que estimulam doenças fúngicas e interrompem a colheita.

Já o café, tanto arábica quanto robusta, também deve sofrer com a irregularidade climática típica do El Niño nas regiões produtoras do Sudeste Asiático e da América Latina, com a Neuberger Berman incluindo a commodity entre as mais expostas.

Para o milho e a soja, os impactos são mais balanceados. A Neuberger Berman observa que a volatilidade climática pode atrasar o plantio da safra principal no Brasil, encurtando a janela da segunda safra de milho — um componente cada vez mais crítico da oferta global.

Nos Estados Unidos, no entanto, condições mais quentes e úmidas no Meio-Oeste podem beneficiar a produtividade. Para a soja, a oferta das três maiores regiões exportadoras deve ser robusta, mas a demanda por biodiesel continua fornecendo suporte sólido aos preços.

O Brasil na rota do fenômeno

Para o Brasil, o El Niño tem efeitos ambíguos, mas que no saldo tendem a pressionar os preços. As regiões Sul e Sudeste historicamente recebem volumes de chuva acima da média, o que pode beneficiar algumas culturas, mas também atrapalhar a colheita e a logística. O Centro-Oeste e o Nordeste, por outro lado, tendem a enfrentar períodos de estiagem mais severos.

A Schroders destaca que a produção brasileira de cana-de-açúcar, crucial para o mercado global de açúcar e etanol, pode ser afetada pelo excesso de chuvas no Centro-Sul durante a colheita.

Já a Neuberger Berman aponta que o atraso no plantio da soja no Brasil, causado pela irregularidade das chuvas, pode comprimir a segunda safra de milho — um fenômeno que, nos últimos anos, tornou-se um dos fatores mais relevantes para a formação de preços do cereal no mercado internacional.

O País também é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes e importa cerca de 85% do que consome. Com a dupla pressão do choque no Oriente Médio e do El Niño, o custo dos insumos tende a subir, apertando as margens dos produtores e, no limite, reduzindo a área plantada.

O que diz a história

A comparação com formações anteriores do El Niño ajuda a dimensionar o risco. O episódio de 1997-1998 foi um dos mais fortes já registrados, com impactos severos sobre a produção agrícola global e disparada nos preços de commodities como açúcar e óleo de palma.

O de 2015-2016 também foi classificado como "super El Niño" e causou perdas significativas na produção de cacau na África Ocidental e de açúcar na Índia e Tailândia. Em ambos os casos, os efeitos sobre os preços se estenderam por dois a três anos após o pico do fenômeno.

O que preocupa os analistas agora é que o El Niño de 2026 chega em um contexto macroeconômico e geopolítico mais frágil. A guerra envolvendo o Irã já elevou os preços de energia e fertilizantes a patamares que não eram vistos desde a invasão da Ucrânia.

As cadeias de suprimento globais ainda estão se ajustando. E a inflação de alimentos, embora tenha arrefecido em relação aos picos de 2022/2023, continua acima das metas dos bancos centrais na maioria dos países.

Como resumiu o relatório da Schroders, o grande risco não é um choque único e imediato, mas "ondas sucessivas de inflação impulsionada por commodities", que elevam a probabilidade de que as pressões sobre preços se enraízem nas expectativas e nos salários.

Na zona do euro, o Goldman Sachs prevê que os preços dos alimentos podem subir 1,3% como reflexo indireto do choque.

Os economistas ressaltam que as projeções precisam ser tratadas com cautela — o próprio relatório da Schroders reconhece que as correlações históricas entre o índice de temperatura do Pacífico (ONI) e os preços de alimentos "superestimaram" o impacto do El Niño em 2023, o que "destaca a dificuldade em prever tanto o clima quanto as safras".

A Neuberger Berman também pondera que nem toda commodity é exposta da mesma forma. Mas o cenário base, consolidado entre as principais instituições financeiras globais, é de alerta elevado.

Resumo

  • Goldman Sachs prevê alta de até 15,8% nas commodities agrícolas em função das perdas provocadas pelo El Niño
  • Segundo as previsões, impactos devem durar até 2028 e produtos como arroz, café, açúcar e óleo de palma podem subir até 100%.
  • Efeitos podem ser agravados pela conjunção de choques provocados pelo fenômeno e pela alta de fertilizantes provocada pela crise no Oriente Médio