A catarinense Pamplona Alimentos, uma das principais indústrias de carne suína do País, sediada em Rio do Sul (SC), iniciou recentemente um novo capítulo em sua história.
Depois de 78 anos sob comando direto da família fundadora – os Pamplona – a empresa passou a ter um executivo de mercado como CEO, que agora prepara uma estratégia que combina expansão industrial, possíveis aquisições e investimentos em inovação para acelerar o crescimento nos próximos anos.
"Nós não queremos continuar sendo a empresa que somos hoje. A Pamplona vai crescer", afirma Ronaldo Kobarg Müller, o novo CEO, em entrevista ao AgFeed.
Müller vinha ocupando a vice-presidência da empresa desde quando chegou à Pamplona, em 2023, após 40 anos de experiência no agronegócio, com passagem pelas grandes companhias do setor de proteínas como Sadia, Seara, JBS e Pif Paf.
A antiga CEO, Irani Pamplona Peters, filha dos fundadores e que estava no posto desde 2009, passou a comandar o Conselho de Administração da companhia.
Em paralelo, a terceira geração da família segue presente em diretorias estratégicas, principalmente nas áreas comercial e de inovação. Dos sete diretores atuais, quatro vieram do mercado e três pertencem à família controladora.
De acordo com Ronaldo Müller, ao mesmo tempo em que mantém parte da família no comando, a companhia vem buscando práticas de governança semelhantes às de empresas listadas em bolsa, embora não tenha planos de abrir capital na B3.
"Estamos fazendo uma transição para se tornar uma empresa muito mais profissional, mas a gente respeita muito a cultura. São valores construídos ao longo de 78 anos”, afirma.
É com esse misto de empresa familiar e, ao mesmo tempo, gestão profissionalizada, respeitando a trajetória construída até aqui, que Müller pretende alavancar os negócios da companhia.
Após atingir R$ 2,5 bilhões de faturamento em 2025, a Pamplona projeta um crescimento de 8% neste ano, impulsionada pela ampliação da produção, pelo lançamento de novos produtos e por ganhos de eficiência operacional.
“O plano operacional mostra um crescimento em cima de produtos de maior valor agregado e até crescendo um pouco o target”, afirma.
Muller avalia que a empresa tem duas frentes de crescimento pelo caminho: expansão orgânica com base nas estruturas que já possui e também operações de M&A.
De olho na expansão orgânica a partir da operação já existente, a companhia prevê investir R$ 150 milhões ao longo deste ano, segundo Müller, em inovações e melhorias de seus sistemas produtivos.
Boa parte do valor total previsto – cerca de R$ 65 milhões – será destinado para a ampliação da produção de leitões, com a instalação de duas novas granjas, projeto que vai durar três anos e que conta com apoio financeiro da Finep, órgão do governo federal.
Em Pouso Redondo (SC), será implementada a Granja Ribeirão Vassouras, que vai exigir um investimento de R$ 52.8 milhões.
O projeto integra o programa de melhoramento genético da companhia e terá como foco a ampliação da base genética da Pamplona por meio da implementação e aprimoramento de linhagens.
Já em Rio do Sul (SC), será implementada a Granja Lauro Pamplona, unidade de difusão genética e processamento de sêmen suíno de alto índice genético, com aporte previsto de R$ 11.2 milhões.
Além disso, a companhia pretende investir cerca de R$ 80 milhões em automação em suas fábricas e em tecnologias para desenvolvimento de produtos diferenciados na linha de produção, diz Ronaldo Müller.
Nos últimos anos, a Pamplona vem investindo com força na melhoria de suas instalações. A empresa investiu R$ 144 milhões na atualização das unidades fabris de Rio do Sul e Presidente Getúlio (SC), com foco na melhoria das granjas de suínos, e na fábrica de ração que mantém em Laurentino (SC).
Esses investimentos permitem, agora, o crescimento orgânico da companhia. Mas Muller ressalta que, para a empresa continuar se expandindo no futuro, não basta o crescimento orgânico e diz que a Pamplona está aberta a fazer aquisições de outras empresas ou ainda estruturas industriais de outras companhias.
"Se a gente encontrar alguma coisa que case com a nossa cultura, que tenha tecnologia que vem implementar para nós, fazer algo diferente, a gente pensa até em adquirir alguma coisa no mercado", diz. "A Pamplona olha isso a todo momento, porque nós não queremos continuar a ser a empresa que nós somos de hoje."
Muller não coloca, no entanto, uma data para isso acontecer. "Nós estamos prospectando isso no mercado, a gente ainda não tem nada. Estamos definindo ainda onde queremos chegar."
Canetas emagrecedoras e mercado interno: oportunidades à frente
Enquanto as aquisições não vêm, a Pamplona trabalha para qualificar seu portfólio, de olho em trazer produtos de maior valor agregado ao consumidor e, com isso, competir de igual para igual no disputado mercado da proteína animal.
Nesse sentido, recentemente a companhia lançou uma linha de produtos para preparo direto em air fryer, de olho na expansão do uso do eletrodoméstico no Brasil, hoje presente em 44% dos lares no país, segundo dados da empresa de inteligência Kantar. "A ideia é trabalhar com praticidade, pois são produtos de preparo rápido", diz Ronaldo Müller.
A companhia, claro, está atenta também à aceleração de usuários de canetas emagrecedoras no Brasil – e às possibilidades que a demanda por alimentos “hiperproteicos” vem trazendo.
Pesquisa recente do Instituto Locomotiva indicou que 62% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que fez ou faz uso dos medicamentos injetáveis à base de GLP-1. Um em cada três domicílios tinham pelo menos um morador utilizando os remédios.
Como as canetas emagrecedoras fazem com o que corpo possa perder bastante massa magra ao mesmo tempo em que reduz os índices de gordura, cada vez mais os consumidores desses medicamentos têm optado por uma dieta rica em proteínas e buscado alimentos hiperproteicos.
Embora ainda carregue a fama de ser gordurosa para muitas pessoas, a carne suína oferece cortes magros e ricos em proteína, caso do lombo, mais proteico que cortes bovinos e de frango.
Segundo dados da edição do ano passado da TACO (Tabela Brasileira de Composição de Alimentos), da Unicamp, uma das principais referências nutricionais do País, cada 100 gramas de lombo cru tem, em média, 22,6 gramas de proteína, mais que a mesma quantidade de peito de frango com pele (20,8 gramas) e miolo da alcatra sem gordura (21,6 gramas).
Na avaliação do CEO da Pamplona, Ronaldo Müller, a tendência da alimentação hiperproteica associada ao uso dos remédios emagrecedores veio para fica.r
"Nós estamos olhando isso não como um desafio, mas como uma oportunidade. Somos uma empresa que produz proteína, se nós tivermos um produto com saudabilidade, e a gente está olhando muito para isso, associado à praticidade, acho que nós vamos ter coisa boa pela frente", diz Ronaldo Muller.
Apesar do otimismo, o CEO da Pamplona ainda não percebeu impactos concretos do avanço da demanda por alimentos ricos em proteína sobre suas vendas.
A avaliação de Müller, porém, trata-se de um movimento que ainda está em fase inicial e deve ganhar força nos próximos anos. "Achamos ainda que vai ter um reflexo um pouco para frente", afirma o executivo.
Muller também vê potencial para crescimento no mercado doméstico como um todo. No ano passado, as vendas internas da Pamplona somaram R$ 1,27 bilhão, equivalente a 50,3% do faturamento.
Embora o Brasil seja um dos maiores produtores e exportadores de carne suína do mundo, o CEO da companhia ressalta que o consumo doméstico ainda é considerado baixo quando comparado ao de outros mercados, e é justamente aí que enxerga uma das principais oportunidades de crescimento para a companhia.
"A Alemanha consome 55 quilos de carne suína per capita. Outros países da Europa um pouquinho abaixo. Já o Brasil consome 19 quilos per capita hoje e, em alguns estados, muito menos que isso", estima Muller.
Na avaliação do executivo, um aumento de apenas 1 quilo no consumo per capita no Brasil representaria uma demanda adicional de aproximadamente 220 mil toneladas de carne suína, volume superior ao que o país exporta em um mês – em junho, foram remetidas 132,4 mil toneladas de carne suína ao exterior, segundo a ABPA.
"O suíno é uma carne que tem grande oportunidade pela frente", avalia o CEO.
As exportações representaram 49,7% da receita operacional bruta da Pamplona em 2025. O mercado externo gerou R$ 1,26 bilhão em receita, enquanto o mercado interno respondeu por R$ 1,27 bilhão, equivalente a 50,3% do faturamento.
Ao todo, a Pamplona exporta seus produtos para 22 países. A Ásia concentra os principais destinos, com destaque para China, Japão, Filipinas, Coreia do Sul e Malásia.
Apesar dos desafios do mercado interno, Muller garante que a ideia é que as vendas internas continuem em proporção semelhante às exportações.
"Se a gente quisesse, houve momentos em que poderíamos ter saído do mercado interno e ir para o mercado externo e termos uma rentabilidade e lucratividade muito maior, mas não é a nossa estratégia abandonar o mercado interno. Nós achamos que ele tem um grande potencial", avalia.
Finanças confortáveis
Do ponto de vista financeiro, a companhia também vive momento positivo. A empresa reduziu sua dívida líquida em 2,3% no ano passado, somando R$ 329,6 milhões.
A alavancagem ficou em 2,0 vezes o Ebitda, nível considerado equilibrado para o setor de proteína animal. "A situação financeira da empresa é muito confortável", resume Ronaldo Muller.
Há dois anos, a companhia estreou no mercado de capitais do agro, com a emissão de um CRA de R$ 60 milhões, que foi encarteirado pela Kinea, passando a fazer parte do portfólio do KNCA11, o Fiagro da casa, com prazo de seis anos e vencimento em dezembro de 2029.
A Pamplona não pretende, no entanto, fazer uma nova emissão de CRAs ou outros títulos de dívida por ora.
"No momento não temos essa definição. Estamos revisando nosso planejamento estratégico e acompanhando diversas alternativas para sustentar o crescimento da companhia”, afirma Ronaldo Müller.
A companhia pretende continuar financiando a expansão com uma combinação de recursos próprios e linhas de crédito de longo prazo, principalmente aquelas com custos inferiores aos praticados pelo mercado.
"A gente vê uma Selic altíssima nesse momento, com níveis altos. Nós acompanhamos isso o tempo inteiro e a gente cuida muito para não ter uma empresa sem solidez nenhuma na frente", diz.
O CEO da Pamplona ressalta também que a queda de cerca de 35% no lucro líquido registrada em 2025 - que somou R$ 56,3 milhões, ante R$ 85,8 milhões em 2024 - ocorreu justamente porque a companhia optou por utilizar recursos próprios para financiar investimentos, evitando contratar dívidas em um período de juros elevados.
"Tiramos dinheiro do nosso caixa para fazer investimento, para não captar dinheiro no mercado com a Selic altíssima como estava", explica.
Resumo
- Pamplona Alimentos investirá R$ 150 milhões em 2026, amplia granjas, automatiza fábricas e prepara expansão orgânica
- Com novo CEO, empresa busca crescimento com aquisições, sem abrir mão de controle familiar e da disciplina financeira
- Companhia aposta na alta demanda por alimentos ricos em proteína e vê espaço para ampliar o consumo de carne suína no Brasil