A Kepler Weber começou 2026 como percorreu 2025: ainda convivendo com um cenário difícil para o produtor rural retomar investimentos. Apesar disso, os números do início do ano mostram que as agroindústrias, biocombustíveis e os negócios fora do Brasil funcionam como um colchão para amortecer a queda mais forte no segmento de fazendas - principal mercado da companhia.

No balanço referente ao primeiro trimestre de 2026, divulgado há pouco ao mercado, a fabricante líder no mercado de silos e soluções de armazenagem no País reportou uma receita líquida R$ 318 milhões, queda de 11% frente ao mesmo período do ano passado.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) somou R$ 33,7 milhões, baixa de 36% e com margem de 10,6% (no ano passado a rentabilidade era de 14,8%). O lucro líquido ficou em R$ 17,5 milhões no período, número 33% menor em um ano.

Apesar da retração, a administração avaliou o trimestre de forma positiva diante do ambiente de mercado.

“Ficamos satisfeitos com uma relativa manutenção da receita em vista de tudo que vemos no mercado. É um resultado satisfatório”, afirmou o CEO da companhia, Bernardo Nogueira, em conversa com jornalistas para apresentar os resultados.

Segundo ele, parte da queda está ligada à mudança do mix de projetos da companhia, além de uma diversificação nas linhas de negócio que ajudam a explicar a dinâmica do trimestre.

O segmento de fazendas, principal vertical da companhia e mais ligado diretamente ao produtor rural, teve queda de 34% na receita no trimestre, chegando a R$ 86,7 milhões. De acordo com Nogueira, quem "segura" esses resultados são os grandes produtores, em especial de regiões como o Mato Grosso e Matopiba.

"O agricultor 'médio para cima' tem gargalo e precisa investir, e nisso ele privilegia armazenagem. É um momento propício para compra", disse o CEO. 

A Kepler ainda vê o setor retraído ao longo do ano, mas acredita que numa intensidade menor do que os 34% visto de janeiro a março.

Por outro lado, a divisão de agroindústrias ganhou força no trimestre e deve continuar acelerando ao longo do  ano. Nogueira explicou que projetos ligados a biocombustíveis vêm puxando a demanda industrial, especialmente em etanol de milho, trigo e biodiesel.

“Diria que 50% do faturamento hoje do segmento de agroindústrias está relacionado direta ou indiretamente com biocombustíveis”, afirmou. Entre os destaques do período estão projetos ligados à gaúcha Be8 e à ampliação da planta de biodiesel da Cocamar.

A expectativa da companhia é de crescimento de dois dígitos nessa vertical no próximo trimestre e no comparativo anual, estimou o executivo.

Outro destaque do trimestre veio dos negócios internacionais, vertical que já vem se destacando há pelo menos três trimestres. O faturamento da operação somou R$ 60,2 milhões, alta de 47,1% na comparação anual.

A divisão registrou receita recorde para um primeiro trimestre, impulsionada principalmente por um grande projeto na Venezuela, cuja maior parte do faturamento foi reconhecida já neste início de ano.

Mesmo assim, a companhia não espera repetir o desempenho extraordinário nos próximos trimestres. “No ano não vemos esse segmento sobressalente. 2025 já foi grande, devemos ver uma normalização ao longo do ano. Se igualar, estaremos satisfeitos”, afirmou Nogueira.

Além da base de comparação difícil, o executivo cita o dólar mais baixo frente ao real como freio para repetir o visto no ano passado.

Na Argentina, porém, a companhia segue vendo expansão relevante. Ele cita que a receita com os hermanos saiu de zero em 2023 para US$ 1 milhão em 2024 e US$ 10 milhões no ano passado. Para 2026, a ideia é repetir o montante.

Por fim, o segmento de portos e e terminais teve receita de R$ 4,9 milhões, queda de 54%, e a área de reposição e serviços faturou R$ 61,2 milhões, 16% de retração em um ano.

Apesar do prognóstico difícil e retrato de um trimestre ainda em queda, o CFO da companhia, Renato Arroyo, destacou que a empresa conseguiu preservar margens mesmo com a queda de receita.

Segundo ele, os gastos administrativos e estruturais permaneceram praticamente estáveis frente ao ano passado, ajudando a amortecer os impactos da retração operacional.

O balanço mostra que as despesas com vendas totalizaram R$ 24,8 milhões no primeiro trimestre de 2026, representando 7,8% da Receita Líquida, e com queda de 2,1% em relação ao intervalo de janeiro a março do ano passado.

Somado a isso, a empresa gerou R$ 55 milhões de caixa no trimestre e encerrou março com posição líquida de caixa de R$ 57 milhões. “Isso ajuda a reforçar a resiliência da Kepler em gerar caixa mesmo no momento mais adverso”, afirmou.

A posição de caixa bruta (que não conta as dívidas de curto prazo), encerrou março em R$ 375,8 milhões, uma alta frente aos R$ 316,4 milhões vistos no fim de dezembro de 2025, trimestre imediatamente anterior. Em março de 2025, o indicador estava em R$ 356 milhões.

Os investimentos da companhia permaneceram próximos de R$ 15 milhões no trimestre, concentrados principalmente em tecnologia, novos produtos e sistemas digitais.

Segundo Arroyo, cerca de 26% do Capex foi destinado para tecnologia da informação, incluindo migração de sistemas SAP, cibersegurança e inteligência artificial.

Resumo

  • Receita da Kepler cai 11%, para R$ 318 milhões, e lucro recua 33%, somando R$ 17,5 milhões no trimestre
  • Segmento de fazendas afunda 34%, mas agroindústrias avançam puxadas por projetos de biocombustíveis
  • Operação internacional cresce 47% e ajuda a amortecer fraqueza do mercado doméstico