Falar de supersafra é sempre uma faca de dois gumes. De um lado, o País comemora o avanço da produção e o reforço na balança comercial. Do outro, precisa encarar velhas dores logísticas que há décadas assombram as empresas, sobretudo do agronegócio.
É nesse contexto que o unicórnio Frete.com (dono das marcas Fretebras e CargoX), maior marketplace de transporte rodoviário de cargas da América Latina, se reforçou para a nova temporada. A companhia anunciou no início de janeiro que fechou a entrada da XP como nova investidora em seu braço de crédito, em um aporte de R$ 150 milhões via um FIDC voltado a transportadoras.
O cheque marca uma nova etapa de expansão do programa de crédito da empresa, criado em 2023 e estruturado inicialmente com o BTG Pactual e a gestora Polígono Capital.
Agora, com a XP ocupando integralmente a tranche sênior do fundo, a Frete.com ganha fôlego para acelerar uma operação que já se tornou estratégica dentro do ecossistema da companhia.
“O investimento da XP comprova a qualidade do modelo de crédito que desenvolvemos e o impacto positivo que ele vem gerando para o setor de transporte rodoviário”, disse Eduardo Jotha, head de gestão de fundos da Frete.com e responsável pela vertical de investimentos da empresa, em entrevista ao AgFeed.
Segundo ele, a ideia é utilizar esse valor para fortalecer o fluxo de caixa das transportadoras em um momento de grande demanda no setor. A companhia encerrou 2025 com R$ 600 milhões em volume de crédito concedido a transportadoras e projeta ultrapassar R$ 1,5 bilhão ao longo de 2026, um aumento de quase três vezes em um ano.
A expectativa é atender cerca de mil transportadoras neste ano, mas o potencial envolve um universo muito maior: o marketplace Fretebras, controlado pela companhia, reúne mais de 25 mil empresas de transporte e cerca de 900 mil caminhoneiros cadastrados, responsáveis por movimentar aproximadamente R$ 80 bilhões em fretes por ano.
O avanço do crédito caminha lado a lado com o quanto o próprio agronegócio representa dentro da plataforma, segundo contou o CEO da Frete.com, Federico Vega.
Hoje, o agro já responde por cerca de metade de todas as cargas movimentadas pela Fretebras — percentual que chega a se aproximar de 60% no primeiro trimestre, no pico do escoamento da safra. A supersafra de grãos da temporada 2025/2026 deve fazer o transporte crescer em 20% no volume transportado em 2026 frente ao ano anterior dentro da empresa.
"O mercado de transportes opera com uma margem baixa e a maioria das empresas tem problemas de captação de crédito, porque os bancos são mais especializados no varejo, entendem pouco do setor", disse Vega. Essa expertise no setor se refere a dinâmicas específicas, de acordo com o executivo, como por exemplo risco de fraude.
É aqui que a Frete.com engata a marcha e acelera, aproveitanado o ecossistema criado a partir dos clientes e histórico de dados para mitigar os riscos.
"A empresa que capta usa o dinheiro para pagar o caminhoneiro num sistema todo verifcado por nós, que monitoramos o motorista e as cargas. O ambiente fechado traz um risco menor e, com isso, ofertamos crédito com juros menores do que nos bancos tradicionais", acrescentou o CEO.
Na prática, o produto vai além da simples antecipação de recebíveis. Em muitos casos, o caminhoneiro recebe uma parte do valor no momento do carregamento e pode antecipar o restante via crédito dentro da plataforma. Eduardo Jotha contou que a Frete.com verifica, mensalmente, mais de 100 mil caminhoneiros.
Em conversa anterior de Vega com o AgFeed, no início de 2025, o cenário macro era parecido. O Brasil estava prestes a colher outra supersafra e parte da estratégia da companhia para esse momento foi investir em IA.
Na ocasião, a companhia vinha de um ciclo de investimentos de R$ 800 milhões em três anos adicionando funcionalidades em seus softwares, e a aplicação da inteligência tem muito a ver com esse ecossistema que a empresa tem plugado os serviços financeiros.
A ideia de colocar a IA no negócio serviria para trazer mais eficiência, segurança e redução de custos, de acordo com Federico Vega, na época.
A companhia não entra em detalhes, mas cita que a concessão de crédito na empresa tem crescido com "níveis de inadimplência bastante controlados". E com a nova rodada, a ambição da Frete.com é clara: tornar-se uma espécie de infraestrutura financeira do transporte rodoviário no Brasil.
"O objetivo é se transformar no maior parceiro financeiro do mercado de transportes. Seja no agro ou fora dele, somos hoje o 'maior banco do caminhoneiro", diz o CEO.
Federico Vega cita que, hoje, grandes transportadoras do agronegócios são clientes da empresa e que mesmo as líderes de mercado - que conseguem dinheiro nos bancos - estão captando com a Frete.com pelo risco de fraude menor. "O risco de crédito acaba sendo o mesmo, mas o banco não tem capacidade de gerir os outros riscos como nós".
"A gente se enxerga hoje mais como uma infraestrutura para o mercado de transporte de caminhões. Plataforma que conecta caminhão para carga tem muitas", acrescentou.
Investidores que pressionam a balança
A chegada da XP como parceiro estratégico só aumenta o hall de grandes corporações que apostam na Frete.com.
O grupo nasceu em 2013, quando o argentino Vega criou a CargoX. Oito anos depois, se juntou às outras duas companhias para formar a holding. Foi ai que a companhia atingiu o status de unicórnio, ou seja, atingiu mais de US$ 1 bilhão em valor de mercado.
Os números robustos operacionais são ancorados por um histórico também robusto, recheado de investidores de primeira prateleira.
A empresa já captou R$ 2,2 bilhões desde sua fundação e atraiu nomes como Softbank, Tencent, BTG Pactual, Goldman Sachs, Jeb Bush (ex- governador da Flórida), Reid Hoffman (fundador do LinkedIn) e Oscar Salazar (co-fundador do Uber).
Foi na rodada do tipo Série F, em 2021, que a empresa recebeu investimentos do Softbank, BTG e da chinesa Tencent e se tornou unicórnio. O banco de André Esteves, para além do aporte, ajudou a estruturar o FIDC e a vertical de crédito dentro da companhia. Hoje, a companhia é avaliada em mais de R$ 6 bilhões.
Resumo
- A XP entrou com R$ 150 milhões no FIDC da Frete.com, reforçando um programa de crédito que fechou 2025 com R$ 600 milhões concedidos e mira mais de R$ 1,5 bilhão em 2026
- O agronegócio responde a mais da metade das cargas transportadas por ano, e a companhia projeta crescimento de 20% no volume transportado em 2026
- Com uso intensivo de dados e IA, a empresa oferece crédito com risco menor e juros mais baixos, apoiada em um ecossistema que conecta 25 mil transportadoras e 900 mil caminhoneiros