Sergio Saurin, CEO da Massari Fértil e Morro Verde, é matemático de formação e fez carreira no mercado financeiro, tendo chegado à posição de diretor do Itaú BBA. Mas há 15 anos ele calçou botinas disposto a dar passos firmes em um universo bem diferente, o do agronegócio.
E decidiu empreender olhando para onde tudo começa: o solo. Fundou a Massari Fértil, uma empresa voltada a encontrar soluções para o histórico déficit nutritivo das terras brasileiras e mergulhou nas pesquisas em busca de conhecimento sobre o mercado de fertilizantes.
Uma década e meia depois, ele continua caminhando, agora na direção de ser um protagonista desse segmento. Mas seguindo uma rota alternativa, com discurso e prática que o colocam quase que na contramão em relação a alguns dos principais players do setor.
“Nós estamos fazendo o contrário do mercado: outros estão deixando de investir, fechando unidades — e nós estamos investindo”, afirma Saurin, em entrevista ao AgFeed.
De fato, em um momento em que outras companhias anunciam desinvestimentos, paralisando fábricas e reestudando estratégias por conta de preços voláteis, a Massari acelera na direção oposta.
Em pouco mais de seis meses, depois de concluir a fusão com a Morro Verde, a companhia dobrou sua capacidade de produção de fosfato natural reativo na unidade de Pratápolis (MG), saltando de 500 mil para 1 milhão de toneladas de produto final — e já projeta chegar a mais de 1,5 milhão de toneladas nos próximos meses.
A meta de faturamento acompanha o ritmo. Quando decidiram pela união, as duas empresas juntas somavam cerca de R$ 500 milhões em receitas. Saurin declara, em alto e bom som, que pretende levá-las ao patamar de R$ 1 bilhão em três anos.
Enquanto boa parte da indústria de fertilizantes enfrenta pressão generalizada em função de preços elevados de insumos, instabilidade geopolítica e dependência externa, Saurin conduz a Massari com aposta na tese oposta.
“O maior desafio do Brasil não é apenas o preço do fertilizante — é garantir o abastecimento. Segurança alimentar começa pela segurança de insumos”, diz.
Para o executivo, um dos maiores equívocos do debate sobre fertilizantes no Brasil é a ideia de que o país carece de recursos minerais.
“O Brasil possui recursos minerais. E o desafio, na verdade, não é nem encontrar reservas. É encontrar a forma de transformá-la em capacidade industrial”, afirma.
É justamente essa convicção que está na origem da fusão com a Morro Verde. A Massari enxergou na jazida de Pratápolis, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, a 150 km de Ribeirão Preto, que pertencia a sua nova sócia, a oportunidade de provar sua tese a partir de uma reserva já mapeada.
Os primeiros investimentos para a expansão foram feitos com recursos próprios, superiores a R$ 40 milhões. O capital foi aplicado em retrofit das instalações existentes e na incorporação de novas tecnologias de moagem e beneficiamento.
A virada começou no início de 2026. A união das duas companhias juntou a capacidade de formulação da Massari — que possui mais de 500 formulações aprovadas no MAPA — com o ativo mineral da Morro Verde, localizado em uma posição considerada estratégica para atender os cinturões agrícolas de Minas, São Paulo e Triângulo Mineiro.
A jazida da Morro Verde possui mais de 100 milhões de toneladas de fosfato natural reativo para exploração, em uma formação geológica que Saurin classifica como “quase única” — além do fósforo, a mesma jazida oferece calcário dolomítico, silicato de magnésio e silicato de potássio.
A partir dessa diversidade de matérias-primas, a Massari Morro Verde lançou 15 novos produtos desde a fusão. O carro-chefe é o DGMS FNR, sigla que identifica o composto dolomítico micronizado com enxofre mais fosfato natural reativo. Segundo Saurin, o produto permite, em uma única aplicação, fornecer cálcio, magnésio, enxofre e fosfato ao solo.
Farmácia de manipulação do agro
A Massari se posiciona como uma “farmácia de manipulação do agro” — analogia usada pelo próprio Saurin. Segundo ele, a proposta da empresa é desenvolver formulações sob medida a partir da análise de solo de cada cliente, em vez de oferecer produtos padronizados.
“Nós não precisamos usar mais fertilizantes. Nós precisamos usar o fertilizante certo”, resume.
A estratégia técnica da Massari traz embutida a visão de Saurin sobre o modelo tradicional de correção do solo praticado no Brasil.
“Hoje a agricultura brasileira é baseada no modelo feito no passado, que passa basicamente por utilizar produtos como calcários que não promovem uma real correção do perfil do solo em profundidade”, explica Saurin.
Segundo ele, não se trata de uma crítica, já que esse foi um modelo de sucesso, que levou o Brasil à condição de potência agrícola que tem hoje. Mas que Saurin entende não ser mais adequado para os próximos desafios que o País deve enfrentar no setor.
A tese da empresa é que o calcário convencional, aplicado de forma superficial, não consegue corrigir o pH em profundidade — e, sem essa correção, os nutrientes já presentes no solo permanecem indisponíveis para as plantas.
O resultado, de acordo o executivo, é uma ineficiência gigantesca: “Dizem que nós temos 100 bilhões de dólares em fertilizantes nos solos brasileiros que não foram solubilizados. Por isso a micronização”.
A solução proposta pela Massari tem no seu centro esse processo industrial que reduz as partículas a uma dimensão de 325 mesh (ou seja, capazes de passar por uma “peneira com 325 furinhos por polegada”, segundo definiu Saurin), permitindo que os produtos desçam no perfil do solo sem necessidade de revolvimento mecânico.
“As plantas não comem, elas bebem. Tem que solubilizar (os fertilizantes)”, diz ele, explicando a lógica da micronização.
Na prática, prossegue, a correção em profundidade liberaria os nutrientes já comprados e pagos pelos agricultores brasileiros, ao mesmo tempo que criaria condições para que as rochas tropicais brasileiras — com menor concentração de elementos como fósforo e potássio, mas de liberação mais lenta e gradual — funcionem como uma espécie de “poupança” de nutrientes para as culturas.
Estratégia de crescimento e presença nacional
Além da jazida de Pratápolis, incorporada com a fusão com a Morro Verde, a Massari mantém operações em Salto de Pirapora (SP), joint ventures no Tocantins e Mato Grosso do Sul, uma terceira em fase de conclusão no Mato Grosso e estudos de oportunidades no Sul do País.
A empresa também pesquisa novas reservas de fósforo e potássio e avalia o aproveitamento de subprodutos de outras indústrias — como os resíduos da produção de biogás e camadas de xisto — para transformá-los em fertilizantes minerais mistos.
No ano anterior à fusão, as duas empresas investiram juntas R$ 80 milhões. A projeção é manter investimentos anuais superiores a R$ 50 milhões para sustentar a expansão.
“O nosso objetivo é continuar investindo em ampliar a capacidade produtiva e fortalecer o agronegócio e a oferta nacional”, afirma Saurin.
Em um mercado global de fertilizantes mais restritivo — com China e Rússia sinalizando redução de oferta e Estados Unidos ampliando capacidade própria —, a Massari aposta justamente naquilo que, de acordo com o executivo, o Brasil historicamente negligenciou: o processamento de suas próprias rochas.
“Quem produz fertilizante no Brasil fortalece toda a cadeia do agronegócio”, defende.
“O futuro da fertilidade tropical não será apenas aplicar mais — será aplicar melhor. Nós temos que parar não só de importar fertilizantes, mas reduzir a necessidade e implementar uma forma complementar com aquilo que temos aqui no Brasil, que é totalmente possível.”
Se a tese da Massari se confirmar em escala, a empresa pode não apenas atingir o bilhão de receita, mas também se tornar um caso emblemático de como a verticalização mineral pode fortalecer a competitividade do agronegócio brasileiro.
Resumo
- Massari Fértil dobrou a capacidade de produção após fusão com a Morro Verde e mira R$ 1 bilhão em receita
- Empresa investe em fertilizantes nacionais para reduzir a dependência de importações e ampliar a oferta ao agro
- Estratégia aposta em inovação, micronização e correção profunda do solo para elevar produtividade e eficiência agrícola.