O começo de 2026 não tem sido fácil para a indústria de máquinas agrícolas, que voltou a registrar queda de dois dígitos nas vendas, após ter visto uma leve recuperação no final do ano passado.

Faltando poucos dias para a feira considerada a maior do setor – a Agrishow, em Ribeirão Preto – as fabricantes mostram que não desanimam e colocam o arsenal em campo para tentar conquistar o cliente que, nos últimos anos, andou bastante receoso.

O AgFeed acompanhou uma parte da programação do Massey Ferguson Experience, um evento para apresentar alguns dos lançamentos da multinacional que serão levados à Agrishow e também para o “test drive” das máquinas pelos clientes e até por jornalistas convidados.

Vanderlei Micheleti, produtor de grãos e citros em Itápolis, interior de São Paulo, foi com a família ver de perto as novidades.

“Este ano é de margens curtas. No ano passado não comprei máquinas na Agrishow, porque há dois anos tinha investido num silo na fazenda, ainda tinha esse compromisso”, contou ele, ao AgFeed.

Apesar do tom de cautela, quando perguntado se esse ano pretende fazer uma nova compra ele respondeu: “Estamos tentando aí, talvez inovar em algum trator ou plantadeira, trocar as mais antigas, pegar algo mais moderno”.

É aí que mora a esperança dos vendedores da Massey que lá estavam. Para os grãos, setor que mais vem recuando na comercialização, a principal aposta é a alta tecnologia.

A Massey Ferguson está lançando um trator “gigante” para os moldes em que atuava até então. A marca passa a atuar no segmento de alta potência, com a chegada do trator MF 9S, disponível até 425 cv.

O novo trator é produzido na França, já havia sido lançado na Agritechnica, na Alemanha, mas só agora ficaram prontas as adaptações necessárias ao mercado brasileiro. O foco são produtores de soja, milho e algodão, principalmente do Centro-Oeste, mas o trator também é indicado para a cultura da cana.

O MF 9S passa a ser a máquina mais cara da Massey Ferguson, podendo custar R$ 2,5 milhões, dependendo do modelo ou região. O mais potente e mais caro até então era o 8700, de 370 cv, que saia por até R$ 2 milhões.

“Nos mercados que estão bons vamos focar mais ainda e para o mercado que está ruim vamos trazer os lançamentos, afinal nada melhor do que num ano de queda para a indústria estar mostrando novidade. Esperamos aumentar as vendas em alguns segmentos, porque neste, por exemplo, a gente ainda não participava”, disse Lucas Zanetti, gerente de marketing de produto da Massey Ferguson, em entrevista ao AgFeed.

Ele admite que neste início de ano a empresa também teve queda nas vendas, porém não tão intensa quanto os números divulgados para o mercado em geral. Os dados da Abimaq indicam que houve um recuo de 17% nas vendas de máquinas agrícolas no primeiro bimestre de 2026, comparado ao mesmo período do ano passado.

Zanetti está otimista para que a empresa siga performando melhor que o mercado e consiga pelo menos um “balanço equilibrado” no ano, principalmente pelo bom momento de outras atividades, como a pecuária, que estaria gerando alta nas vendas de baixa potência e a cana-de-açúcar, que garante demanda para máquinas maiores.

Economia de combustível

Em tempos de margens apertadas entre os produtores e insumos agrícolas ficando cada vez mais caros – a guerra só piorou o cenário de alta para adubos, defensivos e óleo diesel –, a Massey Ferguson decidiu reforçar o apelo de que as novas tecnologias podem gerar economia.

Na demonstração do trator de alta potência feita aos jornalistas em Bebedouro (SP) foi apresentada também uma nova versão da plantadeira Momentum, de 30 a 40 linhas.

“As dores do cliente são reduzir custo e aumentar eficiência operacional para ter uma maior rentabilidade.  Ela (a plantadeira) tem um design com capacidade maior, daí o cliente para menos vezes para abastecer, tanto de adubo quanto de semente.  E com mais tecnologia você consegue ter uma velocidade um pouco maior de plantio”, explicou o gerente da Massey.

O diferencial seria justamente a possibilidade de economizar até 30% de óleo diesel, dependendo do modelo e do tipo de cultivo.

Num cenário onde o diesel representa, em média, 20% do custo de produção agrícola nos grãos, Zanetti disse ao AgFeed que os produtores passaram a prestar mais atenção nas informações que envolvem consumo de combustível.

Ele explica que a Massey Ferguson trabalha exclusivamente com motores agrícolas – diferente de algumas marcas no mercado – que tem rotação mais baixa em relação ao rodoviário, gerando o menor uso de diesel.

A empresa fala em 40 litros por hora, enquanto outras marcas gastariam 65 litros. “Mas tudo depende do implemento, solo, velocidade”, ressaltou. A expectativa seria de uma máquina até 15% mais rápida.

O uso de tecnologias digitais acopladas às máquinas, como as soluções da PTX, que também pertence ao mesmo grupo AGCO, é apresentado como mais uma ferramenta para monitorar o uso racional dos insumos.

Etanol e biodiesel estão a caminho

Na Agrishow 2026 a Massey Ferguson levará um motor a etanol. Será o primeiro passo para o lançamento – possivelmente no ano que vem – de um primeiro trator movido a esse biocombustível.

Na conversa com o AgFeed, Lucas Zanetti disse que as máquinas já vinha rodando há dois anos, em fase de testes, com o etanol. Porém está havendo uma mudança de portfólio e foi necessário adaptá-las novamente ao biocombustível.

Quando for tudo validado, a expectativa é que seja apresentado um trator de média potência movido a etanol.

Se estivesse sendo comercializado, em tempos de diesel caro, o etanol já estaria valendo a pena? Foi o que perguntamos ao executivo da Massey.  “Na máquina anterior, se fizéssemos a conta agora, já seria financeiramente viável, ainda não temos os cálculos do custo de manutenção e vida útil do motor, mas o valor por hora já é viável”, respondeu.

O mercado também aguarda uma atualização dos modelos da Massey Ferguson para que funcionem com 100% de biodiesel. Hoje todos já rodam com o mandato obrigatório no País – que é a mistura de 15% - e há produtores que, por conta própria, já chegam a rodar com o B50.

“Antes da injeção eletrônica o trator já era preparado (para o B100), agora estamos fazendo testes para liberar novamente”, explicou Zanetti.

Resumo

  • Massey Ferguson projeta aumentar vendas com a entrada no segmento de tratores de alta potência
  • Empresa confirma recuo nas vendas no início de 2026, com queda nos grãos, mas vê cenário positivo para pecuária e cana
  • Fabricante de máquinas agrícolas vai apresentar novo trator importado na Agrishow, além de um motor a etanol

Nova versão de plantadeira da Massey Ferguson