Um documento protocolado na terça-feira, 7 de julho, na 17ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná, deveria ser mais um recurso da Lavoro Agro Holding S.A. em sua luta pela sobrevivência.
Mais do que isso, entretanto, a petição, assinada pelos advogados Flávio Galdino, Isabel Picot França e Rodrigo Saraiva Porto Garcia e obtida pelo AgFeed, revela detalhes da nova estratégia traçada pelos novos controladores daquela que já foi uma das maiores redes de distribuição de insumos do País para tentar tirá-la de um atoleiro de mais de R$ 2,5 bilhões em dívidas.
Agora sob o comando da Arcos Gestão e Investimento (AGI), empresa especializada na compra e reestruturação de negócios em crise, a Lavoro indica, através de seus advogados, o início de uma nova fase de ajustes, ainda mais profunda do que a iniciada há cerca de um ano, com o recurso a um processo de recuperação extrajudicial.
Agora, segundo aponta o documento, está prevista mais uma leva de fechamento de lojas e demissões, após a transferência definitiva da sede de São Paulo para Ponta Grossa, no Paraná, transformando a companhia de ambições nacionais em um player regional com um porte que não chega a 10% do que já foi.
E, crucial para a estratégia – e por isso central na petição – a extinção da recuperação extrajudicial (RE), que corre na justiça paulista, e sua substituição por um processo de recuperação judicial (RJ) no Paraná, já tendo como premissa essa empresa radicalmente menor e mais enxuta.
A reestruturação via RE foi articulada ainda na gestão anterior da Lavoro, sob controle da gestora Patria Investimentos. O processo foi iniciado em junho de 2025, com o plano de recuperação sendo homologado em novembro, com apoio de 63% dos credores, inclusive grandes companhias como Adama, UPL, FMC, Ourofino, Basf e Eurochem.
Com a troca de comando, com a compra da companhia pela AGI em março passado, a nova direção da empresa passou a entender, segundo aponta o documento protocolado na justiça, que o plano de RE “não se mostrou suficiente para aplacar a crise financeira do Grupo Lavoro”.
“Transformação radical”
Os advogados da empresa argumentam que a reorganização do passivo com os fornecedores “foi calculada sobre uma operação que ainda não fora redimensionada ao seu tamanho ideal, pois tanto a estrutura de dívida quanto de capital, alocação de recursos e de estrutura corporativa ainda permaneceram dimensionados para uma companhia bilionária”.
E prosseguem dizendo que “os ajustes que começaram a ser realizados nesse período foram o início de uma transformação ainda mais radical que seria necessária para voltar a tornar a empresa lucrativa”, sendo, então necessária, “uma reorganização estrutural”.
Um dos primeiros movimentos dessa reorganização foi a mudança de sede. Os três diretores remanescentes na estrutura da companhia foram deslocados de São Paulo para Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais, no Paraná. De acordo com o exposto no documento, teria sido “a escolha natural e óbvia” a partir da observação e da projeção de dados operacionais e de faturamento.
“A região reúne condições estratégicas que tornam a operação mais rentável e defensável diante desse quadro”, diz o texto. Para reforçar o discurso, o documento traz dados de faturamento que mostram a diferença entre as operações paulista e paranaense.
Na safra 2025/2026, segundo a empresa, as lojas do Paraná geraram R$ 410,5 milhões em receita, contra apenas R$ 49,4 milhões das unidades de São Paulo. Esses números acentuam uma tendência que já se verificava antes da RE, na safra anterior (2024/2025). Naquele ciclo, foram R$ 1,051 bilhão no PR contra R$ 456,6 milhões em SP.
No discurso e na prática, o redimensionamento da Lavoro vem ocorrendo de forma rápida nos pouco mais de três meses de gestão da AGI. O grupo, que já chegou a operar mais de 200 unidades e empregar mais de 3 mil funcionários em seus melhores momentos, caminha para se tornar uma pequena fração do que foi em seu melhor momento.
Segundo o documento explicita, no momento do ajuizamento da cautelar em que pede para transferir o foro de seu processo de reestruturação para o Paraná, a empresa já havia “operado uma redução drástica no número de lojas deficitárias da região Sudeste – de 43 lojas com receita de aproximadamente R$ 1,4 bilhão na safra 2024/2025 para 25 lojas com receita de R$ 276 milhões, somando São Paulo e Minas Gerais.
E mesmo essas 25 filiais estão com seus dias contados. “As poucas lojas situadas em São Paulo já estão em vias de serem fechadas, diante de resultados negativos constantes que apenas trazem prejuízo”, informa o documento, confirmando informação que havia sido antecipada, na terça-feira, pelo site CNN Agro.
Segundo texto, a decisão de encerrar as lojas está relacionada a uma estratégia comercial para reduzir custos e potencializar o retorno obtido da atividade. “Afinal, as lojas fechadas custavam de 2 a 3 vezes mais do que as lojas que serão mantidas, ao mesmo tempo em que, em razão da pouca produtividade, respondiam por expressivos 84% de todo o prejuízo operacional da companhia”.
O mesmo deve ocorrer, de acordo com o indicado no documento, com as lojas remanescentes de outros estados, como Minas Gerais e Goiás. A projeção do Grupo Lavoro é manter apenas 13 endereços, todos no Paraná.
Da mesma forma, toda a força de trabalho da companhia estará concentrada em território paranaense, o que acarreta na continuação do processo de demissões em outros estados e até no próprio Paraná.
A Lavoro emprega hoje, segundo o documento, 615 funcionários, distribuídos entre Paraná (374), São Paulo (90), Minas Gerais (48) e Goiás (44), além de outros estados (29).
O plano da empresa é reduzir esse quadro para 350 colaboradores. Isso significa a eliminação de cerca de 265 postos de trabalho, uma redução de 43% da força de trabalho atual.
Do acordo ao litígio
A petição argumenta que esse encolhimento é uma condição para a sobrevivência do grupo e que a mudança do centro de decisões da empresa para o Paraná está relacionado justamente à estratégia de se concentrar em sua região mais rentável.
Alguns de seus credores, entretanto, veem nesse movimento a busca de um foro mais favorável para à intenção de transformar a RE em RJ, o que mudaria os termos das negociações que haviam garantido a homologação do plano de reestruturação no ano passado.
Pelo plano de recuperação extrajudicial aprovado, a Lavoro havia se comprometido a fazer aos credores apoiadores pagamentos em parcelas semestrais dos valores devidos, sem deságio e com correção pelo IPCA, até o ano de 2030. E para aqueles que não haviam concordado com o plano, a previsão era de um único pagamento, com 50% de desconto e correção pela inflação, em 2032.
O que a empresa afirma agora é, através de uma medida cautelar, ganhar uma proteção judicial por 60 dias para elaborar e negociar uma nova proposta com os credores, certamente em condições mais duras e com maiores deságios.
No início de junho, a Lavoro já havia feito uma primeira tentativa para transferir o processo de recuperação para o Paraná. Esbarrou, no entanto, em uma decisão da juíza Luciane Pereira Ramos, da 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba.
Em 12 de junho, a magistrada atendeu a um pedido de uma credora, a seguradora Tokio Marine, e declarou a incompetência do juízo paranaense, determinando a remessa do caso para a 2ª Vara de Falências de São Paulo.
A juíza argumentou que a regra de prevenção da lei que regulamenta processos de recuperações judiciais e falências impedia Curitiba de julgar o caso, já que a Lavoro havia iniciado uma recuperação extrajudicial anterior na capital paulista.
Ela também acolheu a tese de que a mudança de endereço poderia caracterizar "forum shopping" — a prática de escolher um tribunal mais favorável.
A Lavoro recorreu, alegando que o processo de RE na capital paulista já estaria sentenciado com a homologação do plano de recuperação extrajudicial. “A homologação do plano marca o encerramento do processo de recuperação extrajudicial, restando o acordo descumprido como título exequendo oponível pelo credor que se sentir lesado”, defenderam os advogados da empresa.
Segundo eles, o agravamento da situação da empresa no curso do processo de RE justificaria a busca por uma nova proteção na justiça. “Nesse ínterim, a situação do devedor poderia se alterar completamente, ocorrendo mudança fática do principal estabelecimento e ser necessário ajuizamento de outra recuperação extrajudicial, de uma recuperação judicial ou de uma tutela cautelar”, apontam.
Teria sido, como eles admitem, o caso da Lavoro, que, já nos primeiros meses após a homologação do plano, não estaria cumprindo as obrigações assumidas.
Após esse recurso, a Lavoro obteve uma vitória parcial no TJ-PR, que. A relatora, desembargadora substituta Ana Paula Kaled Accioly Rodrigues da Costa, negou o pedido de efeito suspensivo feito por outra credora, a UPL do Brasil, e reconheceu que, em análise preliminar, a competência de Curitiba é válida.
Uma das apoiadoras do primeiro plano de RE, a UPL buscou, então, novo recurso, questionando a decisão que concedeu a proteção à Lavoro. Além disso, a indústria de insumos defendeu a conversão da RE em falência da Lavoro, afirmando que o grupo não teria viabilidade econômica e o plano anterior de recuperação extrajudicial já havia descumprido, mas mais uma vez teve seu recurso negado.
A decisão do TJ-PR manteve a suspensão de 60 dias das execuções contra o Grupo Lavoro, permitindo que seja feita uma mediação com os credores. O pedido de tutela cautelar antecedente, protocolado em 29 de abril pela companhia, prevê a conversão em recuperação judicial ao final desse prazo caso a mediação com os credores não produza um acordo.
A petição do dia 7 de julho reforça os pedidos anteriores: suspensão de execuções, bloqueios e cobranças, quebra das travas bancárias (para liberar recursos retidos pelos bancos), impedimento do vencimento antecipado de contratos, e manutenção do sistema SAP, apontado como essencial para as operações do grupo.
A Lavoro também pediu que todo o processo corra em segredo de justiça, para evitar o agravamento da crise de confiança entre fornecedores e clientes. Mas é possível que a batalha jurídica sobre o foro ainda tenha outros desdobramentos, com novos recursos.
Outro front jurídico
Já em outra frente, a UPL também moveu ações questionando a transferência do controle da Lavoro para a Volterra Participações, veículo constituído pela gestora AGI, entre outras reorganizações societárias em empresas que pertenciam ao mesmo grupo antes da negociação com os novos donos da rede de distribuição.
A UPL pediu acesso aos documentos das operações para verificar sua estrutura e seus impactos sobre os credores. O pano de fundo dessa ofensiva é o fato de que a troca de controle da Lavoro — originalmente controlada pela holding americana Lavoro Limited, ligada ao Patria Investimentos — teria ocorrido sem a anuência prévia dos titulares de CRAs, o que, para a UPL, configuraria mais um descumprimento contratual.
Nesse caso, o alvo da ação não é a empresa operacional, Lavoro Holding, mas o Patria e empresas e entidades como Lavoro Uruguay, TriAgro, Crop Care, Araci e FIP Capital Crescente, ligados à gestora.
Procurado pelo AgFeed, o Patria enviou nota em que afirma "não comenta processos judiciais em andamento”.
“Em relação à Lavoro, empresa do portfólio de um dos fundos geridos pelo Patria e que vendeu a sua subsidiária brasileira em março deste ano, a gestora esclarece que esta companhia sempre contou com administração profissional e independente e estrutura própria de governança, sendo responsável pelas suas operações e negociações com os seus credores. A gestora reforça ainda que conduz todas as suas atividades em conformidade com a legislação e sob rigorosos padrões de compliance e governança corporativa", complementa a nota.
A UPL também foi procurada, mas informou que não se pronunciaria sobre os casos. Já a AGI afirmou que não tem relação com os casos referentes as ações que questionam as operações das empresas do Patria.
Resumo
- Lavoro muda estratégia e tenta trocar recuperação extrajudicial por recuperação judicial
- Empresa planeja fechar mais lojas e reduzir força de trabalho de 615 para cerca de 350 funcionários
- Nova estrutura deve contar com apenas 13 filiais, com operações concentradas no Paraná para viabilizar a retomada.