Enquanto o mercado brasileiro de máquinas agrícolas atravessa o terceiro ano consecutivo de dificuldades em 2025, a JCB encontrou no campo um caminho para crescer.

Tradicionalmente associada à chamada “linha amarela”, a fabricante britânica de equipamentos de construção tem ampliado sua presença no agro - e colhido resultados em um momento de cautela do setor.

Em 2025, a operação brasileira da JCB cresceu 7,1% em relação a 2024, considerando o período de janeiro a outubro, e ganhou participação de mercado, mesmo em um cenário marcado por juros elevados, restrição de crédito e menor apetite por investimentos.

De acordo com Adriano Merigli, presidente da JCB para a América Latina, o crescimento foi impulsionado por setores para além da construção civil, incluindo o agro, que também teve um avanço nas vendas de mesmo patamar.

O desempenho mostra maior aceleração frente a um mercado de máquinas agrícolas ainda se ajustando, e que, segundo estimativas da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), deve voltar a crescer cerca de 3,5% neste ano, depois de cair, por dois anos consecutivos, na faixa de dois dígitos.

“O agro sempre foi fundamental para a JCB. A empresa nasceu do setor há 80 anos na Inglaterra. Mesmo hoje, o agro representa algo entre 15% e 20% do nosso negócio, tanto globalmente quanto no Brasil", disse Merigli ao AgFeed.

A empresa não costuma divulgar seus números globais, e o último documento disponível no site da empresa, datado do início de 2024 cita um faturamento de 6,5 bilhões de euros em 2023.

A leitura da companhia é que, embora o produtor tenha segurado investimentos em máquinas tradicionais de plantio e colheita, há espaço crescente para equipamentos voltados à infraestrutura da fazenda.

Retroescavadeiras, pás carregadeiras, manipuladores telescópicos e compactadores passaram a ser usados em operações como preparo de solo, construção de estradas internas, curvas de nível, movimentação de grãos, big bags e alimentação de colheitadeiras, ele conta.

“São máquinas que não estão diretamente ligadas ao plantio ou à colheita, mas fazem parte do dia a dia da fazenda. O agro precisa movimentar material, manter estradas, operar armazéns, cuidar da logística interna”,  afirmou Merigli.

O executivo calcula que das cerca de 32 mil máquinas de linha amarela vendidas anualmente no Brasil, aproximadamente 4,1 mil têm como destino o agronegócio. No caso da JCB, a presença é pulverizada entre os principais polos agrícolas, como São Paulo, Centro-Oeste, Triângulo Mineiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Matopiba.

Olhando para o portfólio, um dos focos estratégicos da JCB tem sido avançar no mercado agrícola com seu manipulador telescópico, equipamento que a empresa criou e no qual detém cerca de 80% de participação de mercado no Brasil, ainda que inicial.

A máquina permite uma elevação hidráulica mais versátil. A estrutura física é semelhante a de uma empilhadeira, mas com uma lança telescópica que se estende para frente e para cima, permitindo alcançar maiores alturas e distância

Na avaliação do executivo, trata-se de uma tecnologia que tende a substituir soluções improvisadas, como tratores com pá frontal, empilhadeiras ou pás carregadeiras em atividades de movimentação.

“Na Europa, Estados Unidos e Austrália, muitas fazendas já usam esse manipulador telescópico como substituto de outros equipamentos - empilhadeira e pá carregadeira - por ser mais versátil. No Brasil, ainda é um conceito em aprendizado”, afirma.

Outro destaque é o crescimento de máquinas compactas no agro, como mini carregadeiras, usadas em aviários, confinamentos e operações de limpeza na pecuária.

Para sustentar essa expansão, a empresa vem ajustando sua estratégia comercial. Nos últimos 18 meses, a JCB passou a estruturar uma rede de distribuição agrícola independente da linha de construção, com concessionários dedicados ao agro ou híbridos, muitas vezes já ligados a marcas tradicionais de máquinas agrícolas, como da AGCO, que passam também a vender os produtos da empresa.

“Hoje temos 64 pontos de linha amarela no Brasil, mas decidimos criar uma rede agrícola própria. Em São Paulo, por exemplo, temos uma distribuição de construção e três agrícolas”, explica Merigli. O presidente cita que, no setor, a empresa tem participação pulverizada em culturas, mas destacou cana e grãos.

O movimento acompanha o plano anunciado em 2024 de dobrar o tamanho da operação brasileira até 2030. Para isso, a companhia aprovou um investimento de R$ 500 milhões no País, sendo cerca de R$ 360 milhões destinados à expansão e modernização da fábrica de Sorocaba (SP), que abastece a América do Sul e Central.

 Para 2026, a expectativa é de manter o ritmo de crescimento perto dos 7% visto em 2025. “Acreditamos que 2026 será muito desafiador, mas o agro deve seguir com desempenho um pouco melhor do que o mercado total. Nossa projeção é continuar crescendo nessa faixa de 5% a 7%”, diz o executivo.

Além da venda direta, a empresa aposta em financiamento, consórcio e locação como alavancas para o agro, em um ambiente ainda pressionado por juros elevados e pelo cenário de inadimplências no setor, que dificulta o acesso ao crédito.

“Temos o JCB Finance, campanhas de financiamento e consórcio, que já são ferramentas consolidadas para tratores e caminhões e vêm ganhando espaço também no agro”, afirma. Na operação financeira, a empresa conta com o Bradesco como parceiro, e no braço de consórcios, com a Rodobens.

Resumo

  • A JCB cresceu 7,1% no Brasil em 2025 e teve no agro um dos principais motores em um setor ainda em retração
  • A aposta está em máquinas de “linha amarela” adaptadas ao campo, usadas em logística interna, estradas, armazéns e movimentação de grãos, fora do ciclo de plantio e colheita
  • Para sustentar a estratégia, a empresa cria uma rede agrícola própria, investe R$ 500 milhões no País e projeta novo crescimento entre 5% e 7% em 2026

Fábrica da JCB em Sorocaba (SP)

Linha de montagem