As credenciais da nstech não são pequenas: JBS, BRF, Minerva, Amaggi, SLC Agrícola, Mosaic, Yara, Bayer, Syngenta, Klabin, Suzano e as tradings do ABCD estão entre as empresas que usam algum dos softwares da empresa para cuidar de sua logística.
Somado a isso, ainda são 2 mil transportadoras, além de terminais portuários, ferrovias, cooperativas e outros elos da cadeia.
Esse ecossistema ajuda a explicar por que o agronegócio já responde por quase 30% do faturamento da nstech, que hoje, já ultrapassa R$ 100 milhões em receitas por mês. E também ajuda a entender a nova aposta da companhia: em vez de apenas vender sistemas diferentes para cada participante, a nstech quer fazer com que eles passem a operar dentro de uma mesma rede.
É o conceito do TNS, sigla para Transportation Network System, categoria criada pela empresa e que ganhou corpo desde o ano passado. A proposta é conectar embarcadores, transportadoras, motoristas, gerenciadoras de risco e outros participantes do transporte em uma única arquitetura digital.
“Fizemos 37 M&As de 2020 pra cá, e a gente estava operando muito com os produtos que adquirimos, sem inovação. Desde 2024, colocamos novidades de produtos que não existiam no mercado”, afirmou Thiago Cardoso, diretor de Agronegócio e vice-presidente de Segmentos da nstech, ao AgFeed.
O TNS parte de uma diferença importante em relação ao TMS, o sistema tradicional de gestão de transporte. Enquanto o TMS organiza a operação de um determinado cliente, o TNS tenta conectar diferentes participantes que estão envolvidos na mesma movimentação de carga, explicou o diretor.
Na prática, um embarcador pode utilizar a plataforma para contratar ou acompanhar uma transportadora, enquanto a transportadora acessa outra camada da mesma rede e o motorista utiliza ferramentas específicas para sua operação.
A nstech, que é uma investida da Tarpon, chama isso de uma “rede viva”. Quanto mais participantes entram, maior deveria ser o valor para os demais.
“É um grande projeto na empresa, recebe altos investimentos e cada vez mais vamos colocar mais energia. Quanto mais transportador tiver no sistema, melhor é, quanto mais posto tiver, melhor é, quanto mais seguradora e motorista tiver, melhor é”, disse Cardoso.
A ambição é digitalizar relações que ainda acontecem de forma bastante analógica no transporte de cargas. O executivo compara o mercado a um grande marketplace em que, todos os dias, embarcadores contratam transportadores, transportadores contratam motoristas e caminhões circulam entre pontos de carga e descarga.
O primeiro produto criado dentro dessa lógica foi o TNS Match. A ferramenta busca indicar qual caminhão é mais adequado para determinada carga considerando também a posição futura do veículo. "Ele indica qual o melhor caminhão pra pegar determinada carga considerando a posição futura do veículo, com um benefício do 'frete de retorno', sintetizou o diretor.
Um dos objetivos é atacar uma ineficiência conhecida do transporte rodoviário: o caminhão que entrega uma carga e volta vazio para novos fretes. A estimativa da nstech é que cerca de 40% dos retornos no Brasil ocorram sem carga.
Se a plataforma consegue encontrar uma segunda carga para o mesmo veículo, o ganho pode aparecer para os dois lados: o transportador reduz o custo do trecho de retorno e o embarcador encontra capacidade de transporte potencialmente mais próxima de sua operação.
Além do custo, a companhia vê espaço para usar a rede em temas como compliance e gestão de risco. Quanto mais informações circulam dentro da plataforma, maior é a possibilidade de verificar quem está realizando determinada operação e reduzir riscos de fraude.
O agro como laboratório
Dentro do agro, a nstech divide os clientes em três grandes grupos. O primeiro é o de produtos frigorificados, que reúne frigoríficos e laticínios. O Brasil tem aproximadamente 500 frigoríficos e 1,5 mil laticínios, segundo estimativas citadas pelo executivo. A nstech atende quase 300 empresas desse universo.
Entre os clientes estão JBS, BRF, Minerva, Aurora, Frimesa e Copacol, no segmento de carnes, e Piracanjuba, Lactalis, Tirolez e Vigor, entre os laticínios.
Para essas empresas, a companhia oferece principalmente softwares e ferramentas de gerenciamento de risco. O sistema permite acompanhar a localização do veículo e também trabalhar com prevenção de roubos, acidentes e problemas relacionados à temperatura da carga, ponto relevante para produtos perecíveis.
O segundo grupo é o de granéis. Aqui entram grandes tradings agrícolas, como Amaggi e as quatro do ABCD (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus), empresas de fertilizantes como Mosaic, Yara, Cibra e EuroChem e companhias de bioenergia como FS e Inpasa.
Nesse mercado, uma das principais especialidades da nstech é o gerenciamento do pátio. A ideia é organizar o agendamento de caminhões e os tempos de entrada, carregamento e descarga para reduzir filas e o período em que o veículo permanece parado.
A companhia também atende as transportadoras que movimentam esses produtos. São quase 2 mil empresas de transporte de grãos utilizando algum TMS da nstech, segundo Cardoso.
A presença chega ainda aos terminais logísticos e portos. O software da empresa está presente em 100% das operações de granéis do Porto de Santos e em aproximadamente metade dos terminais de Paranaguá, segundo o executivo. “Uma coisa que evoluiu bastante é o end-to-end do granel, da porteira até o terminal”, contou Cardoso.
A terceira frente é a de agroquímicos e outros insumos agrícolas. Empresas como Bayer, Basf e Syngenta utilizam soluções da nstech para roteirização, gestão de transporte, acompanhamento de entregas e gerenciamento de risco.
A companhia também atende empresas de papel e celulose, como Klabin e Suzano, com ferramentas de pátio e torre de controle.
O TNS, porém, não está restrito ao agro. Uma das aplicações desenvolvidas pela companhia conecta indústria e varejo para resolver uma etapa aparentemente simples, mas que ainda consome equipes inteiras: o agendamento de caminhões.
Em grandes redes varejistas, a indústria precisa reservar horários para que seus veículos entrem nos centros de distribuição. A nstech oferece ferramentas para agendamento e reagendamento e, com isso, consegue reunir informações sobre as operações de diferentes embarcadores.
Um dos casos citados por Cardoso é o da Rumo. A companhia utiliza uma solução da nstech chamada “Cheguei”, que cria uma fila virtual para caminhoneiros que vão buscar cargas no terminal de Rondonópolis (MT).
Em vez de chegar horas antes ao terminal e esperar fisicamente pela descarga, o motorista pode acompanhar sua posição na fila e se deslocar de acordo com o horário previsto. Cardoso cita que esse é um exemplo de como a tese do TNS funciona na prática.
A nstech quer levar essa lógica para o agro em uma escala maior. Para o diretor, o granel é uma das frentes com maior potencial de crescimento nos próximos anos, justamente pelos diversos atores e grandes volumes envolvidos. Hoje, o maior volume ainda se encontra nos "frigorificados".
Além do Brasil, a empresa está presente em outros 15 países, com operações em quase toda América Latina e também em Angola e Portugal. Na terra lusa, Cardoso cita que grande parte dos ônibus da capital Lisboa rodam com o sistema da nstech.
A maior parte dessas operações não envolve o agro, mas no México, onde a companhia tem sua segunda maior operação e, segundo Cardoso, "cresce três dígitos", passou a atender há poucos meses uma trading agrícola.
Resumo
- Com quase 30% da receita vinda do agro, nstech atende gigantes como JBS, Amaggi, Bayer, SLC Agrícola e as tradings ABCD
- Após 37 aquisições desde 2020, empresa aposta em uma plataforma única para integrar os diferentes elos da logística
- TNS Match tenta conectar cargas e caminhões para reduzir viagens de retorno vazias, estimadas em 40% do mercado brasileiro