A cooperativa Frísia, de Carambeí (PR), não ficou imune aos desafios vividos pelo agronegócio ao longo do último ano, especialmente em função dos preços mais baixos dos grãos e do leite, principais nichos de atuação da cooperativa.
Mas, mesmo assim, conseguiu garantir um faturamento de R$ 5,9 bilhões em 2025, quase 2% a mais que em 2024, quando o resultado havia apresentado queda.
O pequeno crescimento, mesmo em um ano difícil para o agro, é fruto de diferentes situações que, juntas, contribuíram para o resultado final, conta Mario Dykstra, superintendente da Frísia, em entrevista ao AgFeed.
No leite, mesmo com a queda dos preços, os produtores cooperados haviam feito investimentos no ano anterior que fizeram com que o volume tivesse uma pequena elevação, de quase 2%, entre 2024 e 2025, passando de 362,2 milhões de litros produzidos para 369,3 milhões de litros produzidos.
"Esses investimentos trazem um ganho de produção no médio prazo, e a gente viu isso acontecer em 2025", diz Dykstra.
Ao mesmo tempo, apesar dos preços mais baixos dos grãos, a produtividade no campo respondeu bem, levando a um aumento de volume e consequentemente aumento de faturamento, mesmo com valores mais baixos.
Ao todo, a Frísia teve um recebimento de 1 milhão de toneladas de grãos no ano passado, 21% a mais que as 826,8 mil toneladas de grãos de 2024.
A produtividade, por sua vez, passou de 3,9 kg por hectare na safra 2023/2024 para 4,5 kg por hectare na safra 2024/2025.
Além da produção ter respondido de forma mais favorável ao longo de 2025, Dykstra destaca que a conjuntura de mercado, com o produtor deixando de fazer estoques, contribuiu para o aumento dos ganhos da Frísia.
“Como o produtor também está descapitalizado e precisando do recurso, ele acaba colhendo e vendendo durante o ano sem armazenar e sem guardar esse produto. Isso também favorece o faturamento”, diz Dykstra.
Ainda na parte agrícola, outro ponto que favoreceu a Frísia no ano passado foi o aumento da área plantada de culturas de inverno. Na cevada, houve crescimento de 45% na recepção do cereal, somando 99,5 mil toneladas em 2025.
Ao longo de 2025, a cooperativa fez investimentos de quase R$ 100 milhões em diferentes projetos, com foco em qualificar ativos já existentes.
Entre os principais destaques, estão melhorias nas unidades de recepção de grãos da cooperativa, uma nova linha de produção de ração para suínos na planta que a cooperativa mantém em Carambeí (PR).
Também foram executados investimentos em capacidade de armazenagem refrigerada de sementes em unidades em Tibagi (PR) e Ponta Grossa (PR), conta Dykstra.
Esmagadora traz impulso em 2026
Para 2026, a expectativa da Frísia é de que seu faturamento avance cerca de 18%, chegando perto da faixa de R$ 7 bilhões. "Sem dúvida teremos crescimento neste ano", resume Dykstra.
Alguns elementos ajudam a cooperativa a estar otimista em relação ao desempenho do ano.
No lado agrícola, Dykstra destaca novo aumento previsto na área plantada de cevada, que já vem crescendo nos últimos anos, a expectativa de continuidade de boa recepção de grãos e de crescimento do mercado de leite, ainda que em ritmo menor do que nos anos anteriores.
O único senão é o conflito no Oriente Médio. Dykstra avalia que a cooperativa está atenta às movimentações envolvendo especialmente as dificuldades do mercado de fertilizantes.
“Se a gente tiver os insumos agrícolas mais caros, há uma pressão ainda maior na rentabilidade do produtor, que já está bastante prejudicado”, diz o superintendente, ressaltando que esse fator pode ser um fator baixista no faturamento da cooperativa, a depender dos próximos passos da guerra. “A gente vai passar por um momento difícil, de uma safra difícil na sequência.”
Em contrapartida, no lado da agroindústria, o grande destaque da Frísia neste ano é a esmagadora de soja que a cooperativa comprou no início de março em Ponta Grossa (PR).
A estrutura pertencia à Louis Dreyfus Company (LDC), uma das principais tradings do mercado, e tem capacidade de processamento de 3,4 mil toneladas de soja por dia. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão antitruste federal, ainda precisa autorizar a operação.
A esmagadora deve ser um importante motor de crescimento da cooperativa nos próximos anos. Dykstra estima que, a partir de 2027, quando estiver em plena operação, a esmagadora represente uma receita adicional de cerca de R$ 2,9 bilhões à cooperativa.
A aquisição da estrutura, segundo o superintendente da Frísia, está relacionada ao plano de industrialização que a cooperativa vem colocando em prática em outras culturas, mas que ainda não tinha chegado à soja.
"Nós já industrializamos o milho através da nossa fábrica de rações, também industrializamos o nosso trigo através do nosso moinho de trigo, a cevada direcionamos 100% para a maltaria, e a soja ainda não", explica Dykstra. "Até hoje vendemos a produção dos nossos cooperados para exportação ou indústria de esmagamento."
Agora, com a nova indústria, a Frísia pretende também acessar mercados internacionais, que demandam farelo de soja, e mercado interno, direcionando óleo para a produção das indústrias nacionais de biodiesel. "Essas empresas são os maiores consumidores de óleo hoje no País", ressalta Dykstra.
A Frísia não descarta também entrar no mercado de produção de biodiesel mais à frente.
“Entendemos que, dentro de uma estratégia, poderiamos minimamente fazer um estudo de viabilidade para entender se faz sentido um investimento de uma planta como essa. Entender se a gente consegue entrar nesse mercado”, afirma Dystra, ressaltando, no entanto, que não há uma data exata para isso se concretizar.
Ainda no campo dos biocombustíveis, a Frísia também cogitou entrar no etanol de milho, conta Dykstra, em paralelo aos estudos para a aquisição da esmagadora que pertencia à Dreyfus.
Mas a cooperativa viu desafios tanto no Tocantins quanto no Paraná para desenvolver o projeto e, por ora, não pretende executá-lo.
Dykstra destaca que as áreas onde está inserida têm dinâmicas desfavoráveis para a produção de biocombustível a partir de cereais.
“A disputa pelo milho no Tocantins é menor. Mas a oferta também é menor. Já no Paraná, temos área relevante de milho, só que a disputa é maior, em função dos mercados de exportação e de proteína animal. Isso impede o investimento numa indústria de etanol de milho”, diz.
O superintendente da Frísia lembra que, geralmente, as plantas estão localizadas em regiões distantes das zonas portuárias, onde há farta produção e os preços são menores, situações que não acontecem tanto no Paraná quanto no Tocantins.
Investimentos
Para este ano, além da esmagadora adquirida da LDC, a Frísia prevê investimentos em diferentes vertentes que, somados, ultrapassam a casa dos R$ 180 milhões.
A área de beneficiamento de sementes deve receber melhorias, assim como a área de lácteos, com ampliação da produção de fatiamento de queijos e de requeijão, que deve custar entre R$ 70 milhões e R$ 80 milhões à cooperativa.
Outros aportes envolvem a ampliação da estrutura da cooperativa no Tocantins, com a expansão da unidade de Paraíso do Tocantins (TO) e a construção de um novo entreposto em Pium (TO), que custará R$ 100 milhões.
A ideia da Frísia é, inclusive, expandir nos próximos anos a área no estado, passando dos atuais 45 mil hectares, que hoje já representam 25% da área agrícola da cooperativa, para 65 mil hectares até 2030.
Com reportagem de Alessandra Mello
Resumo
- Cooperativa Frísia projeta faturamento chegando a cerca de R$ 7 bilhões em 2026
- Otimismo está relacionado à compra de unidade de processamento de grãos que pertencia à LDC,
- Cooperativa prevê investimentos de pelo menos R$ 180 milhões em áreas industriais e agrícolas