O enredo foi o mesmo, independente do porte da empresa: receita recorde, exportações aceleradas, mas rentabilidade esmagada pelo peso do preço do boi nas contas do setor de proteína animal bovina.

Com custos em alta, as gigantes do segmento foram impactadas. Não foi diferente com a Frigol, tradicional companhia de porte médio, que divulgou seus resultados na manhã desta sexta-feira, 14 de agosto.

A empresa registrou no segundo trimestre de 2026 o melhor faturamento de sua história – a receita líquida somou R$ 1,55 bilhão, alta de 57,6% na comparação anual, enquanto a receita bruta alcançou R$ 1,62 bilhão, crescimento de 56,5%.

Mas viu seus ganhos sucumbirem ao momento adverso do ciclo pecuário. O Ebitda caiu 65,7%, para R$ 52,9 milhões, com margem de 3,4%, e o lucro líquido recuou 97,5%, para R$ 2,2 milhões.

O resultado, segundo a companhia, expõe o impacto valorização da arroba bovina, em um cenário de menor oferta de gado que afeta toda a cadeia produtiva.

A alta da receita veio de duas frentes. No mercado externo, a Frigol se beneficiou dos preços elevados no mercado chinês e da cota estabelecida pelo país asiático.

"Buscamos aproveitar da melhor forma possível a cota estabelecida pelo país", afirmou o CEO da Frigol, Luciano Pascon, em comunicado.

As exportações responderam por 52,4% da receita bruta no trimestre, ante 47,6% do mercado brasileiro. A China permaneceu como principal destino, concentrando 75,5% da receita externa, seguida por Chile (5%), Hong Kong (4%), Indonésia (2,4%), Israel (2,3%) e Europa (1,4%).

A empresa destacou o fato de o Chile ter figurado como segundo principal mercado e a ascensão da Indonésia para a quarta posição como movimentos que refletem a estratégia de diversificação da companhia.

Juntamente com volumes destinados a Estados Unidos e Canadá, as exportações para as Américas avançaram 815% na base anual, enquanto o volume embarcado para o Sudeste Asiático cresceu 37%.

Já no mercado interno, o crescimento foi de 70%, "mesmo diante de um cenário de consumo e preços estáveis", segundo o executivo, com a estratégia direcionada a produtos de maior valor agregado e à ampliação da presença em novas praças, como Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima.

As linhas de maior valor agregado (Chef, Angus, BBQ Secrets e Açougue Completo) registraram alta de 20% no volume vendido. O trimestre também marcou a expansão da estratégia de varejo do grupo, o Açougue Completo Frigol, com a inauguração de cinco lojas em São Paulo e duas do Açougue Frigol em Porto Velho, três delas em parceria com grandes atacarejos.

O peso do ciclo pecuário

A rentabilidade foi o calcanhar de Aquiles da empresa. A companhia abateu 225.527 bovinos no trimestre, alta de 45,9% na comparação anual, impulsionada pela parceria firmada neste ano para prestação de serviços de industrialização em três plantas em Rondônia (duas em Ji-Paraná e uma em Rolim de Moura).

Mas o maior volume de abates não compensou a pressão de custos. "Houve impacto na rentabilidade decorrente do ciclo pecuário, um movimento que afeta todo o setor e não é específico da Frigol", afirmou o CFO da empresa, Carlos Corrêa.

"Diante desse cenário, avançamos nas medidas voltadas ao ganho de eficiência operacional. Com a integração das plantas em Rondônia praticamente concluída, seguimos com a reestruturação das operações, buscando capturar sinergias e otimizar custos e despesas fixas. Esperamos que os resultados dessas iniciativas comecem a se refletir nos próximos períodos."

A base de comparação também pesou: o segundo trimestre de 2025 foi historicamente forte para a companhia, com lucro líquido de R$ 86,6 milhões, o que elevou a base sobre a qual o recuo de 97,5% foi calculado.

A pressão das margens não é exclusividade da Frigol. O encarecimento do boi gordo, combinado à menor oferta de gado, tem comprimido a rentabilidade das grandes processadoras de carne bovina do país.

No trimestre, JBS, Minerva e Marfrig (MBRF) também reportaram margens bem menores, mesmo com volumes de abate maiores — reflexo do mesmo ciclo pecuário que elevou o custo da matéria-prima em toda a cadeia.

Semestre positivo

O resultado do segundo trimestre marca uma mudança de tendência em relação aos três meses anteriores, quando a Frigol reportou crescimento de receita e lucro.

No primeiro trimestre, a receita líquida somou R$ 999,2 milhões (+2,8%), o EBITDA avançou 242%, para R$ 33,3 milhões (margem de 3,3%), e o lucro líquido chegou a R$ 11,1 milhões, ante R$ 1 milhão no mesmo período de 2025.
Naquele momento, a companhia já citava a baixa oferta de gado e a alta da arroba, mas conseguiu crescer os indicadores.

Com isso, no acumulado do primeiro semestre de 2026, a receita líquida somou R$ 2,55 bilhões, alta de 30,4%, e a companhia manteve lucro líquido positivo de R$ 13,3 milhões, mesmo diante do custo elevado da matéria-prima.

A trajetória, portanto, é de forte expansão de receita convivendo com margens pressionadas e lucro em forte queda no trimestre mais recente.

Apesar da queda de rentabilidade, a Frigol reforçou sua posição de caixa. O caixa encerrou o trimestre em R$ 468,6 milhões, 127% acima do registrado no 2T25, e a alavancagem ficou em 2,2x a dívida líquida sobre o Ebitda dos últimos 12 meses, patamar que a companhia considera saudável e que sustenta sua estratégia de expansão.

A empresa manteve o rating corporativo A.br (perspectiva estável), atribuído pela Moody's, e a quarta emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), de R$ 250 milhões, concluída em março, deu suporte ao fortalecimento do caixa e ao alongamento do perfil da dívida.

Resumo

  • Frigol registra receita recorde, impulsionada por exportações para a China e pelo avanço das vendas no mercado interno
  • Lucro líquido cai 97,5% e Ebitda recua 65,7%, pressionados pela valorização da arroba e pelo ciclo pecuário
  • Empresa reforça caixa, mantém alavancagem controlada e aposta em ganhos de eficiência com integração das plantas em Rondônia