A criação de uma nova empresa de proteção de cultivos pela Corteva e pela belga Globachem ainda está longe de provocar mudanças imediatas no mercado brasileiro.

Mas a combinação dos portfólios, da capacidade de desenvolvimento e da experiência das duas companhias começa a desenhar possíveis movimentos para os próximos anos.

As empresas anunciaram nesta quarta-feira, dia 9 de setembro, um acordo definitivo para formar uma joint venture (JV) com participação de 50% de cada uma.

A nova companhia será independente e terá como missão desenvolver, registrar e comercializar soluções para proteção de cultivos, inicialmente com foco nos mercados da Europa e das Américas.

O cronograma, porém, é de longo prazo. A operação ainda depende das aprovações regulatórias e deve ser concluída no quarto trimestre deste ano.

Os primeiros produtos desenvolvidos pela JV, por sua vez, só devem chegar ao mercado no início da próxima década, e poderão ser comercializados independentemente por uma ou ambas as empresas controladoras.

A ideia, segundo as companhias, é unir os “pontos fortes” de cada uma das empresas na nova corporação.

“Ao combinar nosso pipeline líder do setor e nossas capacidades de inovação com a expertise da Globachem em formulação, pretendemos ampliar e acelerar a entrega de soluções mais personalizadas e abrangentes para culturas essenciais em mercados-alvo”, disse Brook Cunningham, vice-presidente sênior da Corteva, em nota.

"Juntas, as capacidades de descoberta e desenvolvimento de classe mundial da Corteva e a expertise da Globachem em desenvolvimento de produtos, formulação e execução regulatória criam uma plataforma poderosa para a inovação. A joint venture acelerará a entrega de soluções diferenciadas de proteção de cultivos que ajudarão os produtores a enfrentar os desafios agronômicos em constante evolução e a aproveitar novas oportunidades”, disse Koen Quaghebeur, diretor de visão e cofundador da Globachem.

O acordo chama a atenção pela diferença de escala entre as duas empresas, que já eram parceiras.

Com sede em Sint-Truiden, na Bélgica, a Globachem mantém uma operação com foco internacional, afirma estar presente em mais de 60 países, e possui escritórios no Brasil, em Campinas (SP), além de Reino Unido e China.

Mas a empresa é muito menor que a Corteva: sua receita na Bélgica no ano passado, que foi de 311,9 milhões de euros (aproximadamente US$ 362 milhões), ainda está distante dos US$ 17,4 bilhões registrados pela Corteva somente em 2025.

A diferença de tamanho, contudo, não impediu a Globachem de construir ao longo de pouco mais de duas décadas uma plataforma própria de desenvolvimento e comercialização de produtos para proteção de cultivos, que é a sua principal fortaleza.

Fundada em 2000 pelo casal Koen Quaghebeur e Els Paesmans, a companhia começou investindo em registros de defensivos genéricos para frutas e cultivos anuais, segundo informações disponíveis em seu site.

A partir daí, expandiu a atuação para outros mercados europeus e, posteriormente, para diferentes regiões do mundo.

Hoje, a empresa afirma ter mais de 2 mil aprovações e registros de produtos. Seu portfólio reúne cerca de 400 marcas registradas, entre herbicidas, fungicidas e inseticidas utilizados em diferentes culturas.

No Brasil, a operação é mais recente. A Globachem passou a atuar diretamente no país em 2022, quando abriu um escritório em Campinas após adquirir o portfólio de produtos da STK Bio-Ag, antiga Stockton-Agrimor.

Hoje a Globachem mantém parcerias com empresas no País como Gowan, AMVAC., AgriConnection e Green Place.

Entre os produtos comercializados pela empresa no país estão herbicidas à base de 2,4-D, glifosato e nicossulfurom, além de inseticidas e fungicidas. Entre as culturas atendidas, estão soja, milho, algodão e HF, entre outras.

É justamente nessa complementaridade de portfólios que pode estar uma das principais oportunidades da parceria com a Corteva.

Em uma análise publicada no LinkedIn, Sérgio Luiz de Almeida, engenheiro agrônomo e sócio da consultoria Demetra Business, apontou que a Globachem possui ingredientes ativos que não fazem parte do portfólio da Corteva. Na avaliação dele, essa diferença pode abrir espaço para sinergias comerciais entre as duas empresas.

Entre os ativos citados estão dicamba e glifosato-sal de isopropilamina, entre os herbicidas; clorotalonil e flutriafol, entre os fungicidas; e acetamiprido e lufenurom, entre os inseticidas

Outro espaço potencial, segundo o agrônomo, está no mercado de herbicidas para pastagens, segmento em que a Corteva construiu uma posição relevante no Brasil desde a época da Dow.

“A Globachem poderia ampliar sua participação nesse mercado aproveitando a experiência e o acesso comercial que a Corteva possui no segmento”, disse Almeida.

A complementaridade, no entanto, não se limita às moléculas. A força da Globachem em pesquisa e desenvolvimento também ajuda a explicar a aproximação entre as duas empresas, como deixou evidente o comunicado.

Nos últimos anos, a companhia belga ampliou sua atuação nessa frente, inclusive por meio de investimentos e aquisições.

Em 2019, a companhia comprou a divisão de pesquisa e desenvolvimento da empresa Redag Crop Protection, do Reino Unido, em uma operação cujo valor não foi divulgado e, com isso, criou a Globachem Discovery, dedicada ao desenvolvimento de novas moléculas.

Em paralelo, a empresa também participou de rodadas de investimento em companhias belgas de biotecnologia, entre elas a Protealis, startup dedicada ao desenvolvimento de sementes de soja e outras leguminosas adaptadas a climas frios, e a Biotalys, que desenvolve soluções de biocontrole baseadas em proteínas para proteção de cultivos e que abriu capital em 2021 na Euronext Bruxelas.

Essa trajetória coloca a Globachem em uma posição diferente da de uma companhia focada apenas na comercialização de defensivos genéricos. Ao longo dos anos, a empresa combinou desenvolvimento de produtos, formulação, registros regulatórios e investimentos em novas tecnologias.

Para a Corteva, essa estrutura pode complementar uma plataforma global de descoberta e desenvolvimento de novas soluções em um momento em que a companhia também prepara sua separação planejada da operação de proteção de cultivos, que começa a valer já a partir do próximo dia 1º de outubro.

Resumo

  • JV entre Corteva e Globachem combina portfólios, P&D e experiência regulatória para criar novas soluções de proteção de cultivos
  • Primeiros produtos da nova empresa devem chegar ao mercado apenas no início da próxima década
  • Globachem leva à parceria uma plataforma com mais de 2 mil registros e cerca de 400 marcas de defensivos