A crise da Cotribá, de Ibirubá (RS), a mais antiga cooperativa do Brasil, que acumula mais de R$ 1 bilhão em dívidas, se arrasta com novos capítulos e personagens desenvolvendo uma trama de final incerto. A cooperativa gaúcha, com sede no município Ibiribá, tenta uma inédita recuperação judicial - a princípio, o instrumento não pode ser acessado por cooperativas -, mas no cardápio de seus dirigentes estão outras soluções pouco convencionais e polêmicas.

Uma nova fase dessa novela começou a ser vivida na semana passada, quando o Conselho de Administração da cooperativa resolveu desligar o CEO, Luís Felipe Maldaner, que estava no cargo há apenas quatro meses. A decisão, agora, joga luzes sobre novos rostos, que até então atuavam apenas nos bastidores.

A informação veio a público em comunicado publicado nas redes sociais na quinta-feira, dia 29 de janeiro. A Cotribá informou que a saída de Maldaner se deu de forma “alinhada e planejada” pelo Conselho da cooperativa e que o “novo momento estratégico” demanda um “perfil executivo específico para conduzir a fase de reestruturação, renegociação financeira e relacionamento intensivo com o sistema bancário e o mercado de capitais.”

Com apoio do “investidor que passará a suportar as necessidades financeiras da cooperativa”, a Cotribá diz que será incorporado à gestão “um Chief Restructuring Officer (CRO), que seria, de acordo com o comunicado, “profissional reconhecido nacionalmente por sua atuação em processos de reestruturação empresarial, com ampla experiência no mercado financeiro e forte relacionamento com bancos e instituições de crédito e alocação de recursos financeiros.”

“O CRO será o principal interlocutor da Cooperativa nas negociações com instituições financeiras e credores, função distinta daquela exercida até então pela diretoria executiva. O profissional possui histórico comprovado de atuação em processos de recuperação empresarial, inclusive em projetos conduzidos em parceria com o investidor, em empresas com desafios semelhantes aos enfrentados atualmente pela Cooperativa”, diz o texto.

O comunicado encerra dizendo que “a medida reforça o compromisso da Cooperativa com a transparência, a responsabilidade na gestão e a construção de uma estrutura sólida, sustentável e preparada para retomar o crescimento.”

A tendência é de que o posto seja ocupado por Paulo Goulart, CEO da Gocil, empresa de prestação de serviços e segurança privada. A companhia, pertencente ao Grupo Handz e, com sede em São Caetano do Sul (SP), pediu recuperação judicial em 2023, e teve seu pedido deferido no ano passado.

No perfil de Goulart na rede social LinkedIn, consta apenas o cargo de CEO da Gocil como experiência profissional. Já em seu perfil no Instagram, restrito ao público, Goulart se apresenta como “economista, MBA e pós graduado”, além de “empresário do mercado financeiro, turnaround, M&A, fundos de investimentos.”

Enquanto isso, Luís Maldaner, o antigo CEO, saiu sem explicações claras sobre os motivos que levaram à sua demissão. Ao AgFeed, o executivo contou que foi desligado da Cotribá no início da semana passada, no dia 20 de janeiro, e permaneceu no posto até a sexta-feira da mesma semana, dia 23 de janeiro.

“Na pequena reunião com o vice-presidente em que eu fui informado do meu desligamento, o que foi dito é que o conselho tinha decidido pela troca do CEO”, afirma.

A relação entre Maldaner e o alto comando da Cotribá, no entanto, já vinha deteriorada por diferenças de filosofia em relação aos rumos da cooperativa, que continua em dificuldades financeiras.

“Tive a nítida sensação de que as coisas estavam tendo uma direção não muito adequada no meu entendimento”, afirma o agora ex-CEO. “Sempre fui mais voltado para o trabalho, para fazer as coisas de um modo que pudessem, de certa forma, ter um resultado palpável e um resultado, assim, como vamos dizer, do mundo real, e não com soluções mágicas”, diz.

Maldaner diz que vinha procurando trabalhar com o planejamento da safra e também procurando negociar com os bancos. “Com alguns bancos, a gente teve bastante sucesso no alongamento da dívida”, diz. Ao todo, a Cotribá possui débito com mais de 30 instituições financeiras de diferentes portes, segundo Maldaner.

Em paralelo, o antigo CEO disse que também pretendia vender algumas unidades de negócio deficitárias para conseguir os recursos necessários para efetuar os pagamentos aos produtores a quem a cooperativa estava devendo.

A chegada do fundo americano (com dono brasileiro)

Uma mudança na cúpula da Cotribá em outubro passado trouxe alterações no rumo da reestruturação, na avaliação de Maldaner. Isso porque o antigo presidente Celso Krug pediu renúncia no último dia 9 de outubro, dando lugar a Enio Cezar Moura do Nascimento, até então vice-presidente.

Carlos Diehl, que antes era conselheiro da Cotribá, passou a ocupar a vice-presidência e é apontado por Maldaner como líder de alguns processos que vêm se desenrolando desde então.

Entre eles, segundo Maldaner, estava a assinatura de memorando de entendimento com um “fundo de investimento internacional” que seria um dos “parceiros estratégicos” para a reestruturação financeira da cooperativa, de acordo com um comunicado divulgado pela cooperativa no último dia 14 de novembro.

O texto dizia que o memorando já havia sido aprovado pelo Conselho da cooperativa e que estava prevista a assinatura dos documentos definitivos em 60 dias.

O acordo com o fundo previa, de acordo com a Cotribá: (1) o fim da asfixia financeira da cooperativa, com a quitação completa das dívidas; (2) injeção de recursos, com aporte de caixa destinado ao capital de giro; (3) pagamento aos produtores, para que os saldos em aberto fossem quitados em até 180 dias; (4) o controle da cooperativa preservado, mediante a criação de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE); e (5) a não venda de ativos para quitar as dívidas.

Maldaner diz que o fundo interessado na Cotribá foi apresentado por Diehl e se chama PHL Vision Hedge Fund & Trust, com sede no estado da Philadelphia, nos Estados Unidos, e que seria especializado em estruturação e recuperação de ativos empresariais.

O CEO do fundo, de acordo com informações da SEC, a CVM americana, é Oderli Feriani – informação que foi confirmada por Maldaner.

Além de liderar o fundo PHL nos Estados Unidos, no Brasil, Feriani consta como sócio-administrador ou administrador das empresas X-Pay Smart, X-Pert Gestão Fiduciária, Four Seasons, M10 Serra Gaúcha Empreendimentos Imobiliários Ltda, M10 Holy, M10 Outlet Brasil, M10 Outlet Brasil, Macedo & Canedo, e Five Stars Investimentos.

A Five Stars e o empresário foram autuados em 2016 pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por atuação irregular no mercado de valores mobiliários.

À época, a CVM informou que havia indícios de que a Five Stars vinha oferecendo pela internet serviços de administração de carteiras e de distribuição de valores sem autorização do órgão e determinou a suspensão das ofertas desses serviços.

Em Araraquara, no interior paulista, Feriani lançou, em 2020, o projeto do Outlet Mall D'Arara, com investimentos estimados em R$ 400 milhões a serem aportados em um complexo com 170 lojas com grandes marcas nacionais e internacionais, restaurantes e hotel cinco estrelas, com a expectativa de gerar 3 mil empregos diretos e indireto. A previsão era de que o projeto ficasse pronto em 2023, mas o projeto não saiu do papel.

Maldaner afirma que não participou das negociações com o fundo e que discordava da operação. “Fiz um arrazoado no dia 8 de novembro e encaminhei por escrito para o presidente da Cotribá e disse: ‘Meus argumentos são esses, para ficar registrado que eu não estava participando dessa operação’.”

O antigo CEO diz que não há uma definição se o acordo com o fundo PHL foi descartado ou não e que, em paralelo, Carlos Diehl estava tentando outra alternativa ao trazer Paulo Goulart para a Cotribá.

Goulart teria ameaçado sair da negociação após Maldaner ter contratado, no início de janeiro, os serviços de uma consultoria gaúcha, a Tarvos Partners, com sede em Porto Alegre (RS), para liderar o processo de reestruturação da Cotribá.

“Foi iniciativa minha trazer a Tarvos para nos ajudar nesse processo de reestruturação. A Tarvos é extremamente bem conceituada e já participou da reestruturação de várias empresas, inclusive do agro”, diz Maldaner.

“Quando foi noticiado que essa empresa estaria nos ajudando na reestruturação, o Paulo Goulart ligou para o Carlos, dizendo: ‘Desse jeito, se vier a Targos, nós estamos fora’.”, afirma.

Futuro incerto para a Cotribá

Maldaner não pretende se aposentar após a saída da Cotribá. O antigo CEO da cooperativa é um profissional com larga experiência de mercado, tendo atuado por 36 anos no Banco do Brasil, além de uma breve passagem pelo Badesul, o banco de fomento do Rio Grande do Sul.

Em paralelo, atua como professor do programa de pós-graduação da Unisinos, respeitada universidade de São Leopoldo (RS), em programas de mestrado e doutorado profissional.

“Trabalho desde os 14 anos e vou completar 54 anos de carteira assinada no próximo dia 4 de fevereiro”, conta, com orgulho. “Dar aula para mim é um relax, eu adoro! Temos bons alunos, bons mestrandos e doutorandos, e não pretendo largar a universidade tão cedo.”

O antigo CEO chegou à cooperativa após um convite feito pela Sistema Ocergs, que reúne as cooperativas gaúchas, e da Fecoagro-RS, a associação das cooperativas. Representantes da Fecoagro o conheciam após o conhecerem em aulas do mestrado profissional da Unisinos.

Imerso desde o começo nas dificuldades do dia-a-dia da cooperativa, Maldaner teve pouco tempo para entender precisamente como a Cotribá chegou à situação atual, mas arrisca alguns palpites.

“Não tive condições de examinar tudo porque a cooperativa é muito grande e precisava resolver os eventos diários e o fluxo de caixa”, afirma Maldaner.

“Mas vi que alguns processos precisavam ser mais automatizados. E o outro ponto é que vejo que houve uma estratégia de expansão que não digo que foi equivocada, mas sim que foi muito rápida”, avalia. “A Cotribá aumentou muito a sua geografia. Uma gestão para uma atuação tão extensa é muito complexa. Isso pode ter trazido alguns prejuízos.”

Questionado se acreditava que a cooperativa poderia conseguir a decisão inédita de ter seu pedido de recuperação judicial aceito e sair da situação difícil, Maldaner, primeiro, brincou: “Essa é uma pergunta de um milhão de dólares.”

Depois, sério, lembrou que, apesar do pedido feito pela Cotribá, a desembargadora Eliziana da Silveira Perez, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), indeferiu, em 12 de dezembro, um pedido de reconsideração apresentado pela cooperativa

Atendendo a um pedido do banco Santander, Perez já havia derrubado, em 4 de dezembro, despacho da primeira instância, do juíz Eduardo Busanello, da Vara Regional Empresarial de Santa Rosa, publicado no dia 2 de novembro, que abria a possibilidade de recuperação judicial da cooperativa. As RJs, contudo, não estão previstas pela legislação do cooperativismo, motivando os diferentes entendimentos por parte do Judiciário gaúcho.

“No próximo dia 26 de fevereiro vai ter a reunião do colegiado da Câmara, que são três desembargadores, e a minha avaliação é de que talvez eles acompanhem a desembargadora, e talvez o escritório de advocacia que está cuidando disso, certamente, recorrer ao STJ.”, diz.

“Todo esse processo vai ser muito longo, vai ser muito longo, e talvez não haja tempo e não seja no tempo suficiente para a cooperativa conseguir sair da situação em que se encontra”, afirma Maldaner, ressaltando que acredita na tese da cooperativa.

Após o anúncio da saída do CEO, o Sistema Ocergs e a Fecoagro-RS disseram, em nota divulgada na sexta-feira, dia 30 de janeiro, que não participariam mais da reestruturação da Cotribá.

“Diante da recente veiculação pública de comunicado reportando a rescisão do contrato com o então executivo e, sobretudo, da decisão da cooperativa de dar continuidade ao processo por meio da contratação de uma empresa que atua com a figura de investidores — modelo que não encontra respaldo na legislação cooperativista vigente —, o Sistema Ocergs e a Fecoagro/RS comunicam sua retirada do processo a partir desta nova etapa”, disseram as entidades.

“As duas organizações reafirmam seu compromisso com o cooperativismo e com a boa governança, e permanecem à disposição da Cooperativa Cotribá e de seu Conselho de Administração para eventuais necessidades futuras, sempre que houver convergência com os princípios cooperativistas e o arcabouço legal que rege o setor.”

O AgFeed procurou a Cotribá, a Gocil e os empresários Oderli Feriani e Paulo Goulart para esclarecimentos.

A assessoria de imprensa da Cotribá, consultada em busca de mais informações, respondeu a um primeiro contato, mas depois não deu mais retorno.

Após contato telefônico, a assessoria de imprensa da Gocil retornou à reportagem informando que o coordenador de marketing da empresa entraria em contato, mas também não houve retorno. O empresário Oderli Feriani não retornou ao contato feito pela reportagem.

Caso haja resposta de algum deles, a reportagem será atualizada.

Resumo

  • A Cotribá, que acumula mais de R$ 1 bilhão em dívidas, desligou o CEO Luís Felipe Maldaner e decidiu trazer um Chief Restructuring Officer (CRO) para liderar a renegociação com bancos e credores
  • Maldaner afirma que saiu por divergências sobre os rumos da reestruturação, diz ter avançado em alongamentos de dívida e defendia a venda de ativos deficitários, mas ficou à margem das negociações com um fundo internacional e da articulação para a entrada de um novo executivo
  • A crise se aprofunda com a indefinição sobre o acordo com o fundo PHL, a possível chegada de Paulo Goulart ao comando da reestruturação e a retirada do Sistema Ocergs e da Fecoagro-RS do processo