Durou apenas seis meses a passagem de Paulo Goulart pelo cargo de CEO da cooperativa gaúcha Cotribá, que tentou recentemente entrar com um pedido de recuperação judicial após atravessar dificuldades financeiras, com dívidas de R$ 1,4 bilhão.

Em comunicado divulgado nos perfis das redes sociais da cooperativa nesta quinta-feira, dia 6 de agosto, a Cotribá informou que “foi encerrado o ciclo de atuação” de Goulart como CEO, sem trazer mais detalhes sobre como se desenrolou a saída do executivo, que passou a comandar a cooperativa em março e tinha contrato válido até 2028.

A cooperativa também não indicou se outro profissional entrará no lugar de Goulart ou se o cargo será extinto.

A Cotribá afirmou ainda que "essa transição faz parte do plano de reestruturação e recuperação que vem sendo conduzido pela atual administração" e que "todas as ações necessárias para o soerguimento da Cooperativa, com responsabilidade e planejamento foram consideradas para este momento."

A cooperativa disse também que o Conselho de Administração da cooperativa "permanece totalmente comprometido com as iniciativas necessárias para fortalecer a cooperativa, preservar sua credibilidade e gerar resultados consistentes para seus associados."

"A confiança dos associados, colaboradores, fornecedores, parceiros, instituições financeiras e da comunidade tem sido fundamental para o avanço desse trabalho. É com essa união e comprometimento que a Cotribá seguirá enfrentando os desafios, mantendo o foco na recuperação, na transparência e na geração de valor para seus cooperados", prossegue o comunicado.

"A Cotribá reafirma seu compromisso de continuar trabalhando com responsabilidade, seriedade e dedicação, fortalecendo sua atuação e construindo um futuro sólido para todos que fazem parte desta história", encerra a cooperativa.

Paulo Goulart havia assumido o cargo de CEO em março, no lugar do professor universitário Luis Felipe Maldaner, que havia deixado o posto em janeiro deste ano após permanecer pouco mais de quatro meses no posto.

Na mesma época, tomou posse a nova diretoria da Cotribá, com Carlos Diehl assumindo a presidência da cooperativa.

Diehl deu chancela total para Goulart fazer profundas transformações na cooperativa, apoiando-se na forte experiência do executivo na gestão de empresas em dificuldades.

No período recente, antes de chegar à Cotribá, Goulart vinha atuando como CEO da Gocil, empresa paulista de serviços e segurança privada do Grupo Cinel, que está em RJ desde 2023. Além disso, em paralelo, lidera uma empresa, a Highway Capital, focada na gestão de ativos estressados.

Goulart disse ao AgFeed, em abril deste ano, que foi trazido à Cotribá por credores da cooperativa que o conheciam e imaginaram que o executivo poderia contribuir com a gestão.

Ao chegar, o executivo prometeu imprimir uma lógica empresarial à cooperativa. A ideia de Goulart era, ao mesmo tempo, profissionalizar a gestão, renegociar as dívidas e diminuir a estrutura da cooperativa. “Estamos implementando métodos e critérios de primeiro mundo”, disse ao AgFeed, em abril passado.

Do lado das dívidas, o problema era - e continua - grande. Só à bancos e cooperativas de crédito, a Cotribá devia pelo menos R$ 527,1 milhões em maio passado, de acordo com uma lista de credores obtida pela reportagem. Para produtores rurais, o débito é maior, chegando à casa de R$ 900 milhões.

Goulart vinha buscando renegociar essas dívidas e estudava modelos alternativos para venda de ativos e geração de liquidez para a cooperativa.

Do lado operacional, a cooperativa viu-se obrigada a reduzir o quadro de funcionários, que passou de 1,2 mil para cerca de 670 colaboradores. Também foi contratada uma auditoria independente para investigar a atuação das administrações anteriores.

Ao mesmo tempo, a Cotribá tentou, sem sucesso, dar entrada com um pedido de recuperação judicial outra vez na Justiça do Rio Grande do Sul.

A cooperativa já tinha tentado expediente semelhante no fim do ano passado, iniciativa que terminou também malograda, culminando com a desistência da própria cooperativa de seguir com a ação, já no início de 2026.

O presidente da Cotribá, Carlos Diehl, chegou a dizer ao AgFeed que a cooperativa havia entendido que não teria êxito na ação e que por isso havia desistido.

Mas, para surpresa geral do mercado, a Cotribá voltou à carga em abril deste ano. A cooperativa tentou outra vez a RJ e recebeu, inclusive, decisão inicial favorável em primeira instância, mas que depois foi rejeitada em instância superior do TJ-RS.

Mais recentemente, a Cotribá firmou um acordo com o Sindicato Intermunicipal dos Empregados em Cooperativas de Produção Agrícola do Rio Grande do Sul (Sinecoop-RS) para a quitação das verbas rescisórias e dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) devidos aos funcionários que foram demitidos ao longo de 2026.

A cooperativa propôs pagamento imediato de 49% das rescisões de menor valor e quitação das demais rescisões em 24 parcelas mensais a partir de setembro deste ano.

Com sede em Ibirubá (RS), a Cotribá é a cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, criada em 1911, e soma aproximadamente 9,5 mil associados. Com foco no recebimento e armazenagem de grãos, possui 55 pontos de negócios espalhados em 21 municípios do estado do Rio Grande do Sul. No ano passado, a cooperativa faturou R$ 1,9 bilhão. Há dois anos, tinha uma receita de R$ 3,3 bilhões.

Procurada pelo AgFeed, a Cotribá informou, via assessoria de imprensa, que não iria se manifestar sobre o assunto. O ex-CEO, Paulo Goulart, não retornou aos contatos da reportagem.

Resumo

  • Cotribá encerra contrato de Paulo Goulart, que ocupava o cargo de CEO da cooperativa desde o começo do ano
  • Cooperativa não indicou se outro profissional vai assumir o posto
  • Cotribá tem dívidas estimadas em R$ 1,4 bilhão com bancos, cooperativas de crédito e produtores rurais