Depois de dois anos marcados por clima adverso e quebra de safra, o café brasileiro entra em 2026 com um cenário mais positivo neste ano. Com chuvas melhor distribuídas e temperaturas mais amenas, os cafezais mais carregados indicam uma recuperação de produtividade no radar. Contudo, isso não deve se traduzir, ao menos no curto prazo, em embarques maiores no mercado internacional.

A Cooxupé, maior cooperativa de cafeicultores do País, projeta expedições menores neste ano, pressionadas principalmente pela dificuldade de recompor o fluxo de negócios com os Estados Unidos, seu principal mercado.

A cooperativa estima uma remessa de 5,8 milhões de sacas em 2026, sendo 1,4 milhão para o mercado interno (incluindo a torrefação própria) e o restante, 4,4 milhões, para exportação direta.

Os patamares orçados são menores do que o visto no ano passado, quando a cooperativa expediu 6,4 milhões de sacas, sendo 1,5 milhão para o mercado nacional e 4,8 milhões para exportação.

Os detalhes foram divulgados em uma coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira, 18 de março, após a abertura da 25ª edição da Femagri (Feira de Máquinas, Implementos e Insumos Agrícolas), promovida pela cooperativa, por Luiz Fernando dos Reis, superintendente comercial da Cooxupé.

Segundo ele, o primeiro semestre será muito desafiador. “Temos um impacto importante nesse início de ano, com menos café disponível e dificuldade de retomada de alguns mercados. Esperamos uma recuperação no segundo semestre, mas ainda assim o volume do ano deve ficar abaixo de 2025”, afirmou.

A dificuldade passa diretamente pelos Estados Unidos. Ele cita que, mesmo com o tarifaço de Donald Trump, que esteve em vigor entre agosto e novembro do ano passado e que colocou o café numa posição complexa para vendas externas, todos os contratos em vigor foram cumpridos e as exportações atingiram o patamar esperado.

Apesar disso, cita que a cooperativa não fez nenhum novo negócio no período. “O café brasileiro ficou muito caro. Outros países aproveitaram e venderam e os EUA montaram estoques com outras origens”, disse Reis, que esteve no país da América do Norte na última semana para reuniões com clientes.

“Nós não retomamos ainda as negociações normais com os americanos. Existe um ambiente de incerteza, inclusive com investigações em andamento, que dificulta compromissos de longo prazo", prosseguiu.

A perda de espaço já aparece nos números globais. Ele relembra que, em 2024, o Brasil respondeu por 50,4 milhões de sacas exportadas em um mercado mundial de 129,9 milhões de sacas de café.

Em 2025, mesmo com o comércio global crescendo para 134 milhões de sacas, o país embarcou menos: 39,5 milhões de sacas, o que indica uma perda de participação relativa.

Nos Estados Unidos, a Colômbia assumiu a liderança como principal fornecedora no início de 2026, invertendo uma relação historicamente dominada pelo Brasil.

“Os EUA é um mercado que paga bem e não pode ficar fora do nosso radar. Mas precisamos de todos os mercados abertos para manter poder de barganha”, disse o executivo da Cooxupé.

Apesar do cenário mais desafiador no principal destino, a percepção é que a demanda global segue firme. Segundo Reis, o consumo nos EUA mostrou resiliência mesmo com preços elevados, enquanto outros países continuam ampliando o hábito de consumo, principalmente na Ásia.

Essa dificuldade de mercado pode mascarar uma safra tão aguardada, que depois de dois anos com dificuldades climáticas, tem apresentado chuvas e temperaturas consideradas favoráveis para a cooperativa.

De acordo com o vice-presidente da cooperativa, Osvaldo Bachião Filho, as condições climáticas deste ciclo indicam uma safra mais cheia, especialmente para o café arábica.

“O que a gente percebe é um clima muito melhor, com chuvas bem distribuídas e temperaturas adequadas. Isso normalmente se traduz em produtividade maior. As lavouras estão melhores e essa deve ser uma safra que não tínhamos há muitos anos. Isso dá ao produtor condição de participar melhor do mercado", afirmou.

O orçamento para 2026 é menor, segundo Luiz Fernando dos Reis, por conta da questão dos EUA, mas a cooperativa projeta um segundo semestre do ano - e também um primeiro semestre de 2027 - mais positivos.

"Agora temos um impacto importante da safra passada com pouco café disponível. A safra melhor de agora deve 'entrar' no ano que vem. Então fazemos o orçamento menor mas observamos um potencial de melhora para o começo do ano que vem", explicou.

A combinação de produtividade maior com preços ainda elevados - embora abaixo dos picos recentes - ajuda a sustentar a rentabilidade da atividade, mesmo em um ambiente de juros altos.

Dados do Cepea/Esalq, mostram que a saca de café hoje é negociada numa faixa de R$ 1,8 mil, uma queda de quase 30% em um ano, quando a saca estava em R$ 2,5 mil.

“Hoje estamos falando de um patamar entre R$ 1,5 mil e R$ 1,8 mil por saca, que é um nível bom para pagar as contas. Se olhar a história do café, é um preço que garante a sobrevivência do produtor”, disse.

Além das incertezas comerciais, o setor ainda monitora os efeitos do conflito no Oriente Médio, principalmente no custo de produção. Segundo o superintendente da Femagri, José Eduardo Santos Júnior, o impacto ocorre em duas frentes: fertilizantes e logística.

“Boa parte dos nitrogenados vem daquela região. O conflito afeta tanto o preço quanto o transporte desses insumos”, disse. Para tentar driblar o momento, a recomendação dada aos cooperados é que as compras de insumos sejam antecipadas, diferente da estratégia vista nos dois últimos anos, com compras sendo feitas de última hora.

“O mercado mudou. Aquela prática de deixar para comprar mais perto da aplicação deixou de ser segura. Existe um risco relevante de oferta e de preço".

Para a própria cooperativa, o efeito é duplo. Além de depender desses insumos, a Cooxupé também ampliou sua presença comercial justamente em regiões impactadas pelo conflito.

“Somos dependentes de fertilizantes do Irã e, ao mesmo tempo, aumentamos nossas vendas na Ásia e no Oriente Médio. Isso inevitavelmente nos afeta”, disse Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da Cooxupé.

Resumo

  • A Cooxupé projeta queda nas expedições para 5,8 milhões de sacas em 2026, mesmo com uma safra mais produtiva após dois anos de clima adverso
  • Dificuldade de recompor negócios com os EUA limita exportações no curto prazo, após perda de participação global do Brasil em 2025
  • Apesar disso, clima favorável, lavouras mais carregadas e preços ainda elevados sustentam a rentabilidade, enquanto custos seguem pressionados por fertilizantes e logística