O fenômeno chamado etanol de milho segue movimentando a economia brasileira nas mais diversas frentes. A produção do biocombustível, que era de pouco mais de 4 bilhões de litros há cinco anos, na safra 2026/2027 está sendo estimada em 12 bilhões de litros.

Uma das grandes empresas brasileiras que começa a pegar carona neste crescimento é a Ultracargo, do grupo Ultra, especializada na logística de graneis líquidos, especialmente combustíveis.

Em entrevista exclusiva ao AgFeed, o CEO da empresa, Fulvius Tomelin, disse que 8% dos volumes movimentados e também da receita obtida em 2024 estão relacionados aos biocombustíveis.

Nesta fatia, estariam principalmente o etanol, além do biodiesel, que também vem demonstrando uma produção crescente no País.

Os dados de 2025 em relação à movimentação de cargas na empresa ainda não foram divulgados pelo grupo. Em 2024, a companhia reportou a movimentação de cerca de 16 milhões de toneladas.

A Ultracargo diz ser líder “na armazenagem de graneis líquidos de empresas independentes”. A ressalva é feita porque a Transpetro movimentaria mais que a empresa do grupo Ultra, porém é uma concorrente diretamente ligada à estatal Petrobras.

“Esse número (8% de biocombustíveis) era muito mais baixo anos atrás. Ele vem crescendo exatamente porque estamos provendo soluções para poder fazer com que os biocombustíveis saiam dos seus centros produtores, que geralmente são locais mais afastados, mais no interior do Brasil, e possam chegar nos centros consumidores da forma mais eficiente possíve. E, eventualmente, serem transportados, serem exportados pra outros países também”, afirmou Tomelin.

A declaração pode ser confirmada em números. O AgFeed fez um levantamento sobre os últimos anúncios de investimentos feitos pela Ultracargo e a grande maioria está posicionada em locais onde há potencial de crescimento da produção de etanol de milho.

Um dos mais recentes foi a inauguração, em 31 de dezembro de 2025, de um desvio ferroviário em Rondonópolis, Mato Grosso, que envolveu um aporte de R$ 95 milhões. É uma conexão entre o Centro-Oeste e o Sudeste.

A ligação ferroviária ocorre entre Rondonópolis e a Opla – uma joint venture da Ultracargo com a companhia britânica de combustíveis BP, considerado o maior terminal de etanol do País, que fica em Paulínia, interior de São Paulo.

“Isso naturalmente visa tanto receber os derivados (de petróleo) no nosso terminal, mas também receber a produção de biocombustíveis ali da região, que é muito forte produtora de etanol”, explicou.

Com cerca de 4 km de extensão, o desvio conecta o terminal à malha ferroviária da região. O projeto foi concebido para permitir a operação de composições com até 80 vagões.

“A gente recebe esse produto, armazena no nosso terminal, faz o carregamento ferroviário de forma absolutamente eficiente, poupando tempo, já que você não tem que ficar fazendo sucessivas quebras da composição ferroviária. E com isso consegue transportar ele até o nosso terminal em Paulínia, no Opla. Com esses mesmos vagões você pode carregar com os derivados, sobe para Rondonópolis e aí você alimenta o agro de derivados”, descreve.

No comunicado divulgado pela empresa na época, a Ultracargo cita o etanol de milho, dizendo que a obra criaria “condições para estimular o consumo da molécula em mercados que hoje apresentam baixa penetração de etanol”.

Fulvius Tomelin lembrou que em Mato Grosso, “a produção de etanol de milho vem crescendo a dois dígitos” e que a missão da empresa é viabilizar a circulação desse produto.

A Ultracargo também anunciou no início do ano a expansão de um duto de biodiesel, em parceria com a Cofco, em Rondonópolis, com investimento de R$ 2,2 milhões.

A unidade de Rondonópolis da companhia chinesa tem capacidade de produção de 432 milhões de litros por ano, enquanto o novo duto tem capacidade de 280 m³ por hora, seis vezes mais rápido que o transporte rodoviário, segundo a Ultracargo. A previsão é eliminar a circulação de até 5 mil caminhões por ano.

“O diesel que chega ali precisa ser misturado com o biodiesel para ser vendido, para ser comercializado. Então, por que não também agregar eficiência nesse processo? Ao invés de você ter um caminhão circulando entre o fabricante (Cofco) e o nosso terminal para suprir ali de biodiesel, a gente já criou um duto que permite fazer essa ligação. É mais eficiente e ainda você não tem circulação de veículos, nem de trem”, disse o CEO.

Na outra ponta da conexão, no terminal de Paulínia, também foram feitos investimentos com foco no etanol de milho, como um desvio ferroviário, com investimento de R$ 200 milhões. A infraestrutura é conectada à malha ferroviária da Rumo e foi inaugurada em junho de 2025.

“É um investimento exatamente para poder viabilizar outra ponta desse corredor que liga Rondonópolis até Paulínia. Ali é exatamente para receber o etanol que vem do interior do Mato Grosso, que eventualmente pode vir também, pela Rumo, de Rio Verde (GO) e também para poder levar os derivados para abastecer o agro”, reforçou o executivo.

Oportunidades no Norte e Nordeste

Outro investimento importante que está ligado ao agronegócio ocorreu em Palmeirante, no Tocantins. Em setembro do ano passado, a Ultracargo iniciou as operações de um novo terminal na região, com investimento de R$ 161 milhões.

O terminal de Palmeirante está conectado com o Porto do Itaqui, no Maranhão. Os combustíveis derivados de petróleo chegam por São Luís e descem para abastecer o que é chamado de “eixo central do Matopiba”, região agrícola que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

“Há uma demanda por combustíveis, afinal de contas, você depende do diesel pra mover máquinas agrícolas, principalmente. E também ali na região tem a vocação de produção de biocombustíveis e a gente pode usar esse mesmo modal (ferroviário) para subir e levar até Itaqui e de lá ou cabotar pra outros portos ou pra ser distribuído na região ali do Maranhão, na área de influência do porto de Itaqui, ou com esperança, quem sabe um dia até que esse produto possa ser exportado e levar a marca do Brasil para outros países”, avaliou Tomelin.

No terminal de Palmeirante, a empresa diz que já está recebendo biodiesel e etanol, mas por enquanto com mais foco na mistura, para abastecer o mercado local.

“Nos desafiamos todos os dias aqui pra oferecer eficiência em solução logística. A partir do momento que eu tenho a composição, que ali no caso é a VLI que opera, descendo de Itaqui para Palmeirante, por que não subir com essa composição com alguma coisa que de outra forma ela subiria vazia? Então, com o tempo, a gente vai fomentando esse corredor, para que possa descer o derivado e subir com o biocombustível produzido na região. Pra você ter um ganho de frete”.

A expectativa com a unidade de Palmeirante é enorme porque há vários projetos de novas usinas no Matopiba que ainda devem aumentar a produção – e necessidade de logística adequada – para o etanol de milho.

É o caso da usina da Inpasa, em Balsas (MA). A empresa já é cliente da Ultracargo em Mato Grosso, mas segundo Tomelin, ainda não há negociações sobre a nova unidade do Maranhão. Também estaria no radar um projeto em Miranorte (TO), que tem previsão de iniciar a produção de etanol de milho em 2027.

Somados os investimentos de Paulínia, Rondonópolis e Palmeirante, a Ultracargo reportou R$ 458 milhões desde junho do ano passado. Alguns aportes já haviam sido iniciados em anos anteriores. A capacidade estática das unidades também vem sendo reforçada.

Até mesmo na região Nordeste, a Ultracargo relata que fez, recentemente, uma operação de exportação de biodiesel, por meio de sua unidade no porto de Aratu, na Bahia. O biocombustível foi embarcado para a Europa.

“Estamos fazendo expansão em Suape (PE), expansão em Itaqui (MA), e isso é exatamente para suportar o que está intrinsicamente ligado à economia brasileira. Onde a economia brasileira cresce é principalmente no agro. Quem tem maior crescimento e tem maior ganho de produtividade é a agricultura”, ressaltou.

No reporte feito aos acionistas do grupo Ultra no ano passado, a empresa de logística de graneis líquidos sinalizou que faria R$ 1,1 bilhão em investimentos, somente ao longo de 2025.

A receita líquida total de Ultracargo em 2024 foi de R$ 1,076 bilhão, um aumento de aproximadamente 6% em relação a 2023.

Já em 2025, nos primeiros nove meses do ano, reportados até agora, houve um recuo de 4%, totalizando R$ 760 milhões. O balanço não dá detalhes sobre o desempenho de cada um dos produtos movimentados.

Resumo

  • Ultracargo investiu mais de R$ 450 milhões em Rondonópolis (MT), Paulínia (SP) e Palmeirante (TO) para ampliar a logística de biocombustívei.
  • Produção de etanol de milho deve saltar para 12 bilhões de litros na safra 2026/27; biocombustíveis já representam 8% dos volumes da empresa
  • Novos terminais e conexões ferroviárias ligam Centro-Oeste, Sudeste e Matopiba, com foco em eficiência, redução de custos e potencial de exportação