Mogi Mirim (SP) - Como se desenvolve um defensivo? E por que isso demora tanto?

Entre o primeiro teste em laboratório e a chegada de um novo químico ou biológico ao campo, podem se passar mais de dez anos e, no caso da Corteva, consumir algo entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões (pela cotação atual, algo entre R$ 1,2 bi e R$ 1,5 bi).

O tempo estimado pela empresa desde o recebimento da molécula, fase de testes, validação, aprovação regulatória e de chegada ao mercado demora entre oito a 15 anos.

Em um momento de margens mais pressionadas no agro, a Corteva Agriscience segue apostando nesse tipo de desenvolvimento de longo prazo, e ampliando a estrutura para isso no Brasil.

O centro de pesquisa da companhia em Mogi Mirim (SP), que completa 40 anos agora em 2026, está em expansão. A área, que começou com uma fazenda de cerca de 40 hectares com só um prédio adquirida nos anos 1980, ultrapassou os 120 hectares com a incorporação de uma nova área contratada no fim de 2025.

A nova fase prevê a construção de casas de vegetação (12 ao todo), e uma estrutura voltada ao desenvolvimento de biológicos, uma frente que vem ganhando espaço dentro da estratégia da empresa.

A expectativa é que as obras sejam finalizadas até 2029. Mais do que o tamanho, o que diferencia a unidade é o papel que ela passou a ocupar ao longo do tempo.

Criado inicialmente para adaptar produtos desenvolvidos fora do País e desenvolvidos na maior estrutura de laboratórios da empresa em Indianápolis, nos EUA, o centro do interior paulista hoje concentra etapas completas do desenvolvimento, com testes de campo, laboratório e validação local.

Além disso, serve como um espaço para receber clientes estratégicos a nível nacional, como os Maggi, os Scheffer e até mesmo a Citrosuco, para mostrar os avanços tecnológicos. Na prática, é ali que a empresa decide o que avança, e, principalmente, o que fica pelo caminho.

O AgFeed esteve na unidade para entender como funciona esse ciclo da ciência e também para pinçar o que vem por aí na Corteva nos próximos anos.

De acordo com Rodrigo Neves, head de pesquisa e desenvolvimento para proteção de cultivos e biológicos da Corteva na América Latina, a ideia é “prever o que será um problema daqui a 15 anos”.

“Vamos lançar, globalmente, um produto por ano na próxima década. O centro de Mogi Mirim é quem faz a máquina girar, e por aqui passaram alguns produtos do nosso portfólio como o Conkesta Enlist”, disse.

Desses dez produtos, serão três herbicidas, três fungicidas, três inseticidas e um biológico. O pipeline de pesquisa, contudo, é bem maior.

Neves estima que a empresa desembolsaria US$ 24 bilhões se fosse lançar todas as moléculas que desenvolve. “Nem temos esse dinheiro e nem vamos lançar tudo. O desafio do time é verificar os produtos que precisam parar e os que precisam avançar”. Além do tempo, a ciência se mostra cara.

Neves cita que novas moléculas chegam para testes e podem durar apenas duas semanas no laboratório. Se nos primeiros testes o resultado não vir a contento, a amostra sai do pipeline.

“Tem casos que custa US$ 1 milhão o litro de uma nova molécula”, explica. Segundo o diretor, grandes cultivos como soja, milho e algodão recebem cerca de 80% do investimento.

O processo começa com milhares de compostos químicos. A partir daí, uma sequência de testes busca entender a dose, formulação, eficiência e segurança. A maior parte não chega ao fim.

No pipeline em aprovação, a Corteva evitou dar grandes detalhes sobre datas de lançamento, mas deu alguns indícios do que está desenvolvendo. Um novo herbicida deve combater o capim-pé-de-galinha, uma daninha de folha estreita que hoje já apresenta altas resistências ao glifosato.

Buscar produtos e combinações que ignorem a resistência a produtos mais antigos é um dos focos do centro de pesquisa.

“Priorizamos pesquisas em populações - de insetos, pragas e daninhas - resistentes”, disse Neves. O centro de Mogi Mirim é considerado por ele um “laboratório boutique”, justamente por abrigar verdadeiros condomínios de pragas.

São diversas salas com lagartas, insetos e ervas daninhas crescendo e constantemente passando por testes. A relação com os clientes que visitam o centro também se dá pela análise de amostras.

A ideia no centro é pegar uma amostra, seja de solo ou de uma folha de algum produtor, e com testes rápidos - e em meio ao cultivo na lavoura - identificar a praga correta e dar a devida recomendação agronômica.

“Queremos responder mais rápido o que o campo tem dificuldade. Em muitos casos, se esperar o bicho virar adulto, ele já devorou a lavoura”.

Outras inovações no pipeline incluem um fungicida que combate o oídio, que causa a ferrugem da soja. A ideia é que o produto não combata a praga ao mesmo tempo que cause injúrias na planta.

Dentro dos fungicidas, a Corteva tem desenvolvido soluções que combatem a cercospora, um fungo que causa manchas nas folhas.

Segundo Neves, se no passado era a ferrugem da soja que chamava a atenção do produtor, esse espaço passou a ser dividido com a cercospora, outra doença difícil de tratar com moléculas mais tradicionais.

“Estamos defasados na cercospora, que se proliferou muito nos últimos cinco anos. Não é uma doença devastadora, mas gera prejuízos expressivos. Hoje o produtor usa dois ou três produtos no manejo”, disse.

Essas doenças devem ser tratadas com um novo grupo químico a ser lançado pela empresa: as picolinamidas. A Corteva cita que a última vez que lançou um grupo químico a nível global foi há 10 anos.

O registro deverá vir para soja, algodão, HF e milho. O destaque deve ficar na soja, que segundo a empresa, os produtos ajudarão a “compor a caixa de ferramentas dos problemas”, atuando como um “coringa” livre da resistência. “Daqui pra frente não falaremos em produto e sim em programas, mecanismos de ação. Elementos combinados”.

*O jornalista viajou a convite da Corteva

Resumo

  • Corteva amplia centro em Mogi Mirim (SP) para acelerar pesquisa, com foco crescente em biológicos e soluções contra resistência
  • Pipeline inclui novos herbicidas, fungicidas e inseticidas, priorizando eficiência e combate a pragas e doenças resistentes
  • Desenvolvimento de defensivos leva de 8 a 15 anos e pode custar até US$ 300 milhões, com alto índice de descarte de moléculas

Rodrigo Neves, head de pesquisa e desenvolvimento para proteção de cultivos e biológicos da Corteva na América Latina (à esquerda), com dois pesquisadores mostrando o "cultivo de pragas" feito na unidade de Mogi Mirim