Terminou com uma decisão "salomônica" a disputa entre dois dos maiores grupos agrícolas do Brasil por terras valiosas e produtivas em Mato Grosso – ao menos por enquanto.

A Cosan, holding controlada pelo empresário Rubens Ometto, informou na manhã desta quinta-feira, 9 de julho, que firmou um acordo com a SLC Agrícola, o Grupo Bom Futuro e o produtor rural Alexandre Jacques Bottan para a venda de terras no Mato Grosso que pertenciam à Radar, empresa de propriedades rurais da Cosan e da gestora americana Nuveem. O negócio soma R$ 1,85 bilhão.

Do valor total, aproximadamente R$ 586 milhões são referentes à participação indireta da Cosan nas áreas, informou a companhia em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A venda faz parte do processo de desinvestimentos promovido pela Cosan e suas subsidiárias para reduzir o tamanho da dívida da holding, estimado em R$ 11,5 bilhões, e envolve o repasse de aproximadamente 41,2 mil hectares físicos, dos quais cerca de 28 mil hectares são agricultáveis. O volume representa 12% do total de terras pertencentes à Radar.

No comunicado, a companhia informou também que a conclusão da operação está condicionada ao cumprimento de condições precedentes usuais para esse tipo de transação e deve ocorrer até 30 de outubro de 2026.

A empresa acrescentou que manterá acionistas e o mercado informados sobre o andamento da operação, conforme a regulamentação aplicável.

A Cosan, porém, não informou o volume de terras que cada uma das empresas envolvidas na transação adquiriu, nem os valores pagos por cada companhia.

Bastidores do deal

A SLC trouxe mais detalhes sobre a sua participação no negócio em comunicado divulgado também junto à CVM na noite anterior, dia 8 de julho.

A companhia da família Logemann já arrendava 17,6 mil hectares da área pertencente à Radar quando foi surpreendida pelo anúncio de que a empresa de terras agrícolas da Cosan havia fechado um acordo para vender todo o bloco de 41,2 mil hectares ao Grupo Bom Futuro por R$ 1,8 bilhão – operação que incluía as áreas operadas pela SLC.

No último dia 26 de junho, a SLC informou que os contratos de arrendamento lhe asseguravam direito de preferência sobre a aquisição das terras e anunciou que havia exercido essa prerrogativa para comprar a totalidade do Bloco Mato Grosso.

Poucas horas depois, na mesma data, o Grupo Bom Futuro também comunicou que exerceria seu próprio direito de preferência, alegando ser arrendatario de outra parcela da área e, por conta disso, possuir cláusula contratual equivalente.

Com os dois arrendatários reivindicando o mesmo direito, teve início um processo de negociação entre as partes, que culminou em um acordo para a divisão dos ativos, informou a SLC no comunicado.

Ao final, a empresa da família Logemann levou 8,9 mil hectares agricultáveis por R$ 669 milhões. O pagamento será feito em duas parcelas: R$ 255,1 milhões na assinatura do acordo e R$ 413,8 milhões até 30 de outubro de 2026.

Desconsiderando a infraestrutura incorporada à operação, avaliada em aproximadamente R$ 29,7 milhões, o valor da terra nua agricultável totaliza R$ 639,3 milhões, equivalente a cerca de R$ 72 mil por hectare agricultável.

O valor da aquisição inclui toda a infraestrutura existente na propriedade, como silos, unidade de beneficiamento de algodão (algodoeira) e outras benfeitorias operacionais.

A SLC já cultivava essas áreas por meio de contratos de arrendamento, operando cerca de 17,6 mil hectares com soja, milho e algodão em sistema de rotação de culturas e segunda safra.

A empresa agora vai adquirir metade das terras – 8,9 mil hectares – e continuar arrendando a outra parte – 8,7 mil hectares.

Desse total, 5,3 mil hectares permanecerão arrendados até a safra 2029/2030. Outros 900 hectares até a safra 2026/2027 e 2,5 mil hectares serão objeto de um novo contrato com a Santa Maria Holding Ltda, nova detentora das terras e que tem como sócio-administrador Alexandre Jacques Bottan, após o término do arrendamento atual, no fim da safra 2026/2027. O novo contrato terá duração de 15 anos, com custo equivalente a 19,5 sacas por hectare.

Para Ivo Brum, diretor financeiro e de relações com investidores da SLC Agrícola, a operação reforça a estratégia de alocação disciplinada de capital da companhia.

"A operação está alinhada à estratégia da SLC Agrícola de crescimento com disciplina financeira e foco na geração de valor no longo prazo. Trata-se da aquisição de uma área que já integra nossa operação, com características produtivas conhecidas e infraestrutura instalada, fatores que contribuem para a eficiência operacional e para a previsibilidade da execução," afirmou Brum, em nota.

Cosan sofre corte em rating

Em paralelo ao fechamento do deal na Radar, a Cosan teve sua nota de crédito rebaixada pela agência de classificação de riscos S&P Global Rating na quarta-feira, dia 8 de julho, de BB- para B+.

A S&P citou a fragilidade da estrutura financeira da holding e a necessidade de novos desinvestimentos para honrar o serviço da dívida.

Na avaliação da agência de classificação de riscos, a perda da Raízen como principal fonte de dividendos alterou significativamente a geração de caixa do grupo, enquanto os dividendos remanescentes de Rumo, Compass, Moove e Radar não são suficientes para cobrir as despesas financeiras nos próximos dois anos.

"A trajetória atual da Cosan sugere que desinvestimentos agressivos para atingir as metas de desalavancagem podem corroer ainda mais os lucros do grupo", diz.

A S&P avaliou ainda que, embora a liquidez tenha melhorado após amortizações de dívida, emissão de ações e o IPO da Compass, a estrutura de capital continua "complexa e onerosa" e dependente da venda de ativos.

A agência também alertou que novos desinvestimentos, embora possam reduzir a alavancagem, tendem a enfraquecer a diversificação dos negócios e a capacidade futura de geração de dividendos.

"O impacto final na diversificação dos negócios da Cosan e em sua estratégia de longo prazo permanece altamente incerto", projetou a S&P.

Apesar do corte no rating, as ações da Cosan apresentavam alta de 1,33% às 11h30 desta quinta-feira, dia 9 de julho, cotadas a R$ 3,80 cada. No ano, porém, acumulam queda de 27,6%.

Resumo

  • Cosan vende 41 mil hectares da Radar por R$ 1,8 bilhão para SLC Agrícola, Bom Futuro e produtor rural
  • Acordo divide os ativos entre as duas gigantes do agro e põe fim à concorrência por um dos maiores negócios do mercado imobiliário do agro no ano
  • SLC informou ter adquirido 8.9 mil hectares agricultáveis por R$ 669 milhões